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Falar de migrantes e refugiados, num país de forte imigração e sendo membro de uma Comunidade de emigrantes, não simplifica as coisas. A diversidade cultural, racial, linguística e religiosa das nossas sociedades recorda-nos sempre a narrativa da Bíblia sobre a torre de Babel.

Em França, como por exemplo no Brasil, nos EUA e em outros países construídos por migrantes e refugiados, os estrangeiros foram chegando por fases, como que em vagas mais ou menos precisas no tempo e na sua composição e em situações políticas e económicas variadas.

A título de exemplo, os Italianos chegaram em massa na segunda metade do século XIX, por razões económicas. O movimento continuou no séc. XX, tornando-se mais político nos anos 30, quando muitos Italianos fogem do novo regime fascista entretanto instalado. Interrompido durante a II Guerra Mundial, meio milhão de Italianos chegarão a França entre 1947 e 1967.

Os nossos vizinhos Espanhóis também procuraram o “Hexágono” para aqui viverem, ainda no século XIX, sobretudo para tarefas agrícolas no sul da França. Diferentemente dos Italianos, os Espanhóis emigram em França durante a I Guerra Mundial, exercendo funções deixadas vagas pelos Franceses que partem para combater nessa terrível guerra, em que a Espanha não tomou parte. Desta vez, instalam-se um pouco por todo o país na indústria e na agricultura. A Guerra civil espanhola (1936-1939) trará novos migrantes, agora também políticos, e logo de seguida a II Guerra Mundial renovará o movimento migratório, com novas chegadas, que integrarão a França do Governo de Vichy (que promoverá as “companhias de trabalhadores estrangeiros”) mas também a Resistência e a France Libre do General de Gaulle. Após a guerra terminar, uma numerosa Comunidade espanhola permanecerá, posteriormente integrada, como a portuguesa, na construção, na indústria e no serviço doméstico.

A presença de Emigrantes portugueses deu-se logo no início do século XX, sobretudo intelectuais e artistas que procuravam a França da cultura e das artes, sobretudo Paris. A estes se juntaram também alguns exilados políticos, até à implantação da República em 1910. Com a entrada de Portugal na I Guerra Mundial, em 1916, milhares de soldados portugueses virão combater e morrer em terras francesas. Mas não só. O Governo português envia 20 mil trabalhadores recrutados num acordo de mão-de-obra fornecida a França e muitos não voltarão. A instabilidade política da jovem República portuguesa devida ao sectarismo político e anti-religioso dos seus dirigentes, favoreceram também a emigração política. Em 1931 estão recenseados 50.000 Portugueses vivendo em França.

A II Guerra Mundial e a ocupação alemã vão interferir neste movimento, que se retomará com a reconstrução pós-guerra e o crescimento económico das décadas seguintes. Nos anos 60 o número de Portugueses emigrados em França multiplica-se por dez, atingindo os 700 mil, fazendo de nós a primeira Comunidade estrangeira. Além da pobreza, muitos jovens fugirão da participação na Guerra Colonial, que enlutava tantas e tantas famílias. Esta emigração, ainda que conservando uma componente masculina muito importante, incluirá mulheres e crianças: eles trabalharão na indústria e na construção, e as mulheres no trabalho doméstico como «femmes de ménage» ou «concierges d’immeubles», as famosas «gardiennes» que marcarão para sempre a realidade da nossa emigração no imaginário parisiense.

Também este fluxo migratório diminuirá com a melhoria da vida económica no nosso país, após a instauração do regime democrático em 1974 e com a entrada de Portugal na Comunidade Económica Europeia em 1986. Mais recentemente, a partir de 2008 o desgoverno financeiro do país e a crise económica internacional, gerou novo surto migratório (que entretanto parece ter abrandado, pelo menos para França).

 

Mas a história não acaba aqui

Consequência dos laços históricos e da colonização francesa, Magrebinos (sobretudo da Algéria, mas também de Marrocos), Vietnamitas (e da região da Indochina francesa), Subsarianos (dos países ao sul do deserto do Sahara, daquilo que se convencionou chamar a África Negra, colonizados pela França: Senegal, Mali, Congo, Camarões, além de outros) vão instalar-se em França e compor o mosaico multicultural e multirreligioso da França que integramos.

Atualmente é impossível poder dizer de forma honesta e fundamentada na história de França, que existem “eles” e “nós”, sobretudo se com isso se pretender justificar uma qualquer oposição. Na verdade os “nós” de hoje já foram os “eles” do passado. E foi assim desde o primeiro movimento migratório na humanidade, pelo qual a terra se foi povoando de gente.

Para o domingo 14 de janeiro, 104º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, instituído pelo Papa São Pio X em 1914, o Papa Francisco publicou uma mensagem a partir do texto bíblico em que o Senhor Deus diz a Israel: «O estrangeiro que reside convosco será tratado como um dos vossos compatriotas e amá-lo-ás como a ti mesmo, porque foste estrangeiro na terra do Egipto. Eu sou o Senhor, vosso Deus» (Livro do Levítico 19, 34)». E continua: «Repetidas vezes, durante estes meus primeiros anos de pontificado, expressei especial preocupação pela triste situação de tantos migrantes e refugiados que fogem das guerras, das perseguições, dos desastres naturais e da pobreza. Trata-se, sem dúvida, dum ‘sinal dos tempos’ que, desde a minha visita a Lampedusa em 8 de julho de 2013, tenho procurado ler à luz do Espírito Santo. Quando instituí o novo Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, quis que houvesse nele uma Secção especial (colocada temporariamente sob a minha guia direta) que expressasse a solicitude da Igreja para com os migrantes, os desalojados, os refugiados e as vítimas de tráfico humano.

Cada forasteiro [o que vem de fora] que bate à nossa porta é ocasião de encontro com Jesus Cristo, que Se identifica com o forasteiro acolhido ou rejeitado de cada época (cf. Mt 25, 35.43). O Senhor confia ao amor materno da Igreja cada ser humano forçado a deixar a sua pátria à procura dum futuro melhor. Esta solicitude deve expressar-se, de maneira concreta, nas várias etapas da experiência migratória: desde a partida e a travessia até à chegada e ao regresso. Trata-se de uma grande responsabilidade que a Igreja deseja partilhar com todos os crentes e os homens e mulheres de boa vontade, que são chamados a dar resposta aos numerosos desafios colocados pelas migrações contemporâneas com generosidade, prontidão, sabedoria e clarividência, cada qual segundo as suas possibilidades.

A este respeito, desejo reafirmar que a nossa resposta comum poderia articular-se à volta de quatro verbos fundados sobre os princípios da doutrina da Igreja: acolher, proteger, promover e integrar».

Não há “eles” contra “nós”, nem “nós” contra “eles”. Nós já fomos eles e eles serão, um dia, uns de nós. Há simplesmente (tem de haver) “acolher, proteger, promover e integrar”.

Como? Em que condições? Cabe-nos a todos de forma dialogada, despida de preconceitos ideológicos (extremados à Esquerda ou à Direita, ou bem “mornos” ao Centro) defini-lo.

Bom Ano Novo, por um Coração aberto em cada um de nós e disponível para todos.

 

 

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