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São descendentes de Transmontanos, de Macedo de Cavaleiros, têm uma estação de Metro com o seu nome, uma estação de RER e têm um boulevard em Paris. Os irmãos Pereire são certamente dois dos Portugueses mais conhecidos de França.

Só que muitos de nós não os conhecemos ainda!

Eram homens de negócios, podemos até dizer que eram os homens dos “mil negócios”, tantas foram as áreas de intervenção em que estiveram implicados, desde os caminos de ferro, à construção civil, passando pelo setor bancário, pela saúde, pelos transportes marítimos e pelos seguros. Tudo o que era negócio vinha parar às mãos dos irmãos Pereira. Oups! Pereire, como são conhecidos em França, onde “afrancisaram” o nome.

Isaac e Émile Pereire eram netos de Jacob Rodrigues Pereira – que também é uma personagem interessantíssima – e bisnetos de Abraão Rodrigues Pereira.

Abraão Rodrigues Pereira era comerciante em Chacim, nas fraldas da Serra de Bornes, no distrito de Bragança. Era descendente de Judeus, mas como o Rei D. Manuel I instaurou a Inquisição, a família teve de “fazer de conta” que se converteu ao cristianismo, mas em segredo continuava a praticar os rituais judaicos.

Depois de Chacim, Abraão Rodrigues Pereira instalou-se em Peniche e foi ali que nasceu em 1715 o pequeno Jacob. Jacob para a família, porque administrativamente foi batizado na igreja católica com o nome de Francisco António Rodrigues!

Para não viverem em opressão e com o medo das Brigadas da Inquisição, Abraão Rodrigues Pereira mandou a mulher e os filhos para França e fixaram-se em Bordeaux, onde já residiam milhares de Judeus portugueses que tinham sido expulsos por serem de confissão judaica.

Jacob Rodrigues Pereira só faz a circuncisão aos 26 anos e ficou conhecido na história por ter inventado um método de comunicação com os surdos-mudos. O método funcionava, mas Jacob não conseguiu impô-lo porque um padre francês, Charles-Michel de L’Épée, teve mais influência para impôr a linguagem gestual que ainda hoje se utiliza.

Jacob também foi um matemático reputado e foi tradutor do Rei Louis XV.

Um dos filhos de Jacob Rodrigues Pereira, Isaac, era segurador de transportes marítimos em Bordeaux e, mesmo se morreu novo, teve – com Rebecca Lopes Fonseca – os dois filhos Isaac e Émile Pereire.

Era gente com dinheiro e com muita influência. Por isso, as duas crianças tiveram uma educação rigorosa, em Bordeaux, antes de virem para Paris, onde começaram a trabalhar no setor bancário, com o tio Isaac Rodrigues Henriques, já na altura um reputado banqueiro da praça de Paris.

E foi aqui que tudo começou!

Émile casou com a filha do tio banqueiro. Isaac casou com Raquel Fonseca, que morreu pouco tempo depois e voltou a casar em segundas nupsias com a filha do seu próprio irmão, então com apenas 15 anos!

 

Os reis dos transportes

Os irmãos Pereire fundaram uma Companhia de caminhos de ferro que ligou Paris e a Saint Germain-en-Laye. Hoje fazemos este percurso de carro em poucos minutos, mas na altura, era em Saint Germain-en-Laye que a “alta” sociedade se encontrava. Esta linha de caminhos de ferro foi pois de grande importância e… muito bem frequentada.

Mas não se ficaram por aqui. Foram eles que construiram a linha de caminhos de ferro entre Bordeaux e Bayonne e concorreram até para serem os concecionários da primeira linha do Metro de Paris. Perderam a concessão para Fulgence-Bienvenüe, porque não se pode ganhar tudo na vida!

Em 1854 investiram mesmo na Sociedade Austríaca de Caminhos de Ferro do Estado. Já naquela altura a Áustria começava a privatizar os seus caminhos de ferro e os irmãos lusodescendentes estavam atentos ao mercado internacional.

Em 1861 criaram a Compagnie Générale Maritime, uma companhia de transportes marítimos de passageiros e de mercadorias que deu origem mais tarde à Compagnie Générale Transatlantique, a CGT – que nada tinha a ver com o sindicato do mesmo nome – e que foi uma das duas maiores companhias francesas de transporte marítimo, até aos nossos dias, até 1975.

Aliás, foram os irmãos Pereire que criaram os Estaleiros Navais de Saint Nazaire, na Loire-Atlantique, que ainda hoje existem: a primeira empresa francesa de construção naval civil.

E para não ficarem por aqui, Isaac Pereira foi o financiador do primeiro “verdadeiro” voo da Éole, o primeiro avião do mundo, criado por Clément Ader. A história não o conta porque este primeiro voo não foi homologado. Mas no dia 9 de outubro de 1890, o avião fez um teste nos jardins do Château de Gretz-Armainvilliers, na região parisiense, propriedade dos Pereire. Durante cerca de 50 metros, voou a mais de 20 centímetros do solo. Foi uma proeza, mas não foi considerado propriamente um voo! Se passarem por Gretz-Armainvilliers verão lápides alusivas a este momento.

 

Os reis da saúde

Em 1853, os irmãos Pereire compraram os Estabelecimentos termais de Vichy e começaram a interessar-se pelo setor da saúde e da agricultura. Foram eles que estruturaram a floresta dos Landes, financiado a construção de uma vasta rede de caminhos agrícolas e plantando mais de 10 mil hectares de árvores no Pays de Buch e na Grande Lande.

Também tiveram negócio nas minas de carvão da Lorraine.

Os irmãos Pereire foram os proprietários do domínio do Château Palmer, em Margaux, e replantaram a vinha deste vinho de Bordeaux, de renome internacional.

Também foram eles que estiveram na criação da Ville d’Hiver d’Arcachon. Arcachon já estava na moda, já era uma estação balnear reputada e todos os comerciantes ricos de Bordeaux já aí tínham uma casa de férias para irem a banhos. Os irmãos Pereire já aí tínham um “petit-train” turístico e compraram depois a linha de caminho de ferro que liga Bordeaux a Arcachon.

Era pois necessário desenvolver ainda mais este negócio. E os irmãos Pereire tiveram uma ideia genial: criar sanatórios para tuberculosos – a doença mais grave naquela altura, que para ser curada necessitava de “bons ares” e “boa comida”. Os Pereire ocuparam-se de tudo, ajudados pelos médicos de Arcachon que constataram que os marinheiros e os resineiros da região não foram contaminados pela doença.

Seria uma campanha publicitária encomendada? A verdade é que um médico da região, chamado Pereyre – certamente primo dos dois irmãos, e também descendente de Judeus portugueses – estudou o assunto e chegou à conclusão que os ares do Atlântico, quando atravessavam as florestas de pinheiros, tornavam-se ares propícios para atenuar a tuberculose!

Era a prova que faltava aos investidores. Uma cidade nova nasceu, construida pelos irmãos Pereire. Os palacetes surgiam de terra como cogumelos. A “nova” Arcachon foi inaugurada pelo Imperador Napoleão III, que aí se deslocou com a mulher, Eugénie, e com o Príncipe imperial.

Foi um triunfo.

 

Os reis da construção

Já na altura, os irmãos Pereire eram os maiores construtores franceses, com múltiplos investimentos em várias regiões do país. Arcachon apenas foi o empreendimento mais mediaticamente divulgado, mas as mãos – e sobretudo os dinheiros – dos Pereire estavam espalhadas pelos quatro cantos da França.

Foram eles que construiram as novas avenidas de Paris, os “boulevards haussmaniens” decididos pelo Prefeito Haussmann e onde agora milhares de pessoas fazem compras todos os dias.

E fizeram uma invejável operação imobiliária à volta do Parc Monceau. Aliás um dos dois edifícios que integram atualmente o Consulado Geral de Portugal em Paris, na rue Georges Berger, fez parte da urbanização dos irmãos Pereire.

Com tantos negócios, os irmãos Pereira decidiram criar o seu próprio banco. Em 1852 criaram o Crédit Mobilier, que se tornou um banco de extrema importância num contexto de forte crescimento económico durante o “reinado” de Napoleão III.

O projeto começou com 40.000 ações – os irmãos Pereire detinham 11.300 – mas depressa atingiu as 120.000 ações, tal foi o sucesso do projeto. Diz-se que a imprensa da altura – já acusada de ser controlada pelos grandes promotores – contribuiu para o sucesso da operação.

Mas em setembro de 1867, 15 anos depois da sua criação, os irmãos Pereire saem da operação e um mês mais tarde o banco faliu.

Antes de falir, o Crédit Mobilier influenciou a criação de dois bancos que ainda hoje existem: o Crédit Lyonnais (1863) e a Société Générale (1864).

 

Os reis da política

Finalmente, os irmãos Pereire foram também políticos influentes. Émile foi eleito Deputado pela 3ª circunscrição da Gironde em 1863.

Isaac foi Conselheiro Geral de Perpignan e em 1863 também foi eleito Deputado dos Pyrénées-Orientales. A sua primeira eleição foi invalidada “por corrupção”, mas confirmou-se a eleição com a repetição do ato eleitoral. Depois candidatou-se pela circunscrição do Aude, voltou a ser acusado de corrupção, anularam novamente a eleição, mas desta vez perdeu na repetição do ato eleitoral. Retirou-se da política.

Isaac Pereire foi autor de vários livros, entre os quais se destaca: “Leçons sur l’industrie et les finances”, “Rôle de la Banque de France et organisation du crédit en France”, “La réforme de l’impôt”, “La Question des chemins de fer”, ou “Politique financière”.

Aliás, Isaac perdeu a vista em 1870. Recolheu-se no seu Château d’Armainvilliers e foi daí que continuou a gerir a imensa fortuna da família.

O Château dos Pereire em Armainvilliers já não existe. Foi destruido em 1944 pelas bombas da II Guerra mundial. Estava rodeado a norte pelo Château de Ferrières de Edouard de Rothschild e a este pelo Château Rothschild de Edmond de Rothschild.

Os Rothschild… outra das famílias mais célebres do mundo dos negócios!

Mas essa, já é outra história.

 

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