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Documentário «Os Cantadores de Paris» estreou ontem na capital francesa

O documentário «Os Cantadores de Paris», do realizador Tiago Pereira, estreou ontem em Paris, na Maison des Auteurs, na presença do realizador, de vários participantes do documentário e de alguns amigos. O filme já tinha estreado em outubro, no DocLisboa.

«A bem dizer, não sei bem o que estou a fazer aqui» diz logo no início do filme Carlos Balbino, o fundador do grupo. Com efeito, em apenas alguns meses, um grupo experimental que decidiu trabalhar sobre o Cante Alentejano, chegou às salas de cinema de um dos festivais mais conceituados de Lisboa.

Tudo começou quando Carlos Balbino, um ator português, atualmente a viver em Paris, decidiu criar uma peça de teatro sobre touros e touradas. E quem diz touros, diz… Alentejo. Num primeiro casting, surgiram os primeiros «cantadores».

A peça de teatro – «La dernière corrida» – foi finalmente apresentada em 2016, em Paris, pela Compagnie des Rêves Lucides, o grupo de teatro criado por Carlos Balbino.

Carlos Balbino é de Cascais. Vem do Teatro Experimental de Cascais e passou alguns anos por Londres antes de chegar a Paris. O Cante Alentejano descobriu-o… pela internet, graças a um ‘site’ chamado «A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria», fundado por Tiago Pereira.

Tiago Pereira é um apaixonado por Música popular portuguesa, mas também por rezas, «mesinhas», receitas e outras coisas mais. É um espécie de Michel Giacometi dos tempos modernos. Filmou centenas de grupos por todo o país e tem um site que é um autêntico museu vivo da música portuguesa.

Quando soube que em Paris um grupo de Cantadores aprendia a cantar através do site que criou, não hesitou, meteu-se num avião e veio à procura desta gente que queria cantar alentejano na capital francesa.

Encontrou dois portugueses, uma russa, uma italiana, uma uruguaiana, um marroquino, dois franceses,… e ficou «embaladíssimo» com o projeto. Ao ponto de fazer aquilo que tem feito: filmar.

Mas não ficou por aqui. Meteu-se-lhe na cabeça levar este grupo a Portugal, ao encontro dos grupos de Cante Alentejano. E continuou a filmar, claro!

São momentos memoráveis, encontros improváveis de gente da terra com gente da cidade, de Portugueses com sotaque afirmado, com estrangeiros fascinados pelo Cante Alentejano.

«Os grupos alentejanos podiam ser puristas e dizer que o ‘Cante’ é deles. Não o fizeram. Pelo contrário, derreteram-se em lágrimas» explica Tiago Pereira. «Ficaram emocionadíssimos ao ver como os estrangeiros tinham vontade de cantar as modas deles». E o filme transmite estas emoções. Mostra os «Cantadores de Paris» no meio dos grupos alentejanos, como que protegidos, a cantarem a uma só voz, ou a duas, ou a três… com «Altos» e com «Pontos».

«Mas que importa. Nós nunca seremos cantores alentejanos» diz uma das «cantadoras» francesas. «Nós nunca seremos como eles, interpretamos à nossa maneira, mas o que é lindo é que conseguimos entrar no mundo deles».

Já em tempos houve um grupo de Cante Alentejanos em Paris. Domingos Trindade era um dos fundadores. Na altura era «Alentejano de Paris», hoje regressou a Portugal e dirige um grupo no Alentejo. E Tiago Pereira foi chamá-lo para o filme. E que bem que fez…

 

A música para unir os homens…

Carlos Balbino é um sonhador. Sonha com um mundo que se entende, com mais humanidade, em que a canção pode servir para unir as pessoas. E quem vê este filme não fica indiferente a isso mesmo. Apesar dos contrastes.

Contrastes como aqueles homens e mulheres da terra, com mãos calejadas e cara queimada pelo sol agreste, e o grupo de jovens estrangeiros, citadinos. Uns, «os de Portugal» com passo lento, com voz pausada, expressando peso. Outros, os de Paris, ligeiros, sorridentes e com alegria contagiante. «Esta música dá-me vontade de dançar», diz um dos Cantadores de Paris, enquanto que no Alentejo, é um canto lento e rigido.

Um contraste como aquele que já em abril de 1993, o coreógrafo Pierre Deloche encenou em Pierre Benite, nos arredores de Lyon, quando fez dançar umas bailarinas num jogo aéreo, ligeiro, como penas de pássaros que se deixam arrastar pelo vento, enquanto o Grupo Coral Vindimadores da Vidigueira, vindo de Portugal, percorria o palco com passos pesados e com cantos da terra árida.

São emoções de Tiago Pereira também conseguiu transmitir, deixando os cantadores falar da experiência «única» e «forte» que viveram. «Pode acontecer o que acontecer, nunca vou esquecer esta experiência, esta viagem a Portugal, este encontro com os grupos de cantares do Alentejo» diz um dos cantadores, explicando que conseguiu «descer nos graves», mas continua a não conseguir «dobrar os rr’s». A sala riu.

A passagem do grupo pela RFI onde foi entrevistado por Carina Branco e pela Rádio Aligre, onde foi entrevistado por Matilde Parra, foram momentos que ficaram registados pela câmara de Tiago Pereira. No filme fala-se, mas sobretudo canta-se. O grupo cantou junto à Torre Eiffel, à Pirâmide do Louvre, à Grande Biblioteca, na Arena de Lutécia, num barco no canal de La Villette e até no Cemitério do Père Lachaise.

No pequeno debate que aconteceu após a projeção, o público manifestou-se. «Eu sou transmontana, mas este filme fez-me viajar ao encontro das minhas raízes» disse uma senhora do público, visivelmente emocionada. «Foi lindo, vivi os encontros com a minha avó».

Também Elsa da Fonseca Godfrin, Presidente da Associação França-Portugal de Oloron Sainte Marie (64), que se deslocou dos Pirinéus para assistir à estreia do filme, testemunhou: «Recebi o grupo em Oloron e adorei. Também adorei o filme. Parabéns. Bravo pelo vosso trabalho».

O filme está agora disponível para ser projetado em França e o grupo «Cantadores de Paris» continua a ensaiar todas as semanas na Casa de Portugal André de Gouveia, na Cidade Universitária de Paris, e promete continuar a «cantar alentejano, com sotaque francês» em Paris, na região parisiense e… «ailleurs»!

 

 

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