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O signo da Europa são doze estrelas

Se a ciência não explica tudo e se a tecnologia não resolve tudo, sobretudo o sentido da nossa existência e a sua felicidade, também é verdade que hoje sabemos que os astros não influenciam “magicamente” as nossas escolhas e o nosso destino. A não ser que algum deles venha contra o planeta Terra destruindo-o e a nós com ele.

Por isso, a crença que a astrologia e a magia possam comandar a vida, é sinal duma grande ignorância sobre a natureza humana e dum certo infantilismo que transfere para outros pseudo-poderes a responsabilidade que nos cabe de dirigirmos a nossa vida, de forma sábia e partilhada. Signos astrológicos, astros, cartas, pedras ou ossos, conchas e bola-de-cristal, mézinhas e “rezas” (que não são oração!) reclamam um estatuto sério que não podem ter.

No entanto, sempre que olho a bandeira da Europa, vejo nela um signo inspirador e confiante. Do Apocalipse de São João, o último livro da Bíblia: “Depois, apareceu no céu um grande sinal: uma Mulher vestida de Sol, com a Lua debaixo dos pés e com uma coroa de doze estrelas na cabeça. Estava grávida e gritava com as dores de parto e a angústia de dar à luz” (Ap 12, 1).

O círculo das dozes estrelas sobre fundo azul da bandeira europeia inspiram-se nesta visão profética do evangelista S. João. Numa época de incerteza e grande sofrimento, provocados pela perseguição brutal do Império de Roma contra os cristãos, o sinal da Mulher – Maria e a Igreja – revestida da luz, que faz o dia e vence a escuridão da noite, confortou a muitos e fortaleceu a sua esperança que o mal não venceria para sempre.

No discurso aos Chefes de Estado e de Governo no encontro comemorativo dos 60 anos da assinatura do Tratado de Roma (ocorrido em 25 de março de 1957) que deu origem às Comunidade Europeias (e à atual União Europeia), o Papa Francisco recordava os Pais da Europa, para nos deixarmos interpelar pelas suas palavras, pela atualidade do seu pensamento, pelo esforço apaixonado pelo bem comum que os caracterizou, pela certeza de serem parte duma obra maior que eles próprios e pela amplidão do ideal que os animava. O seu denominador comum era o espírito de serviço, unido à paixão política e à consciência de que “na origem da civilização europeia se encontra o cristianismo”, como disse o politico italiano e um dos pais da Europa, Alcide de Gasperi (em “A Europa nossa pátria”, Discurso na Conferência Parlamentar Europeia, 21 de abril de 1954) citado por Francisco.

Alcide de Gasperi – tal como outro co-fundador da Europa, o francês Robert Schuman – têm os respetivos processos de beatificação a decorrer e foram já declarados Servos de Deus. Talvez um dia os possamos ver proclamados santos pela forma como exerceram a função política ao serviço dos povos que governaram e da Europa que ajudaram a (re)construir. Sem complexos e de forma respeitosa e respeitada, estes homens verdadeiramente visionários – libertos ainda das cegas ditaduras ideológicas do politicamente correto, do tolerantismo (coisa diferente da tolerância) e do pensamento único obrigatório e da consagração idolátrica do individualismo libertário absolutista – afirmavam a origem inspiradora do cristianismo, sem a qual os valores ocidentais de dignidade, liberdade e justiça são em grande medida incompreensíveis. Valores que não encontraremos, com certeza, nas revoluções sanguinárias que fizeram milhares de vítimas pela guilhotina, fuzilamentos, guerras, cercos e fome no último século da história europeia.

“Ainda nos nossos dias – afirmou o Papa São João Paulo II – a alma da Europa permanece unida, porque, além da sua origem comum, tem idênticos valores cristãos e humanos, como são os da dignidade da pessoa humana, do profundo sentimento da justiça e liberdade, do trabalho e do engenho, do espírito de iniciativa, do amor à família, do respeito da vida, de tolerância e de desejo de cooperação e de paz, que são notas que a caraterizam” (Ato Europeísta, 9/11/1982). Ao que Francisco acrescenta: “Neste nosso mundo multicultural, tais valores continuarão a gozar de plena cidadania se souberem manter a sua ligação vital com a raiz que os gerou. Na fecundidade desta ligação, está a possibilidade de edificar sociedades autenticamente laicas, livres de contraposições ideológicas, onde encontram igualmente lugar o migrante e o autóctone, o crente e o não crente”.

O estandarte europeu não tem nele o signo do Euro nem de uma ideologia. As dozes estrelas da visão bíblica – sinal da Mulher que dá Cristo à luz – inspiram confiança e esperança na vocação humanista da Europa.

Aproximando-se o centenário das aparições de Fátima, é de novo a Mãe de Jesus que se apresenta aos europeus como presença inspiradora que, nestes tempos de incerteza e angústia, podem dar à luz os valores, as virtudes e os princípios que nós recebemos dos Pais da Europa, para fazer dela uma “comunidade de pessoas e de povos, consciente de que o todo é mais do que a parte, sendo também mais do que a simples soma delas, pelo que é preciso alargar sempre o olhar para reconhecer um bem maior que trará benefícios a todos” (Papa Francisco).

Mãe de Cristo e Mãe dos homens, Nossa Senhora de todas as invocações em nossas alegrias e tristezas, rogai por nós!

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