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Passados 32 anos, o acidente ferroviário de Alcafache continua ainda bem presente na memória daqueles que tiveram de enfrentar a tragédia, que hoje seria “praticamente impossível de acontecer”. Foi o maior acidente ferroviário que jamais aconteceu em Portugal.

Devido a um erro humano entre Chefes das estações na partida aos comboios, o acidente ferroviário envolveu o comboio Sud-Express com mais de 400 Emigrantes a caminho de Paris, de regresso de férias em Portugal e um comboio regional proveniente de Vilar Formoso e com destino a Coimbra, que levava parcialmente cerca de 200 pessoas.

O acidente não só atingiu Portugal como parte da Europa ao vitimar tragicamente entre mortos, feridos e desaparecidos(carbonizados), centenas de pessoas.

Era dia 11 de setembro de 1985. Segundo o médico Américo Borges, que na altura era comandante dos Bombeiros de Canas de Senhorim (Nelas) e que coordenou as operações de socorro, tudo se passou num final de tarde quente, quando “estava sentado em frente à central de comunicações”.

“Tragam muitas ambulâncias para a estrada entre Nelas e Mangualde”, foi a mensagem que ouviu, que posteriormente veio a saber ter sido emitida por uma ambulância dos Bombeiros Voluntários de Aguiar da Beira que passava na EN 234.

Américo Borges contou que na altura pensou que tivesse acontecido um acidente com um autocarro e mandou sair cinco ambulâncias, todas as que tinha. Mais tarde, a mensagem “tragam também autotanques que as carruagens estão a arder” fê-lo perceber que se tratava de um acidente com comboios e ele próprio seguiu no autotanque da corporação. “Cheguei lá e vi um espectáculo dantesco, uma coisa pavorosa que nunca mais esqueço. Carruagens a arder, carruagens fora da via-férrea, descarriladas”, contou.

O número de vítimas foi variando de fonte para fonte. Américo Borges estima, “sem grande rigor científico”, que tenham morrido “entre 120 e 130”, entre aqueles corpos que foi possível contabilizar e aqueles que, reduzidos a cinzas, foram arrastados pela água das agulhetas dos bombeiros e ficaram no local.

O acidente naquela linha de via única deu-se devido a uma falha de comunicação, numa altura em que os comboios nem sequer rádio tinham e o sistema usado era o “cantonamento telefónico”.

“O chefe de estação tinha que pedir avanço (autorização para avançar) à estação seguinte. Havia também o posto regulador, em Coimbra, que poderia alterar o local de cruzamento dos comboios, por exemplo, em caso de atraso, e comunicava a decisão à estação. Tudo isto por telefone fixo”, explicou José Rebelo, antigo condutor da CP.

Uma falha na comunicação, como aconteceu em Alcafache, era muito difícil de corrigir a partir do momento em que os comboios deixassem a estação, uma situação bem diferente da atual, segundo explicou António Arménio, que é controlador de circulação. “Agora há sinalização eléctrica, agulhas computorizadas, tudo reunido num servidor em que ao executar o comando para abrir a sinalização num sentido, esta é automaticamente fechada no sentido oposto”, explicou.

José Augusto Sá, familiar de duas vítimas desaparecidas no acidente e iniciador de uma homenagem anual ao sítio da tragédia, quer que as comemorações “sobressaiam pela positiva” e quer também lembrar as vítimas vivas do acidente. “Existem muitos vivos que apresentam muitas lesões corporais e até mentais que vão estar presentes nas cerimónias”. Depois acrescenta que “agora aos vivos que cá ficaram, resta-lhes dar a dignidade de que a Comunidade emigrante, sendo as vítimas na sua maioria dos anos 60/75, que muito deram ao seu país pelo brilho de todos os seus esforços humanísticos e financeiros”.

O sitio onde se deu o acidente encontrava-se “praticamente abandonado e desprezado” até 2002, apesar de lá estar um primeiro monumento erguido em 1986. A partir de 2002, a zona apresenta cara lavada. Foi lá colocado um painel de 432 azulejos com uma resenha histórica de como foi o acidente e o memorial está “digno”.

As cerimónias evocativas deste ano tiveram lugar este domingo, dia 10 de setembro, na presença de várias personalidades locais e do Deputado eleito pelo círculo eleitoral da Europa, Paulo Pisco.

 

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