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Fui eu. Fui eu, o eucalipto, o culpado da catástrofe incendiária que matou 64 pessoas, feriu mais de 200, destruiu dezenas de hectares de floresta, muitas casas e postos de trabalho, e que alterou a vida de muitos residentes na região de Pedrogão Grande, Pampilhosa da Serra, Figueiró dos Vinhos, Góis…

Ainda tentaram que o culpado fosse a trovoada seca e um raio “terrorista”, as condições meteorológicas esquisitas nunca vistas, o funcionamento ou não funcionamento do SIRESP (uma rede de comunicações entre as polícias, os bombeiros e serviços da Proteção Civil, que alguns relatórios juram ter funcionado bem e outros asseguram ter falhado completamente). Apontaram o dedo aos atuais Ministros da Agricultura e/ou da Administração Interna, ao atual Chefe de Governo (que já foi Ministro da Administração Interna noutros tempos e que fez grandes alterações neste setor). Na impossibilidade de responsabilizar os atuais governantes (os coitados vieram de chegar há pouco mais de ano e meio) tentaram culpar os Ministros do passado recente pelo desordenamento do território, pela falta de limpeza e má conservação das florestas, pela falta de chuva e excesso de sol, blablá, mas também sem grande sucesso… E ainda não se lembraram eles que o responsável deve ser o rei D. Afonso III (ou D. Dinis?), que mandou plantar o vizinho Pinhal de Leiria no distante século XIII (de certeza que esse senhor deve ter alguma coisa a ver com isto: o homem não foi eleito democraticamente pelo povo e não professava uma das ideologias progressistas e iluminadas que sabem tudo e têm sempre razão).

Apesar dos muitos milhões de euros investidos em material e bombeiros, em helicópteros apaga-fogos e tecnologias de comunicação, também isso parece que não chega. Chegou-se mesmo a dizer que se tinha feito tudo o que se podia fazer. E uma Deputada ateia fez um tweet-prece ao deus-Mecânico do universo a pedir chuva! Se não fosse triste, daria vontade de rir…

Mas na verdade, quando morrem 64 pessoas, a maior parte a tentar fugir, não se fez tudo o que se devia ter feito: o Estado – Governo central e organismos tutelados pelos diversos Ministérios, os Municípios – falharam totalmente. E, no entanto, 137.687.616 euros foram atribuídos à Proteção Civil no ano de 2017: 85,45% do total orçamentado na rubrica Aquisição de Bens e Serviços serão gastos no Dispositivo de Meios Aéreos de Combate a Incêndios Florestais. Ainda assim, 64 vidas foram perdidas. No Canadá, uma área muito maior de floresta foi destruída por um violentíssimo incêndio, 80.000 pessoas foram evacuadas de uma cidade cercada pelo fogo e nem uma pessoa morreu. Não, não somos de todo os melhores dos melhores do mundo.

Mais uma vez o Estado – omnipotente e omnipresente – falhou. O Estado, que alguns defendem como a Grande-Mãe de todos os cidadãos, o Provedor de todas as necessidades, o Único Educador autorizado, o Supremo-Curador de todas as enfermidades, colapsou. E 64 vidas foram perdidas, mais de 200 ficaram feridas e alterou-se para sempre a vida de muitos mais… O Estado colapsou e ninguém pede desculpa. E falhou porque, apesar de todas as leis, elas não se fazem cumprir e porque os municípios preferem gastar mais dinheiro em rotundas, em festas populares e em garantir a vitória numa próxima eleição, do que em promover a limpeza das matas, o correto ordenamento da floresta e fazer uma atempada fiscalização para proteger as populações. O Estado falhou, porque em Portugal não há uma cultura de responsabilidade nem hábitos de prevenção, disciplinada e rigorosa: “amanhã logo se vê” e, com sorte, “não acontecerá nada”.

Ninguém assume coisa alguma e ninguém pede desculpa seja pelo que for, porque o responsável é o outro: o Primeiro-Ministro exigiu publicamente respostas à sua Ministra, a Ministra dele exigiu respostas aos Organismos públicos por ela mesma tutelados, e cada um desses Organismos públicos disseram ter funcionado corretamente, acusando os outros de falharem. O Estado falhou, porque a desorganização e o individualismo impera e a maior parte dos Comandantes da Proteção Civil (foram 15) tinha sido substituída em abril por razões políticas. Ao que parece, não há profissionais tecnicamente competentes para chefiarem toda uma organização. É preciso mesmo terem a confiança política dos Governantes. E eu, que não passo de um eucalipto, é que sou o culpado.

Esquecem-se, no entanto, que a diminuição da população no interior do país, a alteração dos hábitos de vida (ninguém vai hoje para a floresta buscar lenha para fazer fogo na cozinha de casa) e a necessidade de tirar algum rendimento das terras em tempo útil de vida, levaram a escolher o eucalipto como árvore a plantar.

Eu, eucalipto, me confesso: é verdade que somos mais, mas porque crescemos depressa e nos podem cortar mais cedo para fazer dinheiro. Ninguém pode esperar décadas para que uns carvalhos cresçam e possam dar sustento a uma família e ninguém tira sustento de uma terra cheia de arbustos. E com fogos tão frequentes ninguém pode esperar 20 ou 25 anos para que um pinheiro atinja a maturidade para ser cortado. E agora gritam alguns: “Nem mais um eucalipto para a floresta portuguesa!”. Mas eu não tenho culpa! Ou tenho?! Veremos o que os especialistas dirão…

Seja como for, uma coisa é certa: se as árvores em Portugal votassem para a Assembleia da República e para as Câmaras Municipais, muito provavelmente haveria menos incêndios.

Aos que morreram dai-lhes, Senhor, o eterno descanso. E aos responsáveis políticos e técnicos, confessos ou não, perdoai-lhes Senhor, porque eles insistem em fazer de conta que não sabem o que fazem.

 

Note bem: na sexta-feira, 7 de julho, pelas 21h00, o Sanctuaire de Notre Dame de Fatima-Marie Médiatrice (Paris 19), em pareceria com a Academia do Bacalhau de Paris, acolhe um concerto com a violinista Natalia Juskiewicz e em que participam os coros do Santuário e da Comunidade portuguesa de Eaubonne, acompanhados ao órgão. Entrada livre. A assistêntia é convidada a fazer a sua oferta num “tronc de dons” a favor das vítimas dos incêndios no distrito de Leiria e a totalidade da receita será confiada à Comunidade Intermunicipal da Região de Leiria (IBAN PT 50 0035 0393 0013 84791308 1). Bem-hajam os que participarem neste gesto de partilha fraterna.

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