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Marie-Line Darcy é a «voz de Lisboa» mais conhecida das rádios francesas. Mora há mais de 25 anos em Portugal, passou pela Rádio Paris Lisboa, e agora é jornalista correspondente em Portugal da RFI, da France Info, do jornal Ouest France e de vários outros suportes, não apenas franceses, mas também de outros países, como por exemplo La Tribune de Genève.

É Vice-Presidente da Associação dos Jornalistas estrangeiros em Portugal.

Em 2015 foi coautora, nas edições Buchet Chastel, do livro «Visages de la Crise», juntamente com mais três jornalistas – Mathilde Auvillain na Itália, Angélique Kourounis da Grécia e Gaëlle Lucas em Espanha – onde abordaram os efeitos da crise e dos planos de austeridades nestes países.

Encontrámos Marie-Line Darcy em Lisboa, cidade que conhece bem, junto ao Cais do Sodré, antes de embarcar para Almada, onde ia assistir a uma conferência de imprensa.

 

Como veio ter a Lisboa?

Há 26 anos que estou em Lisboa e cheguei cá por acaso. Estudei em Bordeaux e vivia lá, mas tinha uma amiga que se casou com um Português. E com um grupo de outros amigos, há cerca de 30 anos atrás, decidimos vir descobrir Lisboa. Depois, a uma certa altura da minha vida, tive vontade de mudar de rumo, de mudar completamente de vida e comecei a interrogar-me sobre o local onde poderia viver. Optei por Lisboa. Na altura procurava um trabalho relacionado com a área da formação profissional. Tinha um projeto muito vago, mas sabia falar muito pouco português, sabia apenas dizer ‘bom dia’, ‘obrigado’ e pouco mais. Por não saber falar a língua foi muito complicado e acabei por ter algumas dúvidas se realmente ia ficar ou não. Acabei por ficar.

 

E como chegou à rádio?

Na altura apresentaram-me a então Diretora da Rádio Paris Lisboa. Ela não tinha lugar para mim na equipa, até porque nem era jornalista, mas pediu-me para fazer testes de voz. Ela tinha uma jornalista que tinha de ser substituída durante 15 dias. Os testes foram positivos, acabei por substituir a jornalista em questão e acabei por ficar… 13 anos. Saí dois anos antes da rádio ter fechado.

 

E depois de ter saído, não surgiu a ideia de regressar a França?

Na Rádio Paris Lisboa tinha um trabalho muito especial. Trabalhava em francês, com a Comunidade local, estava muito ligada à cultura, e quando o contrato acabou, não sabia bem o que fazer. Ir para França não me parecia ser a melhor solução, 15 anos depois de estar aqui. Queria continuar no jornalismo, mas também estava muito complicado porque nunca tinha feito jornalismo em França e ninguém estava à minha espera na profissão. Mas precisava muito de continuar a trabalhar. Apostei aqui e fiquei cá.

 

Atualmente é correspondente de várias rádios…

Sim, da Radio France internationale, France Info et France Culture, France 24, mas também dos jornais La Croix, Ouest France, La Tribune de Genève, jornais especializados, e depois outros trabalhos que aparecem de forma menos regular. A minha base é a RFI, que foi a proprietária da Rádio Paris Lisboa durante quase 10 anos e foi com eles que eu comecei.

LusoJornal / Carlos Pereira

 

O que é que interessa às rádios francesas sobre Lisboa?

Acaba por ser tudo… ou nada! Sabem que podem contar comigo e eu conheço os programas onde posso encaixar peças. Depois há a atualidade, faço propostas, sobre política, cultura,… de desporto não percebo nada… As rádios ou os jornais procuram a diferença e tento ser original, contar histórias, ir muito além do factual. O interesse é ter muitos suportes para o qual trabalhar, para ter sempre alguém a quem propor assuntos. Por exemplo sobre os incêndios produzi bastante, a contar o que estava a acontecer, mas depois fiz um artigo sobre a solidariedade dos Portugueses nestas ocasiões, para o jornal La Croix. Foi um ângulo diferente e fui a única a fazer isto. Tento sempre encontrar outra forma diferente de dar a notícia. Para ‘vender’ Portugal, tenho de encontrar estas coisas assim.

 

Agora com Portugal na moda, torna-se mais fácil trabalhar?

Houve um grande ‘boom’, de facto, no turismo. Há 3 anos todos falaram disso. Vai havendo assim fenómenos.

 

E a política portuguesa interessa aos Franceses?

Sim, interessa. Neste momento, por exemplo, tenho feito algumas reportagens sobre isso. Durante a crise havia muito trabalho, acontecia sempre algo e a situação era complicada, dramática, mas trabalhámos muito.

 

A crise foi um período importante?

Sim, foi um momento muito intenso em termos de cobertura jornalística. A crise deu-me muito trabalho, mas tive que cobrir atualidades difíceis. Em 2008 já estava no terreno a cobrir a crise e durante 5 anos foi o assunto principal. Foi muito comovente, as pessoas viveram momentos muito difíceis e eu percebia muito bem o que as pessoas estavam a passar. Havia sofrimento.

 

Foi só em Lisboa ou também andou pelo resto do país?

Eu raramente saio de Lisboa, mas conheço muito bem o resto do país. Tive várias oportunidades para passear, visitar e até fazer reportagens fora.

 

Atualmente é a Vice-Presidente da Associação dos jornalistas estrangeiros em Portugal…

É uma associação que já existe há muito tempo, foi criada logo a seguir à Revolução. Eu ainda não estava cá. Sou atualmente a Vice-Presidente, e estou num grupo mais ativo. Todos consideram que temos mais disponibilidade. Se não sou Vice-Presidente, sou Secretária, ou coisas assim… Estou a pensar em tirar um ano sabático (risos). É uma coisa muito importante, porque há muitos jornalistas estrangeiros cá.

 

Marie-Line Darcy

LusoJornal / Carlos Pereira

 

E como é que uma Francesa vê Lisboa?

Lisboa é uma cidade maravilhosa e é uma felicidade enorme viver aqui, mesmo com as mudanças brutais ligadas à “invasão” turística intensa no centro da cidade. Acaba por ser complicado. Deixa-me um pouco chateada, é verdade. Falo de “invasão” porque é muita gente num centro muito pequeno. É complicado para os habitantes, nunca tinha visto isto aqui. O metro está cada vez mais cheio, tenho que encontrar outras soluções alternativas para ir mais rápido. O tempo para se deslocar na cidade aumenta muito, é necessário uma ginástica intelectual para encontrar percursos alternativos. Eu estou consciente que o turismo é bom para a cidade, mas não estamos habituados a isto. Mas a cidade de facto é bela, tenho a sorte de viver no centro e é agradável, é genial. Agradável e acessível. A vida de bairro e de vizinhança é engraçada. Eu pago os meus impostos cá, vivo cá, adapto-me bem, gosto disto, gosto das pessoas com quem convivo…

 

E a partir daqui como se acompanha a situação em França?

Profissionalmente tenho que acompanhar, claro. Aliás fui recentemente convidada para o novo programa da RTP internacional, moderado pelo Paulo Dentinho, onde comento, com outros jornalistas estrangeiros convidados, a atualidade internacional. Falámos sobre as eleições francesas, claro, mas comento sobretudo a atualidade internacional.

 

O que se pode dizer sobre a Comunidade francesa em Portugal?

Quando cheguei a Portugal havia uma grande Comunidade, penso que era mais ou menos como agora. Pessoas que trabalham nas relações bilaterais, havia muitos casais mistos, com empresas em França e também aqui. Na altura achavam que, mesmo se não eram milhares, eram um grupo económico importante. E a relação cultural forte com a França justificava de facto haver uma rádio francesa em Lisboa.

 

A Comunidade não aumentou?

Não. Houve uma queda que se acentuou com a crise. Muitas pessoas que tinham negócios aqui, acabaram por se ir embora porque não aguentaram a situação. Agora acabam por voltar com este fenómeno de moda.

 

Nota-se muito esse interesse crescente dos Franceses por Portugal?

É um pouco confuso. Há empresas de call centers que se instalam cá porque têm uma mão de obra barata, trazem jovens Franceses que vêm cá passar algum tempo. Reconhecem que o nível de vida é bom, podem estar a trabalhar de dia e ir até à praia ao fim da tarde. Passam cá momentos agradáveis. Quanto aos reformados, há nichos em Lisboa, Cascais, Algarve, Porto e Leiria. Há de facto um bom nível de vida em Portugal, ter aqui uma casa secundária é agradável. Nem todos têm o estatuto de ‘residente não habitual’, mas alguns têm. Portugal soube aproveitar bem as fontes que tinha para atrair os turistas e os investidores, soube comunicar sobre o imobiliário e isso funcionou. Tínhamos um parque residencial que não estava a ser utilizado, e o então Ministro Paulo Portas apostou nisto. Funcionou. Ninguém se pode queixar, porque atrai pessoas com poder de compra e faz entrar dinheiro em Portugal. Os estrangeiros começaram a aparecer e a investir, a gastar o seu dinheiro aqui. As casas e os ‘resorts’ aqui, estavam vazias e agora já não estão. Não se pode criticar. Portugal é bem visto pelo acolhimento, pela boa comida e pelo clima. É uma boa ideia. A postura de algumas pessoas é que é um pouco ‘colonialista’, à maneira antiga. Dizem que os Portugueses são tão simpáticos, que se come bem, mas não vão muito além disso. Isso não é completamente viver cá. Ficam fechados no universo deles. Felizmente que nem todos são assim.

 

E a crise? Nota-se que Portugal está mesmo a sair da crise?

As pessoas estão mais aliviados. Retomaram um pouco o poder de compra. Alguns subsídios foram repostos e isso ajudou bastante no dia a dia. Ganha-se um pouco mais, por isso gasta-se mais, produz-se mais e isso é positivo.

 

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