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O Presidente da Câmara Municipal do Sabugal, António Robalo, quer criar no Concelho um Museu Nacional da Emigração, porque considera que o Sabugal foi precisamente “um grande corredor de passagem” para quem saiu a salto do país.

O Deputado Paulo Pisco, que recentemente apresentou uma proposta para que o Governo crie um Museu da Emigração, considera que é importante “não apenas para salvaguardar uma parte da nossa história, mas também como local de procura das origens”.

“Nasceram pelo país uma série de Centros interpretativos, de tudo e mais alguma coisa. Nós colocamos como principal estratégia, o desenvolvimento de um espaço interpretativo sobre a fronteira, o contrabando e a emigração” completou António Robalo ao LusoJornal.

Mas o Presidente da Câmara do Sabugal conhece a existência de outros projetos museológicos relacionados com a emigração, em Fafe, em Matosinhos, em Melgaço, em Bragança, nos Açores,… “Há cerca de um ano, entendemos que deviamos abandonar um projeto unicamente ligado ao Sabugal, mas integrá-lo numa estrutura polinucleada, defendendo sempre que seja um projeto nacional”.

Paulo Pisco defende também que o Museu deve ser Nacional. Precisamente para dar um passo em relação aos projetos já existentes. “Temos que mudar de paradigma, mas esta mudança tem de ser de todos nós. Temos de repensar completamente a relação dos Portugueses do estrangeiro com Portugal” diz Paulo Pisco.

Também Carlos Gonçalves considera que “há quatro décadas que temos praticamente as mesmas políticas para as Comunidades” e por isso considera que algo tem de mudar, defendendo muito a “diplomacia municipal”.

“Quando ía de autocarro a caminho da França, passava por aqui, pelo Sabugal e fascinava-me sempre a localidade de Terreiro das Bruxas” diz Carlos Gonçalves. “Não podemos falar de Portugal sem falar das nossas Comunidades. Uma parte da história recente de Portugal, foi feita por Portugueses que, por razões que sabemos, tiveram de sair do país. E muitos passaram pelo Sabugal”.

 

À procura de apoios nacionais

 

António Robalo garante que o município já tem um edifício e já tem trabalho avançado de idealização. “Temos vontade e temos ambição, sabemos que temos a legitimidade, mas necessitamos de ajuda”.

“O Museu faz sentido e é legítimo, desde que não seja local, desde que seja articulado com outros projetos no país” diz Manuel Vaz Dias, antigo Diretor regional do FAS em Bordeaux, e membro fundador da Cité de l’histoire de l’immigration, em Paris.

“Há 30 anos que se fala nisto. Para que o projeto seja realizado é necessário haver vontade política ao mais alto nível e é necessário que a Nação portuguesa se reconcilie com ela própria” explica Manuel Dias. “Também é necessário que seja feito um trabalho de qualidade, tem de haver pessoas e equipas de pesquisa. Temos de deixar de ser artesãos”.

Os pais de António Robalo também foram emigrantes em França. Por isso, o Presidente está sensível a esta questão.

Difícil parece mesmo ser a implicação do Governo. O Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Luís Carneiro, conhece o projeto, mas falhou recentemente o seminário “Labirintos da Memória II” que começou no Sabugal e acabou no Fundão. Este era um momento importante para que o Presidente da Câmara lhe apresentasse em detalhe o projeto. Mas José Luís Carneiro ficou bloqueado em Lisboa a tratar de questões relacionadas com a crise política na Venezuela e o apoio à grande Comunidade portuguesa naquele país. O Secretário de Estado confirmou ao LusoJornal que “gostava de estar no Sabugal” nesse dia, mas o problema era mesmo urgente.

 

Abertura em 2019

 

António Robalo queria mostrar-lhe a antiga escola com dois pisos, que a autarquia pretende ceder ao projeto. “O município oferece o edifício, a atual escola do 1º ciclo, e coloca os 15% do autofinanciamento de uma eventual candidatura a promover pela Secretaria de Estado das Comunidades” explica António Robalo ao LusoJornal.

O Presidente da Câmara quer que a Secretaria de Estado “assuma o projeto nacional, ajude a encontrar fonte de financiamento e a constituir equipa técnico/científica que em colaboração com a Câmara otimize o projeto” explica António Robalo que pretende assinar um Protocolo entre o município e o Governo para este projeto.

O projeto inicial a que o LusoJornal teve acesso, tem já um orçamento de dois milhões de euros e a autarquia compromete-se com, pelo menos 300 mil euros. Resta agora transformar este projeto e articulá-lo com os restantes museus da emigração e das migrações já existentes.

O Município do Sabugal situa-se na Região Centro, num território que abrange 826 km2 e encontra-se subdividido em 30 freguesias.

“Temos atualmente cerca de 12.000 almas no Sabugal, mas durante as férias de agosto, a população triplica” garante o Presidente da Câmara. “A emigração é a maior lufada de ar fresco que os nossos territórios têm”.

Trata-se de um concelho de fronteira, um dos mais fustigado pelo fenómeno da emigração nacional, que entre 1950 e 1981 perdeu 57% da sua população e que se encontra localizado estrategicamente a meio da linha de fronteira terrestre Portugal-Espanha.

A partir dos anos 60, paralelamente às transformações socioculturais, o contrabando e a emigração contribuíram para o acelerar das transformações, introduzindo alguma liquidez na economia familiar. O amanhar dos campos passou a ser acompanhado pela prática do contrabando. “De dia era uma zona de agricultores, à noite de contrabandistas” explica António Robalo. “Além da riqueza gerada, o contrabando quebrou o isolamento, abrindo novos mercados e novas perspetivas, e promoveu o espírito aventureiro e o arrojo dos habitantes da região. As dificuldades económicas que estão na base do contrabando são as que despoletaram o surto emigratório, sobretudo a partir da década de 50”.

O Plano de Ação de Regeneração Urbana do Sabugal (PARU), será implementado em 2017 e 2018, coincidindo com a previsão da instalação do Museu que a Autarquia pretendia que pudesse abrir ao público em 2019.

Se entretanto houver… vontade política ao mais alto nível.

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