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O Evangelho deste domingo, dia 20, é muito difícil. É quase embaraçante, pois propõe-nos um Jesus a que não estamos habituados: um Jesus desagradável e antipático.

 

« (…) a mulher [cananeia] veio prostrar-se diante d’Ele, dizendo: “Socorre-me, Senhor”. Ele respondeu: “Não é justo que se tome o pão dos filhos para o lançar aos cachorrinhos”».

 

A atitude de Jesus é tão inesperada, tão contrastante com tudo o que conhecemos d’Ele, que dificilmente encontramos uma homilia ou um comentário bíblico que não tente confortar os próprios leitores, dando uma explicação plausível do Seu comportamento rude. No entanto, entre os vários estudiosos, não há consenso: alguns dizem que tudo era uma estratégia pedagógica, destinada a mostrar aos discípulos o absurdo dos preconceitos judaicos contra os pagãos. Outros vão mais longe e dizem que este episódio é uma espécie de “conversão” de Jesus à universalidade da salvação. E será que podemos excluir completamente esta terceira hipótese: de que Jesus (verdadeiro Deus, mas também verdadeiro homem) estivesse simplesmente a ter um mau dia, quando foi abordado pela cananeia?

 

Aliás, o que mais me interessa não é tanto explicar a conduta de Jesus, quanto convidar-vos a meditar sobre o comportamento da mulher. Sabemos que ela era uma estrangeira de fé pagã. Sabemos também que era mãe e que a sua filha estava doente. Provavelmente tinha ouvido falar de Jesus, dos Seus milagres e portanto decide procurá-l’O para Lhe suplicar a graça da salvação da filha. Inicialmente, Jesus nem sequer lhe responde: ignora-a completamente. Mas ela não desiste e continua a sua súplica. Depois, após a intercessão dos discípulos (que estavam fartos de a ouvir gritar) Jesus faz saber, sem nunca lhe dirigir directamente a palavra, que não acolherá o seu pedido. A cananeia, em vez de desistir, vai mais longe e joga-se aos Seus pés. E eis que chega a terceiro ofensa: Jesus nega o pedido e compara-a a um cachorro… Eu ter-me-ia levantado e, provavelmente, não iria para casa sem primeiro gritar duas ou três “coisas” ao messias mal-educado. Mas ela, apesar da humilhação, manteve a calma e pediu uma última vez: «Salva a minha filha».

 

Diante da fé, da coragem e do amor desta mãe, quem não se sente pequenino? Ela acredita que só Jesus a pode ajudar; que apenas Ele pode salvar. E por isso não desiste. Apesar do silêncio, do repúdio, da humilhação, ela permanece firme na própria convicção. Por isso é exaltada por Jesus e apresentada aos discípulos (e a nós também) como modelo de fé.

 

Se a nossa fé tivesse esta força… Mas infelizmente não. Somos demasiado fracos. Demasiado orgulhosos. E à primeira contrariedade, ou momento de silêncio, ou episódio em que achámos que Deus foi injusto connosco, “salta tudo”, zangamo-nos com Ele, com a Igreja, com a paróquia… E perdemos a fé.

 

No fundo este episódio é uma lição de confiança e humildade, muito semelhante à exortação que encontramos no salmo 27: «Confia no Senhor! Sê forte e corajoso, e confia no Senhor!». Nem sempre conseguimos entender a vontade de Deus (ou os seus silêncios), no entanto, não vacile o nosso coração, pois o Senhor é o Pai misericordioso! Ele não nos abandona nunca! Nem mesmo quando está a ter um dia mau…

P. Carlos Caetano

padrecarloscaetano.blogspot.com

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