Uma senha ser-lhe-á enviada por correio electrónico.

Este sábado, dia 7 de outubro, vai ser inaugurada ao fim da tarde, na Delegação de Paris da Fundação Calouste Gulbenkian, uma exposição «louca». O termo foi utilizado pelo próprio Diretor do centro cultural, Miguel Magalhães, aquando da apresentação da exposição à imprensa. Louco foi o desafio do curador Mathieu Copeland (na foto), que decidiu interpretar sonhos.

A exposição chama-se precisamente «L’Exposition d’un Rêve» e está patente ao público até 17 de dezembro.

«Posso tirar fotografias?» perguntou um dos jornalistas presentes na visita dedicada à imprensa. «Pode» respondeu visivelmente irónico o curador da exposição. Mas quando a porta dos salões do primeiro andar da Fundação, na avenue de la Tour Maubourg se abriu, alguém respondeu «não há nada para fotografar». As paredes estavam vazias. Mas claro que há, há um mundo de sonhos! Os sonhos dos que, de uma maneira ou de outra participaram na exposição, mas também os sonhos de quem a visita.

A exposição é sonora e visita-se como quem ouve um disco, com um «livretto» nas mãos. É uma experiência sensorial interessante, porque integra um software que «distribui» o som nas salas, a partir de mandalas criadas também para o efeito.

As paredes estão brancas, as salas estão vazias, mas os sonhos, esses, andam por ali, em circulação. «É uma paisagem metafísica» previne Mathieu Copeland.

A exposição nasceu em Lisboa e o princípio, segundo Miguel Magalhães, era «dar forma aos sonhos, era trabalhar a imagem mental». Mathieu Copeland trabalhou em três frentes diferentes. A partir de textos, de mandalas e de sons que foram depois «musicados» pelo músico alemão FM Einheit, um dos fundadores, nos anos 80, da música industrial com o grupo Einstürzende Neubauten.

Mathieu Copeland pediu textos aos portugueses Gabriel Abrantes, Alexandre Estrela, mas também a Genesis Breyer P-Orridge, FM Einheit, Tim Etchells, Susie Green, David Link, Pierre Paulin, Emilie Pitoiset, Lee Ranaldo, Susan Stenger e Apichatpong Weerasethakul. «Sem qualquer critério de escolha. De forma completamente subjetiva e assumida» disse Mathieu Copeland ao LusoJornal.

É com base nesses textos que foram compostas as 12 peças de FM Einheit. Numa primeira fase foram «esboçadas» no estúdio do próprio compositor, na Baviera, e depois foram gravadas em Lisboa, com a participação de uma série de músicos de renome internacional, como por exemplo Volker Kamp, Robert Poss (Band of Susans), Susan Stenger (Band of Susans, Big Botton), Saskia von Klitzing (Chicks on Speed, Fehlfarben), mas também com o Coro da Gulbenkian.

As gravações foram realizadas no «magnífico auditório da Gulbenkian, em Lisboa, com todas as condições técnicas necessárias», explicou Mathieu Copeland, mas também nos jardins da Gulbenkian em Lisboa e no seu anfiteatro ao ar livre.

Faltava depois «encenar» a exposição, «encenar os sons» e para isso, Mathieu Copeland teve uma ideia genial: encomendou diagramas geométricos (mandalas) a Philippe Decrauzat, Myriam Gourfink, Olivier Mosset e Eduardo Terrazas e reto outros de José de Almada Negreiros.

Cada som de cada música foi gravado numa pista autónoma, e FM Einheit organizou a projeção espacial dos sons, a partir dos diagramas geométricos. Um sofware foi criado para «repartir» os sons pelas 32 colunas instaladas nas salas da Gulbenkian de Paris.

«Esta é uma parte sensível do projeto, viemos para a grande aventura, na esperança que o resultado aqui, também fosse bom. Ainda esta manhã estávamos a regular os sons, mas felizmente tudo correu como esperávamos» disse Mathieu Copeland ao LusoJornal.

Mas a complexidada da exposição não se fica por aqui porque Mathieu Copeland explica que cada tema musical está «encenado» a partir de 4 mandalas diferentes. «Se voltarmos aqui, daqui por uma hora e meia, estamos a ouvir este mesmo tema musical, mas com uma nova repartição sonora diferente».

Como se isso não chegasse, o púbico é convidado a deambular pela sala e é esse próprio movimento do público que «faz» a composição que está a ouvir.

É uma exposição «louca» tinha prevenido Miguel Magalhães. «É um diálogo interessante entre o sonho e a imaterialidade de uma exposição e a materialidade concreta de uma exposição como a Fundação Gulbenkian».

Como numa ópera, à entrada da exposição cada visitante recebe um «libretto», com as imagens das mandalas e com os textos sobre os sonhos encomendados, mas também pode levar uma cadeira para parar, nas deambulações que faz pelas salas.

Mas o catálogo da exposição, paginado com o design da coleção «Textos Clássicos» da Gulbenkian, é uma obra para ler absolutamente. Para além dos textos e dos diagramas geométricos que deram origem à exposição, contém também textos sobre os sonhos – nomeadamente de um dos discípulos do surrealista André Breton, Jean-Michel Goutier, e textos e poemas de Ana Hatherly – e pistas de reflexão para «ir para além da exposição».

 

Até 17 de dezembro

Fundação Calouste Gulbenkian

Delegação em França

39 boulevard de La Tour Maubourg

75007 Paris

 

Cursos Instituto

 

Gostou deste artigo? Vote, participe!
Votação do Leitor 2 Votos
5.1