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‘Centre Franco-Portugais’ canta Janeiras na região de Bourges

Um grupo de elementos do Centre franco-portugais de Bourges (18) insiste em manter uma tradição bem portuguesa no Centro da França. Durante todo o mês de janeiro vai cantar as Janeiras a casa dos Portugueses da região.

«É uma tradição muito antiga e tentamos relembrar essa tradição em França» confirmou ao LusoJornal José Santos, o Presidente da associação.

«As janeiras começaram no seguimento de um desafio: e se fossemos cantar as Janeiras? Praticamente todos os membros dos nossos grupos aderiram imediatamente» explica David Lourenço.

A associação tem um grupo de folclore «federado» – José Santos orgulha-se de dizer que «é o único grupo federado fora de Paris. Os outros estão todos na região parisiense» – e também tem um grupo de Zés Pereiras com bombos, Gigantones e Cabeçudos.

«Eu nasci cá e nunca tinha ouvido cantar as Janeiras. E é de facto um orgulho ver pessoas com entusiamo a manter esta tradição. Eu pessoalmente gosto de ir com a viola na mão, de casa em casa, pareço um boémio… Adoro isto» diz David Lourenço ao LusoJornal.

A «rusga» veste os casacos vermelhos da associação, cobre-se porque está muito frio e lá vai acompanhada por uma concertina, um bombo, uma pandeireta, uma viola braguesa e uns ferrinhos.

«Temos aqui muitos emigrantes portugueses que ficam emocionados de ver cantar as Janeiras como naqueles tempos em que se andava de porta em porta na aldeia. Juntamos a vontade de cantar e de dar prazer às pessoas. É essa a nossa força e que nos motiva a ir o mais longe possível».

Dorinda Brandão Lourenço veio para França há 46 anos, quando tinha 16 anos. «As Janeiras representam muito para mim» confessa ao LusoJornal. «Porque eu já lá cantava e quando começámos a fazer isso, o coração apertava muito e muitos choravam ao ver-nos. Eu no início nem conseguia cantar».

O LusoJornal acompanhou os elementos do Centre Franco-Portugais de Bourges a casa de Armindo e Maria do Céu Oliveira. «Foi uma surpresa, mas é muito bom ver e ouvir cantar as Janeiras. Tenho aqui sobrinhos que nunca tinham ouvido e ficaram a saber como é. Guardar as tradições é importante para nós mais velhos e transmiti-las aos mais novos».

Calhou bem porque Maria do Céu, a esposa do casal, fazia anos nesse dia. «Eu não sabia que vocês vinham» ía dizendo emocionada.

Tudo é combinado em surpresa. «Muitas vezes falamos com um dos familiares, que já aguarda a nossa vinda, mas para os outros é sempre uma supresa quando aparecemos a cantar as Janeiras. E vemos de imediato a emoção na cara das pessoas com uma pequena lágrima, é essa a nossa melhor recompensa» conta José Santos.

Dorinda Brandão Lourenço dança no grupo de folclore e toca no grupo de bombos. «Às vezes penso que já não sou muito nova para fazer isto, mas uma das melhores coisas da minha vida é cantar e tocar bombos. Quando estou com um daqueles bombos grandes, transformo-me, não sou eu, sinto-me outra» conta ao LusoJornal. Mas cantar as Janeiras «é outra coisa» porque «joga com emoções». «Uma vez fomos cantar a casa de uma família, com uma pessoa doente. Quando saímos de lá as pessoas choraram tanto, tanto, que fiquei muito emocionada, eu e as minhas colegas. No fundo encontramos uma utilidade nas Janeiras, e para nós comove-nos imenso».

Armindo Oliveira já conhecia a associação porque a Presidiu há muitos anos. É conhecido em Bourges porque já foi de bicicleta até Portugal «para cumprir uma promessa» conta a esposa. Agora, reformado, diz que «eu preferia estar em Portugal, mas a mulher não diz nada… e tenho cá os meus filhos e netos… vou ficando por aqui».

Conta ao LusoJornal que a tradição das festas de Natal e de Fim do Ano «são difíceis de manter». O casal passou o Natal com a família, mas a Passagem de Ano foi em casa. «Já não temos idade para sair» explica! «Não se pode dizer que comemos à portuguesa, porque os mais novos não gostam destas coisas, mas também não é à francesa, porque cozinhamos à portuguesa» explica Armindo Oliveira. «Por vezes até fazemos um prato português no Natal, para depois ter ‘Roupa Velha’ no dia seguinte. Este ano não tivemos Rabanadas, mas fiz Aletria» conta.

A mesa estava posta e a sala estava cheia de familiares e amigos para festejar o aniversário de Maria do Céu Oliveira, quando rompeu casa dentro o grupo com cerca de 30 elementos. «Foi uma grande surpresa, e ainda por cima no dia dos meus anos. Manter esta tradição portuguesa é importante para nós os mais velhos. No Natal, tentamos sempre manter algumas especialidades portuguesas mas os mais pequenos não estão habituados e temos que nos adaptar também a eles».

Maria do Céu cantava as Janeiras em Portugal, «com a igreja», mas já mora em França há 53 anos. Por isso, este foi um momento para matar saudades. «Sabe, eu ainda canto a Avé Maria em Latim, como se cantava primeiro, mas agora já nem isso se canta» diz a sorrir.

No ano passado, o Centre Franco-Portugais de Bourges foi cantar as Janeiras a mais de 40 casas, durante todo o mês de janeiro. Este ano prometem continuar a levar aguma alegria a algumas casas. «Não é por dinheiro, é pelo presunto e pelo fumeiro» cantam.

 

 

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