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Faleceu o fadista Carlos Neto, na noite de segunda para terça-feira, vítima de doença prolongada. Radicado em Paris há vários anos, foi para Portugal recentemente e internado no hospital de Santa Maria em Lisboa, onde faleceu.

Com 68 anos apenas, Carlos Neto lutou até ao fim, contra dois cancros, mas segundo a cantora Júlia Silva, ele tinha muita vontade de viver. «Foi várias vezes hospitalizado mas mesmo depois de conhecer o seu estado de saúde, continuou a dar espetáculos e era na música que ele encontrava a sua força de viver». Foram 7 anos de trabalho em conjunto em Paris e pela França. «Percorremos juntos o país de lés a lés. Foi com ele com quem mais trabalhei no meio do fado. Passámos bons momentos juntos», recorda.

Por sua vez o fadista Tony do Porto, lamentou a perca desta «grande voz do fado». Apontando para mais um vazio. «Cantava fado. Já era filho de fadista e ele tinha o seu próprio estilo. Estamos a perder grandes vozes do fado aqui em Paris. Admirava-o bastante, cruzamo-nos várias vezes, mas era difícil cantarmos juntos», explicou ao LusoJornal. Contudo relembra na altura em que o falecido havia chegado em França, meados dos anos 70. «Ouvi-o cantar em vários restaurantes, ele era muito apreciado pela Comunidade».

Era no restaurante Saudade em Versailles, que Carlos Neto cantava e organizava, quinzenalmente noites de fado. Segundo o gerente do restaurante, João Alexandre Ferraria, ele já era o fadista residente antes de reabrir o restaurante e decidiu «muito naturalmente», continuar a trabalhar com ele. «Eu era inculto no meio do fado e ele era um especialista! Foi com ele que fui descobrindo o fado e o seu universo. Ele era uma figura paterna, muito meticuloso e pontual. Dava-me conselhos, e claro que após tanto tempo já fazia parte da nossa equipa».

Já foi antes do verão que Carlos Neto se havia afastado do restaurante, mas a organização continuou a acolher os artistas que até ali o haviam acompanhado. João Alexandre Ferraria confessou ter sentido muita tristeza e pena quando soube da sua morte. «Ainda há 15 dias falei com ele ao telefone e me perguntou se o lugar ainda era dele. A sua voz estava enfraquecida, mas ele possuia uma vontade incrível de viver», acrescentando que agora ia ter que refletir sobre outro artista já no próximo ano.

Também o guitarrista, Philippe Sousa, ali o acompanhou nalguns espetáculos. «Íamo-nos cruzando, o meio do fado aqui é pequeno, acaba por ser evidente trabalharmos uns com os outros. Ele tinha uma voz genuína e para além da música era uma pessoa respeitadora e agradável», sublinhou ao LusoJornal. Recordou ainda um momento emocionante aquando uma pequena homenagem feita ao cantor falecido, na igreja de N. Senhora de Fátima em Paris. «Como ele já estava doente, foi ali que nos encontrámos e ele ainda chegou a cantar uma música, apesar do seu estado de saúde».

Júlia Silva acrescentou ainda com emoção, que o tinha visto pela última vez, antes das férias de verão. «Ele tinha me confessado que os tratamentos estavam a reagir muito devagar e que aguardava um novo tratamento, mas não aguentou».

Segundo a cantora, Carlos Neto era natural do norte de Portugal. «Porém foi viver para Lisboa quando era criança e sempre se considerou lisboeta». Antes de vir para França era condutor de táxi e já exercia a sua paixão pelo fado. Júlia Silva apontou também o profissionalismo do cantor falecido, «ele tinha muita responsabilidade pelo que fazia, e vai nos fazer muita falta», concluiu ao LusoJornal.

 

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