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Não apenas em tempo de guerra ou de conflito, podemos ser chamados a resistir para defender a nossa terra ou um ideal.

Em tempos de pluralismo na sociedade, tanta diversidade pode-nos levar à conclusão simplista que tudo é igual, tem o mesmo valor e a mesma consequência. E não é.

Por isso, a visita do Cardeal-Patriarca de Lisboa à Comunidade portuguesa radicada em Paris pode ser um ato de resistência. Muitos pensarão que é apenas um facto religioso que diz respeito à comunidade católica. É verdade: a vinda do Bispo, que é sucessor dos apóstolos, pretende confirmar na fé e na esperança de Cristo os seus irmãos. Mas a Igreja não é apenas, e sobretudo, portadora da salvação de Cristo: é também portadora de cultura e de humanidade. Dois mil anos de história fazem dela Mãe experiente e perita em humanidade.

Chegado a França há dez anos, tive a ocasião de visitar o Museu nacional da história da imigração, em Paris. Existe nele um cantinho dedicado à imigração portuguesa em terras de França. Objetos, testemunhos fotográficos dessa presença, mostram como os tempos foram muito duros para quem aqui chegou há 60 ou 70 anos. Uma fotografia chamou-me a atenção: num bidonville, uma imagem de Nossa Senhora de Fátima, enfeitada para a festa em sua honra. Mesmo ali, entre a lama e paredes de «parpaing», a presença portuguesa não esquecia essa dimensão transcendental da vida, porque um Homem não é apenas carne e ossos: e na imagem da Mãe de Jesus estava a memória de Portugal, «Terra de Santa Maria», da família e das suas tradições, das horas felizes e tristes, porque a Mãe nunca nos abandona e é ela que liga as gerações.

É difícil compreender a presença portuguesa no mundo inteiro sem a relação com os acontecimentos de Fátima. Sem sequer entrar nos detalhes teológicos, doutrinais e históricos, o Povo pressente que ali está algo e Alguém essencial à vida, como o pão ganho com trabalho duro. Integra a vida e estrutura a vida, como a cana frágil que ajuda a flor a crescer direita, suportando o seu peso.

Numa entrevista conduzida por Maria João Avillez (MJA) a D. Manuel Clemente (DMC), foi-lhe perguntado:

«MJA – Acha que em Portugal há a noção da importância, da relevância, da dimensão de Fátima, fora de portas?

DMC – Não sei se há, não sei. Mas o que sei, de certeza, é que quando os Portugueses estão lá fora, sobretudo os emigrantes, a sua identificação portuguesa é também uma identificação com Fátima. Não tenho a menor dúvida.

MJA – Podemos e devemos dizer que Fátima tem um papel civilizacional? Que não se circunscreve apenas ao perímetro da fé?

DMC – Quando falamos da civilização, falamos da organização da vida, não só pessoal, mas coletiva. E nós reparamos que, por exemplo, quando um pouco por todo o mundo se fala do Santuário de Fátima, das peregrinações a Fátima, isso entra na órbita da civilização: são já muitas vidas que ali se pontuam, tantas vezes ao ano, ao mês, nestes ou naqueles dias, daquela específica maneira. Quando, por exemplo, fazemos uma procissão das velas algures no mundo, reproduzindo aquilo que ocorre em Fátima, falamos da organização da vida. E, por isso, de civilização».

Confiada em 1988 à Comunidade portuguesa, a igreja de Marie Médiatrice – igreja votiva da ‘Liberátion de Paris’ – tornou-se Santuário de Nossa Senhora de Fátima para continuar a ser memória da História e presença civilizadora.

Os portugueses crentes, mais ou menos praticantes, ou apenas «homens de boa vontade», receberam um legado histórico e cultural a não perder. Aqui se cruzam e se encontram a história de França e da sua capital com a nossa história e a nossa identidade cultural.

Esta igreja foi consagrada em 1954 no dia da Padroeira de Portugal (por acaso?). A fé católica universal encontra-se com a língua portuguesa, e aqui se encontram e se ligam as duas: a fé em Cristo, salvador dos homens, e a veneração de Sua Mãe, Nossa Senhora do Rosário de Fátima, fazendo da cultura e da língua portuguesa uma ponte que une origens diversas.

Dificilmente se encontrarão pessoas de tantas origens diferentes numa igreja em Paris, como neste Santuário. Nas palavras do Cardeal Lustiger, que na reabertura da igreja, disse aos portugueses: «Je vous confie cette église afin qu’elle devienne, grâce à vous, un lieu de prière pour tous les hommes et les femmes qui vivent à Paris. Que tous ceux qui veulent prier trouvent ici un foyer ardent d’intercession, de miséricorde, de bonté. Vous le savez, dans Paris, beaucoup sont perdus qui viennent des quatre coins du monde; ils se sentent parfois mis de côté, voir rejetés».

E a seguir: «Partagez le trésor de votre foi et de votre prière en le rendant disponible à tous, les Parisiens mais aussi les migrants de toute nationalité qui ont une dévotion spontanée pour Marie et qui viendront ici, à cause de ce titre: ‘Notre Dame de Fátima’, chercher refuge, assistance, consolation».

Finalmente: «A deux pas du périphérique, votre église est bien placée pour offrir une petite halte. Vous devez donc être un relais de la mémoire chrétienne, un lieu d’accueil pour que toutes les richesses spirituelles dont le Seigneur a fait la grâce aux Portugais, demeurent vivantes dans leur cœur» (homilia, 13 maio 1988).

Aceite o convite a resistir, para não abandonar esta missão que nos foi confiada. Resistir ao individualismo e ao comodismo, que nos tenta a ficar de fora e ao longe.

Fátima em Paris convida-nos a resistir à perda da nossa identidade e visibilidade, guardiães da riqueza espiritual confiada aos Portugueses. Venha viver um acontecimento único num lugar único nesta terra que nos acolhe.

Dia 12, a partir das 21h00 celebramos a última aparição da Mãe do Senhor em terras de Portugal, aparecida para unir o mundo num mesmo desejo de mudança e numa mesma prece pela paz.

 

 

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