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Pouca gente o conhece, mesmo em S. Vicente. No entanto, este senhor viajou. E viaja ainda hoje na melodia das ilhas que se transporta nas ondas da radiodifusão caboverdeana.

Conheci-o numa viagem, estudante imberbe ainda. De férias em Ponta do Sol, não perdia de vista o Gavião dos Mares que descarregava lá fora no mar alto pois queria regressar a S. Vicente nesse navio. Vindo um amigo dizer-me que o Gavião ia levantar ferro, corri para casa, galguei as escadas resfolegando, nem tempo para almoçar, minha avó Joana embalando os bolinhos e as encomendas no afã da despedida. Daí corri para o cais e saltei para o último bote na baía da Meia-Laranja.

Não me lembro se havia outros passageiros no bote desafiando as ondas à força de remos até ir esfregar-se, insolente, nas ilhargas do Gavião. Tanto balouçava que só para subir a bordo já era preciso ter estômago.

Estômago eu tinha, mas vazio, e a travessia ia durar horas! Nunca mais esqueci essa mão amiga a estender-me um prato de folha com uma gostosa cachupa ainda a fumegar. Era o imediato, muito grande, largo sorriso do alto dos seus quase dois metros. Chamava-se Chico, e pegámos na conversa. Quando a faina o reclamava, interrompia.

Trabalhar no Gavião nesse mar-de-canal não era para qualquer um – mas o Chico, no mar não era qualquer um. Certo dia na Laginha, nadando e conversando, eu armado em nadador, de repente cadê o Chico! Impressionado com as suas braçadas olímpicas, uma dele valendo duas das minhas, deixei-me empurrar pelas ondas até dar à praia! Com peixe, prefiro tratar em terra firme!

No limiar de 1981, entrei para a Rádio Voz de S. Vicente e já lá estava o meu amigo naquela lufa-lufa.

Na Rádio era o Sequeira, de seu nome completo Francisco Valeriano Sequeira. Não me perguntem como é que um destemido lobo-do-mar vira arquivista-discotecário numa emissora! Era preciso mérito, mas também em terra firme o Sequeira não era qualquer um. Além da programação musical dos tempos de antena livres, distinguiu-se sempre como uma mais-valia para os seus colegas repórteres e jornalistas.

Tivemos sorte, nós os realizadores de programas, de contar com o seu savoir-faire, quando computador era coisa de ficção científica e internet nem isso!

Os meus programas não eram fáceis, dizia ele, mas durante os meus sete anos da Rádio pude contar com um investigador zeloso. Um evento, uma entrevista ou outro registo magnético de que país fosse, uma música dos tempos antigos? Sequeira! E o Sequeira achava.

Meu caro Sequeira: tomara que muitos eruditos com diplomas e títulos soubessem o que tu sabes! Tivessem a tua cultura musical e literária! Imagino-te, hoje, como te conheci ontem: sóbrio, perfecionista na assistência programática, gerindo urgências e imprevistos. Mas poucos te conhecem porque és homem de bastidores: só te mostras quando a Rádio emite em direto/duplex, a partir da Baía ou para reportar o carnaval…

Não me lembro se escreves, se compões – não me disseste. “Quisera ter dom para escrever, lembro-me, com alguma pena, deste teu desabafo.

Humilde entre os humildes, esta enciclopédia viva da nossa música!

Os muitos dons que tens, ó grande Sequeira! O dom da leitura, de aprender com quem escreve (em quase todos os lançamentos literários, lá estás tu). És grande pela tua modéstia, e a modéstia é uma qualidade que pode esconder muitas outras.

Eu sei que não ligas a honrarias. A medalha que o Governo te deu, a ti e indistintamente aos jornalistas para os engodar, nem a foste buscar! “Medalhas? Estou aqui para trabalhar, disseste-me.

Sei, também, que a vida não foi meiga contigo, mas guardou no teu rosto esse sorriso aberto e franco. Estar de bem com a vida é a tua marca de fabrico. Continua.

 

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