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Numa entrevista ao LusoJornal, a Presidente do Instituto Camões, Ana Paula Laborinho fala das mudanças no ensino de Português em França e diz que o Ministério francês da Educação devia investir mais nesta área. Diz também que os professores têm metodologias para ensinar, na mesma sala de aula, a alunos em vários níveis de aprendizagem.

Paris tem o único Centro Cultural em que os funcionários ainda não aceitaram a proposta de estatuto que o Instituto Camões lhes quer proporcionar.

A entrevista foi feita em Lisboa, na sede do Instituto Camões, a instituição portuguesa que gere a rede de Ensino Português no Estrangeiro, que vai ter em França, a partir de setembro, 89 Professores de Português, mais um do que no ano letivo que agora termina.

 

Podemos começar por questões de fundo: o objetivo do Instituto Camões no estrangeiro é ensinar português língua materna ou língua estrangeira?

Nós usamos as metodologias mais adequadas aos alunos. E tentamos até privilegiar abordagens mesmo ao nível da formação dos professores, que permitam a diferenciação desse ensino. Pode ter na mesma sala de aulas alunos diversos, alunos que dominam melhor o Português e alunos que o dominam pior e portanto a questão essencial é metodológica. Aliás em relação às Comunidades, temos vindo a desenvolver uma metodologia a que nós chamamos Português língua de herança, que tem a ver com uma ligação à língua que é mais estreita do que para um estrangeiro. Portanto não usamos a metodologia de Português língua estrangeira para aqueles que têm uma ligação efetiva com a língua.

 

É possível fazer essa separação dentro de uma sala de aulas?

É possível fazer a separação. Há metodologias que o permitem. Hoje em dia sabemos que mesmo em Portugal, nas salas de aulas, há situações muito diferentes de alunos estrangeiros com alunos portugueses e portanto aquilo que é importante é a diferenciação. Os professores trabalham isso na sua própria formação. Devo dizer que o Português língua de herança tem uma metodologia que se aproxima do Português língua estrangeira, mas não é a mesma coisa. O Português língua materna, é aquele em que nós somos socializados e até que nos vem da família, muitas vezes ainda antes da escolarização. Isso também pode acontecer com as nossas Comunidades, mas o que acontece também é que eles estão inseridos em meios onde geralmente não é utilizada essa língua, eles próprios vão de imediato construindo um bilinguismo. E eu gostava sobretudo de sublinhar que é uma questão demasiado metodológica. O que nós temos é de adaptar o ensino à realidade dos alunos que temos na sala de aulas. E temos que trabalhar isso com os nossos professores. Hoje em dia temos muitas mais crianças que até começaram a sua escolarização em Portugal, obviamente que têm um domínio da língua completamente diferente. Não é fácil.

 

Um dos problemas maiores é o facto dos pais não inscreverem os alunos nos cursos de Português. Como se pode motivar os pais?

Nós temos procurado passar na mensagem aos encarregados de educação a importância e a relevância internacional da língua portuguesa. Aprender o português é importante por razões que têm a ver com as raízes e a identidade, mas também é importante perceberem que o Português é hoje uma ferramenta útil para os seus filhos, às vezes até mais útil do que o próprio Inglês – que hoje toda a gente aprende – mas haverá mais necessidade de aprender o Português no mundo que está completamente a mudar, em que o hemisfério sul está a ganhar uma relevância muito grande. Hoje viajamos cada vez mais, mesmo do ponto de vista profissional já é difícil pensar que vamos viver e morrer no mesmo sítio e essa necessidade de nos deslocarmos e o crescimento que estamos a assistir no hemisfério sul indica que o Português vai ser uma língua de maior relevância, não só por causa do Brasil, mas também por um crescimento em África e esse lado do mundo que durante muito tempo esteve na sombra, está a emergir e a passar para a luz. Até pelo seu dinamismo e por um conjunto de riquezas relevantes que estão no hemisfério sul. Se olharmos do ponto de vista geopolítico e geoestratégico, percebemos que a língua portuguesa tem hoje uma importância muito grande. Os estrangeiros estão muito atentos a isso e quando nós pensávamos que seria um trabalho de décadas e quando conseguimos que pela primeira vez um exame de admissão às Universidades americanas passasse também a integrar o Português, em apenas dois anos, isto mostra que há uma grande atenção do que se está a passar no mundo. Muitas vezes os encarregados de educação olham apenas para o Português pelas razões identitárias, mas o Português para os seus filhos será muito mais do que isso. Ainda há outro aspeto e que foi relevante, li agora uma entrevista do Ministro dos Negócios Estrangeiros no Luxemburgo e que chamava a atenção para esse facto: tivemos ali dificuldades, ele dizia que o ensino do Português tem que se manter para uma melhor integração destas crianças, porque se não dominarem bem a sua língua materna, terão muita dificuldade em aprender as línguas locais. Também por razões que se prendem com o sucesso escolar dos alunos, é importante a aprendizagem do Português.

Ana Paula Laborinho

Lusa / António Cotrim

 

Em França, os Liceus internacionais têm um ensino bilingue de grande qualidade. Há pedidos do Instituto Camões para desenvolver esta rede em mais liceus?

Temos trabalhado nesse domínio e é de facto uma boa escolha por parte dos encarregados de educação. É um ensino de elite, caro e muitas vezes não há vontade pela parte das entidades em abrir muitas Secções e restringem Secções em função dos custos que estas estruturas têm. Mas é óbvio que é uma opção de grande qualidade.

Mas algo que me está a surpreender nestes últimos tempos é o sucesso deste novo dispositivo que temos em França – o EILE. O ensino da língua e cultura de origem – o ELCO – era um sistema que já estava muito ultrapassado, que tinha problemas de imagem, ligado apenas à ideia da emigração dos anos 60 e há muito que pedíamos para que o Português fosse visto como língua internacional. Não criaram um sistema novo, mas ao escolher o Português como projeto piloto, é porque já se reconhecia que tinha características diferentes de outras línguas como o árabe, o turco,… que também faziam parte do sistema ELCO. A diferença está no facto que nós temos programas alinhados com padrões internacionais, temos avaliações de professores, temos até manuais escolares específicos para os alunos, temos também a própria formação de professores e fazemos certificações destas aprendizagens. Foi este quadro que permitiu que fôssemos escolhidos. A minha perspetiva continua a ser também que os Franceses colaborem mais e tenham mais professores, porque a verdade é que é Portugal que ensina francês em Portugal e depois é Portugal que ensina português em França. Ensinamos dos dois lados, portanto é necessário que a França faça um maior esforço. Temos tido um número de inscrições nestes novos cursos que ultrapassou bastante as nossas expetativas. Aliás este ano vamos alargar a rede em França, não tanto quanto gostaríamos, mas vamos fazê-lo, o que mostra é que este dispositivo funcionou e que conquistou novos públicos.

 

Por vezes o problema é que os Diretores é que decidem se o curso fica integrado no horário normal ou se fica no fim do dia, e portanto há muitas reticências…

Sim, mas o ELCO também já era no fim do dia. Mas não vou também escamotear as nossas próprias dificuldades. Temos de ter uma mancha horária bastante extensa, porque os nossos professores estão em comissão de serviço, vão daqui para lá ensinar e nós precisamos que tenham o horário completo, senão será muito difícil para eles poderem estar a trabalhar em França com horários incompletos. Com esta modalidade, apanhamos toda a faixa horária, não apenas os finais de tarde. E queria sublinhar o trabalho da Coordenação do Ensino em França que tem feito um trabalho extraordinário de acompanhamento e de encontrar soluções para estas questões muito práticas. São elas que decidem se há ou não aulas.

 

A França só ensina Português no Secundário, no Primário continua a ser só Portugal…

Sim é isso. A obrigatoriedade da continuidade está no Acordo, ainda não chegamos lá, mas a verdade é que ficou no Acordo. Nós temos as Comissões de acompanhamento. Todos os anos vamos reunindo essas Comissões. A verdade é que temos cerca de 230.000 alunos a aprender Francês em Portugal e os professores são pagos por Portugal e por outro lado continua também a ser Portugal a pagar a maior parte dos professores em França.

 

Mas esse foi o Acordo que foi assinado entre as duas partes… que já vem dos anos 70…

Não, o Acordo não é esse. Não diz que é exclusivo deles, mas diz que eles também colaboram e que têm que contribuir.

Ana Paula Laborinho

Lusa / António Cotrim

 

Mas nenhum professor de Português no Primário é pago pela França…

Sim, mas a questão é que nalguns casos não tem havido continuidade entre a primária e o secundário e é isso que é necessário. Há alunos que estudam Português no primário, e depois quando entram no Colégio não têm aulas de Português. Além disso é preciso que abram os quadros e que haja mais professores a entrar para os quadros de Português e é um compromisso que a França assumiu neste Acordo e que esperemos que cumpram.

 

Ainda sobre os Liceus internacionais… apareceu pela primeira vez em França um Liceu internacional brasileiro, em Ozoir-la-Ferrière, junto a Paris, pago pelo Brasil. Não há uma colaboração entre Portugal e o Brasil na promoção de língua?

Não conheço o processo. No caso dos Liceus internacionais, nós não pagamos inteiramente, já que também é da responsabilidade do Ministério da Educação francês. Temos procurado muitíssimo uma colaboração com o Brasil, naturalmente só podemos alcançar se houver vontade das duas partes, e temos sempre manifestado o interesse em trabalhar em conjunto, porque nos parece que não faz sentido essa divisão. Nunca conseguimos – apesar de existir vontade – avançar por aí, até porque eles têm um sistema que é diferente do nosso e dos outros países europeus. A verdade é que Portugal, como a Espanha ou a França, nós temos instituições, neste caso o Camões, que são responsáveis desta missão e a centralizam. E portanto, posso dar uma ordem à rede internacional a dizer ‘façam desta maneira, trabalhem de forma coordenada com o Brasil’, por exemplo. Eles têm um sistema atomizado, uma parte está no Ministério da Educação, outra parte no Ministério da Cultura, ou ainda no Minstério dos Negócios Estrangeiros, e depois têm muita autonomia local. No fundo são projetos locais, têm muita dificuldade mesmo que queiram em conseguir esta linha de comando que um Instituto francês ou um Cervantes e nós também conseguimos, porque temos tudo centralizado num só Ministério, mas há aqui uma concentração de competências que nos permite dar as orientações. O problema é no terreno que não se tem avançado.

 

A Plataforma de ensino à distância, é mais uma ferramenta para aqueles que não têm a possibilidade de ter aulas de português. Já houve outras experiências que não resultaram. O que é que esta tem a mais?

Penso que são muito diferentes. Aquilo que sei que tinha sido lançado, era uma escola virtual com todas as disciplinas de ensino. Este não é o caso. Tem cursos de língua portuguesa materna e cursos de Português língua de herança. E é muito dirigido a complementar a oferta. Estou a pensar em lugares onde não haja professores e é uma ferramente útil. E vamos lançá-la duma outra forma que é como complemento de formação. A Europa não é muito sensível a isso, mas nos Estados Unidos e no Canadá há uma utilização muito forte destas Plataformas como complemento de ensino e até como ferramenta em sala de aula. O que esta Plataforma tem é de facto um complemento de formação, ou a formação completa para quem não tem outra hipótese, mesmo para os professores poderem utilizar na aula.

 

Como uma “tele-escola” dos tempos modernos?

Não é uma tele-escola, mas permite ao professor dispor de uma ferramenta que hoje em dia é muito atrativa para ainda captar mais o interesse e promover o desenvolvimento dos alunos.

 

Outra vertente na sua missão é a gestão dos Centros Culturais no mundo, nomeadamente o de Paris. O estatuto dos empregados desses Centros é uma questão por resolver?

Neste momento, temos apenas para resolver esse caso. É um caso difícil. Temos 19 Centros com 60 funcionários e Paris é a única situação por resolver. Ainda não encontrámos forma de conciliar vontades ou legalidades. Por um lado os trabalhadores não concordam com os termos do contrato e portanto estamos a tentar encontrar uma solução, não sei se será possível, para um consenso em torno dos contratos. Ainda hoje tive pela primeira vez a reunião de avaliação dos trabalhadores dos Centros Culturais, a situação está regularizada em todo o mundo, não está efetivamente regularizada em Paris, não por nós não termos enviado os contratos, mas porque não há acordo em relação aos termos dos contratos que são contratações locais.

 

No que se refere ao ensino de Português das Universidades, o ensino está estável ou vai sofrer algumas mudanças?

Temos uma rede de ensino superior ao que chamamos de “rede oficial” e depois a “rede protocolada” com Universidades. Em 2010, uma parte grande dessa rede ainda estava na Europa. O que tem sido o nosso esforço é – não saindo das universidades onde estamos, mas por outro lado considerando que a forma de apoio talvez já possa ser diferente, já não precisa do mesmo perfil – temos estado a aumentar a nossa presença noutros lugares do mundo que estrategicamente nos interessa. Por exemplo este ano vamos reabrir na Costa do Marfim, também porque temos lá o Banco de Desenvolvimento e queremos trabalhar junto de organizações internacionais, estamos numa aposta muito grande na América latina, já tínhamos em anos anteriores reforçado a Colômbia, vamos abrir no Peru e iniciar também a presença no Panamá. No ano passado abrimos em Cuba. Portanto estamos a diversificar. Também abrimos em África (no Quénia) e a equilibrar mais no mundo.

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