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Esta é apenas a segunda vez que aceito falar da minha emigração e embora não seja coisa fácil para mim, reconheço que é uma maneira de me reconciliar com a minha infância. Tipo terapia.

Pois levaram-me desta Terra, forçada e constrangida com a idade de apenas 6 aninhos. A partida foi terrível porque misteriosa; eu não queria ir para a França, para onde o meu pai tinha ido 14 meses antes, a salto, deixando a família um longo tempo sem poder dar notícias…

A minha avó, que sempre vivera connosco – e mulher que eu adorava – faleceu de desgosto 2 meses antes da nossa viagem; é esta a minha primeira recordação de menina: a morte da minha avó Balbina e que nunca saiu da minha memória.

A viagem de comboio foi como um castigo, longa e cansativa; nunca mais chegávamos. Essa impressão permanece em mim e ainda hoje detesto viajar de comboio.

Não gostei da França. Nada me agradava naquele país. Fomos viver para o campo, numa casinha pobrezinha. Não percebia nada do que se dizia. O meu pai trabalhava longe, numa pedreira, e eu com o meu irmão David, para ir para a escola, tínhamos que caminhar 6 km de manhã e outros tantos à tarde. Almoçava na cantina e não gostava da comida.

Por isso foi doloroso para mim ser emigrante e posso dizer que conheci a realidade da Saudade (descrita por Camões ou Pessoa). Saudades da minha terra, mas sobretudo dos meus familiares: das minhas tias e dos meus tios, dos abraços e das lindas palavras deles todos.

Fiz então uma resistência à aprendizagem da língua francesa e durante 2 anos não aprendi nada, pois não queria ser de lá!

Com 7 anos, no Carnaval, a professora primária pediu para eu ir vestida de Quadrazenha e esse evento fez que a minha mente fixou o facto de eu ser Quadrazenha para sempre!

Saímos do campo e fomos todos viver para a cidade de Tours e tudo se tornou então diferente, ficava tudo mais perto e os anos de 1960 traziam cada dia mais Portugueses junto de nós e assim se formou uma Comunidade lusófona.

Aí, em dois anos superei o atraso e rapidamente falei bem a língua francesa e aos 11 anos de idade fui projetada intérprete para todos aqueles e aquelas que chegavam e isso obviamente contra o meu desejo, pois para uma adolescente ter que acompanhar, nas diferentes repartições, analfabetos, mulheres vestidas de luto, com lenços e xailes na cabeça, ao encontrar as companheiras da escola ou da turma proporcionava-me muita vergonha…

Mas os meus pais, altruístas, foram fantásticos para com os seus conterrâneos e souberam convencer-me dizendo: “Filha, faz bem e não olhes a quem” e lá ia eu!!!

Portanto, sem entrar em mais pormenores, devo confessar que isso tudo foi bem doloroso para mim, e confirmo que emigrar é doloroso.

Não gosto da expressão “dever de memória”, mas posso-lhes dizer que quando se chega a um país estrangeiro, é um verdadeiro choque cultural e educacional!

Felizmente o destino quis recompensar-me e depois de ter ajudado tantos compatriotas, tive a oportunidade de tirar um curso de contabilidade, mas rapidamente senti em mim o desejo de ensinar a língua portuguesa e de transmitir a cultura das minhas origens.

Apesar do meu pai ter partido para oferecer um futuro melhor à família, era ele só a ganhar para o sustento do lar composto de 6 filhos. Então eu tive que começar a trabalhar. Mas sempre estudei em paralelo, e autodidata, vim passar exames e consegui diplomas na Faculdade de Letras de Coimbra três anos seguidos.

Matriculei-me na Faculdade de Letras de Poitiers (românicas) na qual consegui concluir com sucesso o curso. Depois obtive o diploma de Português comercial na Câmara de Comércio e Indústria Franco-Portuguesa em Paris.

Isso tudo permitiu que eu exercesse durante 35 anos como professora de Português em colégios, liceus, na Faculdade de Letras François Rabelais de Tours, na Faculdade de Farmácia, na escola Politécnica, em associações, etc. Sempre que se procurava um professor de Português, vinham bater à minha porta.

Posso dizer que ensinei a minha língua materna a centenas e centenas de jovens e menos jovens!

Naqueles mesmos anos dei apoio, tipo “solicitadora”, no quadro de uma associação: “Entraide aux Travailleurs Migrants”, durante 22 anos, várias horas por semana e assim esforcei-me proporcionar apoio, conselhos e orientações a milhares de Portugueses.

Além disso, durante 15 anos desempenhei o papel de tradutora nos hospitais e clínicas da cidade para os pacientes que não falavam francês, isso de 1970 a 1985.

Em 1976, fui solicitada para concorrer ao ofício de tradutora-intérprete ajuramentada junto do Tribunal da Relação de Orléans. Fiquei aprovada e durante esse tempo todo acompanhei linguisticamente, mas não só, gente lusófona, quer ante a Justiça ou no meio carceral.

Isso tudo em prol do bem comum. Sempre que me encontro em frente de um Português, um Angolano, um Caboverdiano, um Guineense, um Moçambicano, um Brasileiro, de repente surge em mim a origem da minha emigração, e faço tudo para transmitir à pessoa calma e segurança e tento resolver os seus problemas da melhor maneira… Pouco importa quem for e a autoridade que estiver à frente.

O meu pai dizia, apesar de não ter enriquecido, que “ele era um homem rico porque tinha 6 filhos todos bem formados” e é sim, esse facto o melhor sucesso da nossa emigração e valeu a pena!

Apesar de ter adquirido a nacionalidade francesa aos meus 14 anos e de ter sofrido como salientado anteriormente até à idade adulta da minha posição de estrangeira residente, hoje reconheço fazer parte dos privilegiados e orgulho-me por me sentir tanto de lá como ainda de cá; de ter desejado em setembro de 2010 servir na qualidade de Mordoma, Santa Eufêmia de Quadrazais, e de voltar, com o meu marido que é Francês, com frequência à Terra que me viu nascer e ter deixado de me envergonhar em dizer que alguns dos meus familiares eram analfabetos e contrabandistas…

Como dizia Fernando Pessoa, “a minha Pátria é a minha língua”. Por isso é importantíssimo que o Governo português ofereça às Comunidades portuguesas no mundo, a possibilidade de se aprender o idioma dos seus antepassados.

Por fim,

Que este meu testemunho nos faça reflectir sobre a dimensão humana das Comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo.

E que esta minha voz, faça tomar consciência, da necessidade de um melhor entendimento da realidade da nossa emigração, como assim das suas componentes e por conseguinte, da necessidade de maior compreensão, paciência, tolerância e solidariedade para com os emigrantes.

É uma chance para esta parcela ibérica – e que ao meu ver irá tornar-se a Califórnia dos Estados Unidos da Europa – que o seu povo, verdadeira diáspora, continue a querer voltar. Façam-lhe sempre mostra de bom acolhimento!

 

Nota: Esta foi a intervenção de Glória Martins durante o Colóquio “Labirintos da Memória II – Migrações, Novas Vozes, Novas Fronteiras”, no Sabugal, a 28 de julho de 2017.

Glória Martins é de Quadrazais (Sabugal), mas mora em Tours.

 

 

 

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