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O Presidente do Conselho de Administração do Montepio, José Félix Morgado, esteve ontem em Paris para comemorar os 20 anos da presença do banco em França, através de um Escritório de Representação.

A receção teve lugar no Palácio da Bolsa – logo em frente do Escritório de Representação do banco – e contou com a presença de muitos clientes, individuais e empresariais, assim como de várias personalidades, como por exemplo Cônsul Geral de Portugal em Paris, António Moniz, e do Presidente da Câmara de Comércio e Indústria Franco-Portuguesa, Carlos Vinhas Pereira.

Joaquim Sousa, o Diretor do Escritório de Representação, diz-se orgulhoso com o percurso feito pelo banco e confessou que tem sido uma «experiência muito enriquecedora» tanto a nível pessoal, como profissional.

Aproveitando a vinda a Paris do Presidente do banco, impunha-se perceber como tem evoluído o Montepio, como se porta o país – porque os bancos são observados privilegiados da saúde económica dos países – e como vai evoluir o negócio do banco em França.

 

O banco passou por uma fase de turbulência nos últimos tempos. Como está atualmente a saúde do Montepio?

O banco passou efetivamente, como todo o setor da banca, por uma fase de crise, da qual alguns bancos já estão a sair e outros ainda não. Eu só cheguei ao Montepio nos finais de 2015 e sempre disse que o Montepio tinha entrado mais tarde neste túnel, mas também ia sair mais cedo. Na altura foi apresentado um plano estratégico para o reposicionamento do banco e o que estava previsto é que em 2017 voltaríamos a ter lucros e isso defacto é o que está a acontecer.

 

Porquê um reposicionamento?

Porque nós, em termos de abordagem do mercado, voltámos a focar o banco nas famílias, nas pequenas e médias empresas, nos empresários em nome individual e naquilo que se chama a economia social. Em 2016 já apresentámos uma substancial melhoria face a 2015 e este ano o Montepio já vai no segundo trimestre de resultados positivos e posso anunciar mesmo que já vamos em três trimestres com resultados positivos. Depois do reforço de capital que também fizemos em julho, somos o banco que tem melhor racio de capital e portanto tem um modelo de negócio sustentável e está de facto forte.

LusoJornal / Carlos Pereira

O que ficou de fora do reposicionamento do banco?

Neste caso, há sempre vários fatores que têm influência. Nunca podemos esquecer o fator macroeconómico. As empresas nossas clientes viveram muitas dificuldades e isso refletiu-se no banco. Algumas entrando em insolvência, outras pagando mais tarde, outras só podendo pagar uma parte, e isso é que determina uma grande parte da situação dos bancos. Em segundo lugar, o que se fez foi ajustar a abordagem do mercado que o banco fez, em termos de gestão de risco, exatamente para as famílias e para as pequenas e médias empresas, fechando o segmento a que chamamos das grandes empresas, que têm aliás o mercado europeu e internacional todo aberto. Nós temos que nos focar naquilo que sabemos fazer bem. E aquilo que o Montepio sabe fazer bem, é a proximidade, a relação com o cliente, a confiança,… isso fazemos muito bem.

 

Também houve uma restruturação interna porque fecharam agências…

Nós fechámos 100 balcões e sairam cerca de 400 pessoas, porque a banca vive um ajustamento do seu modelo de negócio. Hoje, contrariamente ao que se passava antes, as pessoas não vão aos balcões, ou vão menos aos balcões, não só em Portugal, mas em todo o mundo, sobretudo devido ao desenvolvimento das novas tecnologias digitais. Na minha perspetiva, os balcões não vão desaparecer, mas tivemos que ajustar a nossa estrutura àquilo que são os novos hábitos do consumidor. Também temos em curso um plano digital para modernização dos nossos balcões, com a modernização da nossa App, com a modernização do Homme Banking, a criação de todo um conjunto de ferramentas ao serviço do cliente, um ‘omnicanal’, porque o cliente, na nossa perspetiva, deve poder vir pelo canal que quiser para ter acesso ao banco. Até pode começar uma transação através da App e acabar no Homme Banking ou no próprio balcão. É essa combinação de experiências que nós estamos empenhados em dar aos clientes.

 

Os bancos são observadores como ninguém da saúde económica do país. Portugal está mesmo a melhorar?

O país está a melhorar e está a crescer. A perspetiva de crescimento do PIB para 2017 é de 2,5%, o desemprego caiu para baixo dos 10% e isso deve-se evidentemente ao trabalho que tem vindo a ser feito nos últimos anos. Na banca sente-se efetivamente o arrancar de alguns projetos, nomeadamente a nível das pequenas e médias empresas, que aumentam a produção, ou querem ir para outro mercado, nota-se sobretudo uma grande força em setores que são setores de exportação. Nós conseguimos dar a volta ao calçado, ao têxtil, tendo uma abordagem moderna, com base na qualidade e no design do produto, deixando aquilo que nós faziamos, porque eramos só produtores, e as empresas portuguesas subiram na cadeia de valores. Nós notamos isso na banca.

 

Estamos pois no bom caminho?

A grande dúvida da economia portuguesa, é saber se em termos de Orçamento de Estado, algumas políticas que estão a ser implementadas são sustentáveis ou não.

 

LusoJornal / Carlos Pereira

Então ainda estamos numa situação de alguma fragilidade?

Digamos que também estamos a beneficiar do ciclo positivo macroeconómico na Europa. Nós partimos mais baixo do que alguns outros países. Mas o grande teste vai ser de saber se nós, até ao fim do ano, conseguimos reduzir a dívida pública. Estou convencido que conseguiremos. O Governo tem feito uma boa gestão da dívida pública, reembolsando dívidas com taxas mais altas e contratando dívida com taxas mais baixas. Estou convencido que estão criadas condições para que, de facto se continue este ciclo de recuperação da economia portuguesa. É importante para as pessoas, para as empresas e também ajuda na recuperação da tendência que temos vindo a seguir em termos da banca.

 

O Montepio tem tido uma presença discreta em Paris. Como encara este negócio em França?

Estamos há 20 anos em Paris, temos um conjunto alargado de clientes que servimos numa função de representação. Nós não temos balcões, temos um Escritório de Representação, que tem como objetivo único dar o apoio necessário para os nossos clientes que moram em França, mas que são clientes dos balcões em Portugal.

 

Criar uma sucursal em França não está nos objetivos do Montepio?

Não. De forma nenhuma. Neste momento não está nos nossos objetivos. No nosso objetivo está, como aliás fazemos nos outros Escritórios de Representação, em Frankfurt, em Londres, em Toronto, em Nova Iorque ou em Genebra, em apoiar os nossos clientes que residem nesses países. E a nossa presença não é assim tão discreta como diz.

 

As remessas dos Emigrantes continuam a ser importantes e a França está acima de todos os países. O vosso objetivo é o de continuar a encaminhar as poupanças dos clientes para Portugal?

Somos um banco de poupança, por isso as remessas são sempre importantes. Os nossos muitos clientes que vivem em França, necessitam do apoio do banco face ao património que têm em Portugal e o nosso principal objetivo é esse. Verifica-se que de facto há uma geração que continua a pensar regressar a Portugal, ou a ter investimentos em Portugal porque Portugal continua a ser atrativo. Mas não são só Portugueses. Nós temos clientes Franceses em Portugal. Como sabe houve um grande investimento de Franceses em Portugal, nós também apoiamos esses aqui, e são nossos clientes lá.

 

Esta ida de Franceses para Portugal é algo que vai continuar ou é apenas um efeito de moda?

Acho que vai continuar porque Portugal é um país acolhedor, como sabe, até do ponto de vista do clima, é um país onde se vive bem, e é um bom país para quem pode abrandar o seu trabalho do dia a dia…

 

Portugal criou o estatuto de Residente Não Habitual, com isenção de imposto sobre as pensões de reforma dos estrangeiros e agora vai criar um imposto de 5 ou 10%. Isso pode ser mau para o país?

Não. Acho que vai ser sempre vantajoso para os cidadãos Franceses porque uma taxa de 5 ou 10% é sempre uma taxa muito baixa, sobretudo comparada com o que pagam em França. De qualquer das formas, hoje vivem em Portugal muitos Franceses que não são reformados. As vantagens fiscais foram o ‘driving’ inicial, mas a melhor promoção é aquela que se faz de boca em boca, face ao modo de vida que se pode obter em Portugal. Eu encontro muitos Franceses, nos ginásios ou nos restaurantes, que não estão reformados, mas que vivem em Portugal, ou que têm um apartamento em Portugal, vão a Portugal regularmente, tudo isto muito facilitado com as ligações aéreas.

 

Os Portugueses que emigraram para cá, podem perceber menos bem que os Franceses possam agora ir viver para Portugal. O que mudou em Portugal?

Portugal hoje é um país moderno, um país aberto e aberto ao mundo e às diferentes formas de vida. Durante o Estado Novo era um pais fechado sobre si próprio. Portugal conseguiu afirmar-se a nivel mundial, até através de várias personalidades que ocupam lugares de destaque pelo mundo fora, e por isso Portugal mostra que pode estar ao nível dos outros países do mundo. Nós não víamos Portugueses nos palcos políticos e nas organizações internacionais e hoje vemos. Isso conseguiu-se através da instrução, da diplomacia, da influência,… E eu acho que Portugal tem uma vantagem que outros países não têm, que é o facto de ser um país pequeno.

 

Mas continua a ter ordenados mínimos baixissimos…

Nós não podemos ver só os ordenados, temos de ver o custo de vida, o custo da alimentação, dos transportes, por exemplo os custos dos transportes há uma diferença brutal com o que se passa, por exemplo, no Reino Unido. No entanto, estando Portugal a crescer, é natural que a convergência dos salários venha a acontecer. Hoje em dia a competitividade de Portugal não se faz pelos salários, mas faz-se sim pela qualidade dos produtos, pela educação – há muitas empresas internacionais a criarem em Portugal centros partilhados – a rede de comunicações e de telecomunicações é boa e por isso há aqui uma série de fatores que nos deixam confiantes. Os baixos salários são uma franja que ainda existe, todos nós temos de fazer um esforço para que aumentem, e eu acredito que as empresas portuguesas vão ganhando capacidade para pagar esses salários.

 

LusoJornal / Carlos Pereira

De que forma acompanham as empresas portuguesas que vêm para França?

O que acontece em Portugal é que as empresas portuguesas exportam mais. Não quer dizer que se instalem noutros mercados. Ou exportam ou têm representações nos outros países. Nós temos um conjuto de produtos para dar todo o apoio à internacionalização e para apoiar o investimento em mercados externos. Nomeadamente no que diz respeito às pequenas e médias empresas, que são aquelas às quais nós estamos mais relacionados, apoiamos a exportação, a promoção. Há uns 20 anos, havia um certo receio das empresas portuguesas venderem cá fora. Ora, nas crises nem tudo é negativo. As crises também têm fatores positivos. Os nossos empresários foram obrigados a olhar para fora e perceberam que eram tão competitivas como os outros.

 

E em sentido contrário? A AICEP apenas apoia a captação de grandes investimentos para Portugal e não há agência para captação de pequenos investimentos. O banco tem tido intervenção nesta área?

Não, a função do banco é ser reativo e a nossa missão acaba aí. Os investimentos em Portugam chegam-nos através de clientes e com a ação do nossos Escritórios de Representação, ou dos nossos balcões em Portugal. O banco aconselha, e pode ajudar a abrir portas em Portugal.

 

O que veio dizer aos seus clientes em França?

Que é com orgulho que estivemos aqui nos últimos 20 anos. O banco já tem 174 anos, é uma idade consolidada e vamos continuar com este Escritório de representação e até para reforçar porque nós temos vindo a crescer em termos de clientes.

 

Devido à nova emigração ou à captação de novos clientes?

Devido à equipa. Temos uma equipa muito boa em França, que conhece bem o mercado e o contexto.

 

 

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