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Faleceu na sexta-feira, em Pau, com 88 anos, Reine Accoce. Foi amiga e correspondente de Amílcar Cabral, mas foi também fundadora de duas associações franco-portuguesas em Pau, para além de ter sido impulsionadora de inúmeras atividades culturais portuguesas naquela cidade.

Reine Accoce foi professora, mas estava reformada há muitos anos. Era acima de tudo uma militante associativa e uma mulher que transmitia humor e boa disposição. Cultivou o ótimismo como raramente se vê cultivado e afirmava ter «soluções para tudo»! Diz-se dela que resolveu as situações mais complicadas.

Nasceu em Roanne, no dia 8 de setembro de 1929 e estudou em Lyon. Chamava-se Reine Bonnefond, até ter casado com Pierre Accoce – que faleceu em 2011 – e de quem teve dois filhos: Olivier e Christophe.

A primeira escola onde lecionou estava numa pequena aldeia a mais de mil metros de altitude, na região de Saint Etienne. Nenhum professor queria o posto. Reine Accoce ficou lá 9 anos!

Ainda chegou a ser nomeada Diretora de uma escola em França, mas decidiu-se pela «aventura africana» e foi abrir, em 1959, a primeira escola francesa em Bouaké, na Costa do Marfim.

 

Amiga de Amílcar Cabral

Um dia, no metro de Paris, encontrou Amílcar Cabral. Viajavam sentados lado a lado, a ler o mesmo artigo de jornal. Meteram conversa. Ele era engenheiro agrário, amigo de Olof Palm, ela era professora e com sede de conhecer o mundo. Ele fundou o Partido Africano para a Independência da Guiné e de Cabo Verde (PAIGC) e organizou a luta armada contra a ocupação colonial, ela chegou mesmo a criar, em Pau, mais tarde, um Comité de apoio à luta pela liberdade das Colónias portuguesas.

Até à morte de Amílcar Cabral, em 1973, Reine Accoce manteve contactos com o líder independentista. Quando o fundador do PAIGC perdeu o apoio da França, cá estava Reine Accoce para servir de intermediária e para fazer chegar as comunicações codificadas de Amílcar Cabral aos interlocutores franceses.

Amílcar Cabral foi assassinado, mas curiosamente, a paixão de Reine Accoce por Portugal e pela cultura Portuguesa permaneceu.

Para além da cultura portuguesa, dedicou-se à defesa da cultura basca e de um método de ensino pouco conhecido na altura: a pedagogia Freinet. Deu aulas, entre 1964 e 1992, em Pau (nos Colégios Marguerite-de-Navarre e Jeanne d’Albret) e em Serres-Castet, onde terminou a carreira prifissional.

 

Militante associativa

Em 1975, logo depois da Revolução do 25 de Abril, fundou a Association France-Portugal de Pau, que presidiu. Militou nesta associação até 1989, animou programas de rádio sobre a cultura portuguesa, nomeadamente na Rádio des Gaves. E organizou concertos com artistas de renome e peças de teatro.

Mais tarde, ajudou a fundar a Association Lusofonie de Pau, com o estatuto de Presidente de Honra.

Marcou pois o movimento associativo português em Pau e todos se lembram das excelentes relações que manteve com o antigo Maire da cidade, André Labarrère, de quem era muito próxima e de quem obtia com facilidade a cedência das infraestruturas necessárias para a organização de eventos, como por exemplo o Théâtre Saint Louis de Pau.

Aliás, Reine Accoce consegue mesmo que André Labarrère assine um Protocolo de geminação com a cidade de Setúbal.

 

Uma videasta amadora

Diz-se que Reine Accoce era também um «centro de documentação». Durante anos, com uma câmara de filmar que nunca largava, filmou as festas portuguesas de Pau, os concertos, as peças de teatro, os momentos de convívio, mas também as digressões de grupos bascos a Portugal, que acompanhava sempre.

Reine Accoce tinha outra paixão: a da condução. Quando era jovem, ter carta de condução e ter um carro era sinal de emancipação e muitas vezes contava as aventuras que tinha com o 2CV que comprou na altura.

Ainda não há muitos anos, pegava no carro e «em três tempos» estava em Biarritz, em Tarbes, em Bordeaux ou em Paris. Adorava conduzir!

O funeral de Reine Accoce vai ter lugar esta quarta-feira, às 14h00, em Pau. «Oxalá seja prestada a devida homenagem oficial pelo Estado Português àquela que foi fundadora da Associação France-Portugal, foi banco, táxi, albergue, restaurante, empregadora, assistente social e increbantável defensora e promotora da cultura e da língua portuguesas» lembra Hélder Alvar (na foto com Reine Accoce), que foi professor de Português em Pau e conviveu com Reine Accoce. «Merece uma homenagem póstuma de reconhecimento por todos aqueles que a conheceram e que beneficiaram da sua ajuda. Se alguém deveria ser condecorado, Reine Accoce seria com toda a justiça, digna do grau maior».

Mas não foi condecorada. Pelo menos em vida.

 

 

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