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Yohann Lopes nasceu em Versailles há 33 anos. Os pais são do norte de Portugal, “meia costela transmontana, meia costela minhota” como costuma dizer. Dedicou-se à música desde muito novo e diz que vai continuar para o resto da vida.

Estudou musicologia na Universidade da Sorbonne, onde defendendeu uma tese de doutoramento sobre a Concertina. Apesar de ser lusodescendente, é o especialista da concertina portuguesa e quer agora publicar o primeiro livro sobre este instrumento.

Esteve à conversa com o LusoJornal.

 

O que o levou à concertina?

A concertina é uma paixão. O meu pai é minhoto e no Minho há muita concertine. E é um instrumento popular, como eu. É um instrumento um pouco desvalorizado para o bem que nos faz. Eu sempre fui daqueles de dar valor ao que tem e a concertina é uma boa companhia.

 

A sua tese sobre a concertina é única no mundo, certo?

Exatamente, fiz o meu doutoramento sobre a concertina, que nunca tinha sido feito antes. A nível universitário é uma referência. Tive a honra de ter como professora catedrática, Salwa El-Shawan Castelo Branco fundadora da etnomusicologia em Portugal, que elogiou o meu trabalho. Também tive outros professores que participaram na minha tese, como Luc Charles-Dominique que é uma das referências a nível mundial da etnomusicologia em França, Philippe Cathé professor catedrático na Sorbonne, que trabalhou sobre a música contemporânea, e sobre as questões de análises musicais, sons, timbres, etc e o meu professor, que estimo muito, François Picard, especializado não na música portuguesa, mas na música chinesa, o que me deu muita vantagem na elaboração da minha tese.

 

 

A concertina é um instrumento praticamente desconhecido em França, não é?

Basicamente o que eu defendo na minha tese é que há um acordeão diatónico que tem a particularidade em Portugal e no Alto Minho de ter o nome de Concertina portuguesa. Nas culturas europeias é o segundo instrumento mais divulgado a nível das tradições de músicas orais. Em França chama-se «accordéon diatonique», na Itália «organeto» e em Portugal chama-se «concertina portuguesa». E o que eu defendo é que no fim dos anos 90, quando houve um novo interesse pelas músicas tradicionais, a concertina começou a abrir um mercado internacional para Portugal ou seja a plataforma europeia de construção de acordeões, que é a Itália, abriu o mercado para Portugal. Eu considero que houve um mercado para as concertinas portuguesas que faz dela um acordeão diatónico único, com as suas características que eu defino bem na minha tese.

 

Como se pode definir a concertina do ponto de vista musical?

Uma concertina faz a festa ela sozinha. Basta uma concertina, de comer e de beber e a festa faz-se! (risos) A concertina é um instrumento popular que precisa de pouco para dar emoção. Ao longo dos anos foi mal tratada, porque foi assimilada às festas populares, aos copos e ao rancho folclórico, mas pouco a pouco, com este tipo de ações, nomeadamente a minha tese, ou ainda com o meu irmão, fora de Portugal contribuimos para que a concertina tivesse um estatuto que evoluiu. A concertina tem uma vertente popular para a festa, mas tem outra vertente que se começa a abrir nos palcos internacionais, mais erudita e bem aceite pelas populações onde vamos apresentar um instrumento.

 

É esquisito ser um lusodescendente a promover a concertina fora de Portugal, não é?

Não é assim tão esquisito, porque na minha tese falo bem do assunto: em todas as pesquisas que fiz e entrevistas que dei sobre a concertina, ela caiu ao abandono em Portugal. E quem manteve a tradição da concertina foram os tocadores que saíram de Portugal ou seja que os melhores tocadores de concertina estiveram aqui em Paris. E é normal que nós nos interessamos mais pelo instrumento, nomeadamente a concertina portuguesa não é só um instrumento: veio a ser um emblema do Alto Minho através das suas ações, do som, do seu repertório e da raiz que ela tem de toda uma cultura e de toda uma comunidade.

 

Com o seu irmão Yannick e o seu pai criou o Trio Lopes. Como é que nasceu o grupo?

O meu irmão tem 3 anos mais do que eu. É uma pessoa fantástica, dedicou-se muito à concertina, para além do acordeão, da guitarra, da viola braguesa ou ainda do cavaquinho. Ele compõe músicas para concertinas, o que é raro em Portugal. O espírito é sempre o mesmo, tradicional com algumas inspirações e daí termos saídas no estrangeiro. Foram as raízes que nos levaram à concertina. O meu avô cantava à desgarrada e o meu pai toca cavaquinho, e através da comunidade portuguesa aqui e do rancho folclórico de Versailles, na altura, o nosso interesse pelo instrumento foi crescendo. Eu já tocava acordeão, a concertina veio depois. Ouvia aquele instrumento cujo carácter é incrível e mexeu muito comigo. Foi uma paixão que nunca mais larguei e como o meu irmão também toca, tocamos os dois. A concertina é um instrumento de convívio e que se pode partilhar porque a música é isso mesmo, partilhar uns com os outros um bom momento de música em harmonia. Eu faço isto com quem gosto mais que é o meu irmão e o meu pai. A minha mãe também nos acompanha, é uma história familiar.

 

 

Internacionalmente por onde têm andado?

Em janeiro fomos à Sibéria. Foram 8 horas de avião e pensava que ali ia encontrar um povo muito fechado e que só gosta da música dele. Afinal encontrei um povo fantástico. Foi incrível a sensação que tivemos e que proporcionamos em frente daquele povo. Eles nem sabiam onde era Portugal, troquei amizades e contactos e algumas pessoas virão ao meu festival que também organizo à volta do acordeão, mas também posso falar da Espanha, onde temos muito sucesso. Eles adoram a música portuguesa e a maneira como apresentámos a música portuguesa. Estivemos na Sardeigne várias vezes, em Israel, nos Estados Unidos, para a Comunidade e fora da Comunidade, no Québec, no Carrefour mundial do acordeão, nunca tinham visto Portugueses neste festival e é um dos maiores festivais de acordeão no mundo e voltaremos lá no próximo ano.

 

Têm um reportório diferente quando tocam para os Portugueses ou para um público mais universal?

A nossa força é adaptarmo-nos ao nosso público. Em Ponte de Lima, por exemplo, gostam de cantar, gostam de dançar, percebem as palavras e ali acontece algo. Agora quando vamos para palcos internacionais, é mais complicado convencer através das palavras porque as pessoas não entendem as nossas letras, e apresentamos de uma forma mais coreográfica, dançamos a tocar, cantamos em português mas melodias mais simples, que no final do concerto conseguem cantar connosco.

 

Sentem-se embaixadores da música portuguesa?

Em Portugal há muitas concertinas, mas quando tocamos em Portugal somos Franceses e é o único sítio do planeta onde somos Franceses. Mas todos os emigrantes conhecem isso, não é? Quando vamos para o Canadá somos Portugueses, aqui somos Portugueses, no estrangeiro somos Portugueses e quando chegamos a Portugal, podemos tocar uma Cana Verde, um Vira ou uma Chula, podemos tocar o mais tradicional, ou estarmos vestidos de folclore, somos sempre considerados como Franceses. Talvez seja pelo toque que seja diferente – o que não me parece – ou o nosso reportório que tentamos abrir há muitos anos. Como tocamos a nossa música, somos considerados diferentes. Embaixadores da música portuguesa até gostava de ser, mas quando vou a Portugal não tenho essa impressão de sermos considerados embaixadores da música portuguesa. Infelizmente.

 

Os vossos espetáculos não ficam só agarrados às raízes, pois não?

A concertina é um instrumento versátil ou seja tem vários repertórios que se adaptam. Temos um projeto – o «Duo Paris Lisboa» – no qual tocamos com uma amiga nossa. Trata-se de um Trio Lopes de música erudita, feito com composições de acordeão cromático e da concertina, mas que mistura várias influências, jazz, clássico, contemporâneo, das músicastradicionais de outros países também, mas sempre com um toque português, aliás é cantado em língua portuguesa, julgo que é um produto como nova música portuguesa. E também tem uma bailarina de música contemporânea em palco.

Sente-se verdadeiramente como um especialista da concertina?

Trabalhei muito e dediquei-me muito nestes mais de 10 anos de universidade à concertina. Os meus mestrados foram sobre a concertina, comecei pela parte organológica, depois a parte acústica, porque o som da concertina é particular, depois virei-me para o repertório que resultou numa tese de 800 páginas com um CD de 300 extratos musicais, com gráficos a explicar situações.Isso faz de mim um especialista nacional e mundial de um ponto de vista universitário. Também já tive o Trofeu de Campeão do Mundo de Concertina, que ganhei na Rússia. Mas também há muitas pessoas que sabem muito bem do que falam, sem nunca terem feito doutoramentos. Mas é verdade que nem sequer há um livro sobre a concertina portuguesa. É o meu próximo desafio: escrever um livro, não baseado na sabedoria popular, mas mais na etnomusicologia, com o aspeto científico e universitário.

 

Também transmite aos outros o gosto pela concertina?

Já antes dos anos 2000, criámos a primeira escola de concertina no meio associativo em Paris. Na altura havia muita procura, começámos a dar aulas e agora temos os nossos alunos que também dão aulas, uns aqui outros fora de Paris e mesmo até em Portugal, para onde alguns regressaram. A nossa escola está sempre presente, mas temos as nossas pesquisas e os nossos espetáculos que ocupam muito tempo, mas ainda temos tempo para os alunos. Gostamos de partilhar o nosso saber. Vimos já uns 300 alunos passar pelas nossas mãos. A escola Trio Lopes é na região de Versailles e quem estiver interessado pode contactar-nos através das redes sociais.

 

E finalmente, fale-me do vosso Festival…

O festival Trad & Som, é o festival de músicas do mundo da associação Trad & Som, baseado nos acordeões em geral. Em 2014 tivemos uma edição que foi feita através dos instrumentos de músicas tradicionais com um músico Arménio, um contrabaixo e sexafone soprano (klezmer) e claro sempre uma concertina. A próxima edição terá lugar nos fins de maio ou princípios de junho. A programação ainda está em curso, mas teremos vários artistas nomeadamente amigos que são profissionais, que virão da Colombia, da Bretanha, do Poitou, do País Basco, etc, vou fazer também uma espécie de baile francês dos anos 30, mas a programação ainda não está completa.

 

 

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