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A exposição «Os trabalhadores forçados portugueses do III Reich», está patente ao público no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, e é o resultado de uma investigação coordenada pelo historiador Fernando Rosas e feita por uma equipa internacional do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, na qual participou Cristina Clímaco, historiadora no departamento de Português na Universidade de Paris VIII, Vincennes- St Denis.

Segundo Fernando Rosas, «cerca de 400 Portugueses, talvez um pouco mais» estiveram confinados durante a Segunda Guerra Mundial em campos de concentração, prisões ou ‘stalag’ [campos de prisioneiros de guerra], sujeitos a brutais condições de trabalho forçado». Destes, «pelo menos 30 não sobreviveram».

Há «variado rasto» na documentação consular e diplomática do Estado português sobre esta realidade, mas «não existe evidência de qualquer diligência diplomática consistente por parte do Governo do Estado Novo no sentido de acudir ou defender os seus cidadãos escravos, coercivamente deslocados, nos campos de concentração, prisioneiros dos ‘stalag’ ou forçados a trabalhar na Alemanha quando queriam fugir à guerra e à devastação», disse Fernando Rosas.

Além disso, a Ditadura «também se esforçou por silenciar qualquer tentativa de lembrar ou informar o país da situação e sacrifício dos cidadãos portugueses, por via da censura». «A norma do regime foi o silêncio imposto e a desmemória», sublinhou.

Para o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, «o século XX faz parte da história europeia e conhecê-lo é a melhor maneira de nós prosseguirmos com um projeto europeu que foi construído com o objetivo, até agora cumprido, de evitar a repetição da barbárie no coração da civilização europeia».

«Esse princípio tem de ser respeitado todos os dias», alertou o Governante, referindo que, «a muito poucos quilómetros da fronteira sul da Europa, ainda hoje há pessoas que são vendidas como escravos, em mercados, na Líbia».

«A melhor homenagem que podemos prestar às vítimas portuguesas e de tantas outras nacionalidades é lutarmos todos nós agora contra todas as formas de trabalho forçado», destacou Santos Silva.

A exposição teve o patrocínio da associação dos autarcas de origem portuguesa em França, Cívica e Paulo Marques, o Presidente desta instituição esteve presente na inauguração, em novembro.

A historiadora Cristina Clímaco aceitou responder às perguntas do LusoJornal.

LusoJornal / Carlos Pereira

 

Como integrou este grupo que está a trabalhar sobre os Deportados?

Por conhecer bem a realidade da Comunidade portuguesa em França, por trabalhar sobre a Emigração portuguesa nos anos 20 e 30. Com o professor Fernando Rosas, tenho uma ligação muito antiga, assim como com os outros colegas que também trabalharam sobre este tema dos Portugueses na deportação e no trabalho forçado.

 

Quem eram estes Portugueses?

Há várias realidades, vários grupos. O grupo principal que tem o maior número de efetivos, são Emigrantes portugueses em França, muitos deles chegaram nos anos 20, outros nos anos 30. Depois foram-se integrando na vida francesa e participaram na Resistência. Outros não, porque alguns foram apanhados neste turbilhão da invasão alemã e da ocupação alemã. Por exemplo, há um caso de um Português que foi apanhado por ter uma arma de caça em casa, que devia ter sido entregue às autoridades alemãs. Alguns não acataram essa obrigação e foram denunciados e deportados. A ideia dos Alemães era que este grupo devia desaparecer sem deixar rasto.

 

E onde moravam estes Portugueses levados?

A maioria deles morava na região parisiense. Os que têm maior ação na Resistência moravam nos departamentos pioneiros da emigração portuguesa, ou seja os departamentos fronteiriços com a Bélgica, o Luxemburgo e a Alemanha. A Emiliene dos Santos Viana, por exemplo, que chegou muito pequena a França, era secretária na fábrica Peugeot em Sochaux, tinha acesso a informação que transmitia aos Aliados, o que levou a uma série de ações, como bombardeamentos de alvos estratégicos. A Emiliene não foi denunciada, mas o irmão foi apanhado numa operação alemã, morreu e consigo tinha uns documentos que o ligavam à irmã e foi assim que ela foi presa, julgada e condenada à morte. Mas como os Alemães não executavam mulheres em território francês, ela foi deportada para uma prisão, de onde ela conseguiu evadir-se aquando de um bombardeamento, com um grupo de colegas e voltou para França.

LusoJornal / Carlos Pereira

 

Conhece o número exato de Portugueses que foram levados para os Campos de concentração?

Não se trata apenas de Campos de concentração mas também de prisões do III Reich. Até agora apurámos cerca de 70, mas pensamos que o número é superior. A dificuldade tem a ver com a identificação dos Portugueses, em certos casos, o nome não aparece em português, aparece com uma grafia espanhola ou traduzida para francês.

 

Há muitas mulheres neste grupo?

Há 3 mulheres neste grupo: a Emiliene é uma delas. A Maria Barbosa é outro caso muito interessante. Toda a família era Resistente, o pai, a mãe e o filho, todos foram presos. A Maria Barbosa e o filho foram deportados e o pai, Américo de Azevedo, foi preso e morreu durante um bombardeamento na prisão de Amiens. A outra senhora que também se chamava Maria, foi presa, não por implicação direta, mas pelas relações pessoais que tinha com um Resistente francês.

 

E sobre os Portugueses deportados que saíram de comboio de Angoulême?

Havia efetivamente 3 Portugueses no primeiro comboio de deportação. Um comboio composto exclusivamente por refugiados espanhóis da Guerra de Espanha, mas havia 3 Portugueses identificados como Espanhóis. Já eram emigrantes portugueses em Espanha. Alguns constituíram família em Espanha e vieram junto com os refugiados espanhóis. Estes 3 Portugueses encontraram-se num campo perto de Angoulême, não se sabe como, foram alvo de uma ação alemã.

 

Conhece a história de todos estes Portugueses?

Foi possível reconstituir a vida para metade do grupo, para os outros não, apenas temos o nome, não se sabe a razão porque foram presos. Temos histórias interessantes e dramáticas para alguns.

 

Continua então a pesquisa em relação aos outros?

Continuamos a pesquisar em relação aos outros e mesmo sobre estes que conhecemos, de modo a integrá-los na história da Resistência francesa e da repressão alemã em França, porque temos de seguir as lógicas da repressão e não apenas os percursos individuais dos Portugueses.

 

Qual era a posição de Portugal. Sabia destes casos? Regiu?

Não sabia tanto da deportação, mas sabia que havia Portugueses que eram requisitados e deportados para o III Reich. Há rastos na correspondência consular. As indicações de Lisboa é de fazerem uma lista e de intervirem junto das autoridades francesas e alemãs. Essa intervenção parece ter sido feita, mas o resultado não parece ter sido consequente. Apesar da intervenção dos Cônsules e aqui temos de destacar a figura de António Alves, que interveio muito junto das autoridades alemãs em Paris na defesa dos Emigrantes, apesar dessa intervenção a ideia que se tem é que há, apesar de tudo, uma certa proteção dos trabalhadores que foram requisitados na zona norte, enquanto na zona sul, a zona dirigida pela França (de Vichy) essa proteção e essa requisição dos trabalhadores foi efetiva. Portanto, curiosamente, há uma menor proteção dos trabalhadores na França de Vichy, que na França ocupada.

 

Estes foram os únicos Portugueses a seguirem para trabalhar na Alemanha?

Temos que distinguir 3 grupos, todos se encontram no trabalho forçado, trabalho em favor da Alemanha Nazi, quer em França, quer na Alemanha: os trabalhadores voluntários ou forçados, um 2° grupo são os prisioneiros de guerra, os Portugueses que se alistaram voluntariamente nas unidades criadas em 1939 ou na Legião para integrarem os estrangeiros que se mostraram dispostos a lutar pela França e o 3° grupo é o grupo de deportados de que falei. Mas todos vão contribuir de um modo ou de outro para o esforço de guerra alemão.

LusoJornal / Carlos Pereira

 

Quem eram os prisioneiros de guerra?

São os Portugueses que se alistaram na Legião ou nos Regimentos de marcha de voluntários estrangeiros, entre 1939 e junho de 1940. Temos cerca de 900 Portugueses até agora, é um número provisório, porque pelas listas que se obteve, vemos que há nomes repetidos, outras regiões que não foram cobertas. Destes 900 há cerca de 300 prisioneiros de guerra que vão-se encontrar internados nos ‘stalag’ – campos para prisioneiros não oficiais, portanto para soldados e praças e oficiais de baixa patente – e pela Convenção de Genebra eram obrigados a trabalhar para o inimigo.

 

E quem eram os voluntários?

Os que trabalhavam para a organização da TODT, ou na Alemanha, para fábricas, em quintas, em pequenas empresas, mesmo em casas particulares. Em junho de 1940 há uma requisição, os Alemães começam a abrir escritórios de recrutamento para trabalhar na Alemanha, e há muitos Portugueses no desemprego. Os Alemães começam a recrutar Franceses e os Portugueses começam a alistar-se voluntariamente para irem trabalhar na Alemanha. Uma das razões é que não podiam, desde setembro de 1939, enviar dinheiro às famílias, porque a exportação de divisas estava proibida, era impossível enviar dinheiro às famílias e temos que ter em conta que a Comunidade portuguesa era uma Comunidade masculina em que muitas famílias residiam em Portugal e subsistiam graças ao trabalho do chefe de família em França. Ora da Alemanha podiam enviar dinheiro para as famílias.

 

A exposição está agora em Lisboa e depois vai circular?

O objetivo é que ela circule, e transformá-la em exposição itinerante, em princípio onde ela será mostrada será no concelho de Loulé, onde há um número de deportados consequente, para um pequeno concelho como este, há 6 deportados. É preciso também notar que o Algarve foi uma das zonas de emigração portuguesa para França, nos anos 20 e 30.

 

A Exposição virá para França também?

Seria interessante que ela viesse, mas por enquanto não há nada estabelecido.

 

 

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