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João Pinto Coelho é o vencedor do Prémio Leya de 2017 com o romance «Os loucos da rua Mazur», livro que chegou há pouco às livrarias portuguesas.

O seu primeiro romance, «Perguntem a Sarah Gross», que foi finalista do mesmo prémio, foi publicado em 2015 e vai já na 4ª edição, obtendo grande sucesso junto do público e da crítica.

«Os loucos da rua Mazur», tal como o seu primeiro romance, retrata os tempos negros da ocupação nazi da Polónia e que conduziu a uma das maiores catástrofes do século XX: o massacre de opositores políticos, comunistas, sociais-democratas e sindicalistas, mas também o assassínio industrializado dos povos que a ideologia nazi-fascista considerava inferiores, tais como os judeus e os ciganos, ou os «inadequados» como os homossexuais e os deficientes.

O enredo deste romance, que também passa por Paris, parte da seguinte premissa: um encontro, em 2001, entre um livreiro cego e um escritor famoso, ambos judeus, que não se veem desde a invasão nazi da Polónia, leva-os a recordar o passado.

 

João, em Portugal, ao contrário de outros países, não existem muitos romances de escritores portugueses que abordem a história do holocausto? De onde te vem esse interesse?

Esse interesse terá cerca de trinta anos, vem ainda dos meus tempos de faculdade, quando li um primeiro livro que falava precisamente do Holocausto, mas do ponto de vista dos perpetradores. E quem se aproxima desta temática, começa a fazer perguntas e começa a perceber que em vez de encontrar respostas não para de somar novas perguntas, eu acho que isso cria um fascínio por este tema, não é? E daí, o meu espanto, a minha perplexidade e as inquietações que isto vai gerando e que nunca se saram e que, portanto, acabaram por conduzir à escrita porque, ao contrário de muitos outros autores, eu não estava na escrita quando cheguei a Auschwitz e foi através de Auschwitz que cheguei à escrita.

 

Tu és arquiteto de formação.

Sim, podemos dizer que a parte criativa da arquitetura e das belas artes por onde passei também acabam por ser…

 

Um outro tipo de construção?

Exatamente.

 

Antes de te dedicares à escrita, estiveste envolvido num projeto em Auschwitz.

Sim, eu, como também sou professor, tive um projeto sobre Auschwitz com dezassete alunos portugueses e dezassete alunos polacos. O projeto envolvia não só o Campo de Concentração, mas também a cidade. Por fim, tivemos a oportunidade de viajar até à Polónia para nos encontrarmos com os nossos parceiros polacos e, a partir daí, estar dentro da cidade que recebeu o Campo em 1939. E, sem o saber, eu, nessa altura, já estava a escrever o primeiro romance, o «Perguntei a Sarah Gross», que trata precisamente a forma como aquela cidade, que era uma cidade com dinâmicas incríveis, onde viviam judeus e cristãos, se transformou num lugar hediondo depois da chegada dos Alemães.

 

A Polónia é, portanto, um local central dos teus livros. Sei que já houve há uns dias uma polémica que envolveu a reação do Embaixador polaco em Lisboa a uma entrevista tua sobre este livro. Por isso te pergunto: como olhas para a sociedade polaca de hoje e, de uma maneira geral, para as sociedades da Europa de leste?

O problema é que não foi um pequeno desaguisado com o Embaixador. A questão começa antes, ainda antes de sair o livro, com o impacto surpreendente que a entrevista teve junto da imprensa polaca. Eu fui acusado de atacar a Polónia e os Polacos, chamando-os de racistas. Bem, uma reação totalmente desproporcionada. Depois, vim mais tarde a saber que aquilo era sobretudo por parte da imprensa associada à Extrema-Direita nacionalista que tem, hoje, uma forte presença na Polónia.

 

Na Polónia a Esquerda foi varrida dos órgãos que têm o poder de decisão. No Parlamento, por exemplo, não existe um Deputado de Esquerda. Não há um Social-democrata e muito menos um Socialista ou um Comunista. O panorama político vai apenas da Extrema-Direita ao Partido do Kaczynski, passando pelo catolicismo mais conservador e obscurantista da Europa.

Exatamente. E é nesse sentido que surgiu a reação do Embaixador polaco em Lisboa, muito mais ponderada e compreensível, pois tem de defender o bom nome do seu país. Mas há uma coisa que é incontornável. Nós neste momento assistimos ao ressurgimento de uma intolerância e sinais de preconceito muito fortes, não só na Polónia, mas na Europa e muito particularmente na Europa de Leste, onde existem movimentos ultranacionalistas. Houve, ainda na sequência da polémica, uma carta enviada ao Presidente do Partido Paz e Justiça do Kaczynsky por parte das associações das comunidades judaicas na Polónia onde dizem de forma muito clara que estão a assistir ao recrudescimento de um discurso antissemita e que se sentem inseguros. E depois existem enormes manifestações da Extrema-Direita.

 

Surpreendeu-te essa manifestação no dia da independência polaca, com aquelas sessenta mil pessoas, aquela retórica racista, aquela violência, aquele ódio marcado nos próprios rostos de muitos dos manifestantes?

Não me surpreendeu. Claro que nem todos os manifestantes eram extremistas de Direita, mas há um nacionalismo crescente e perigoso.

 

Há, claro, um apropriar e uma instrumentalização por parte da Extrema-Direita do natural patriotismo do povo polaco.

Sem dúvida, que sim, sem dúvida. E isso resultou naquela manifestação pouco surpreendente, repleta daqueles sinais há muito previsíveis. Mas atenção, que isso não acontece só na Europa de Leste.

 

Claro que não, tens toda a razão. Aqui em França, temos casos preocupantes de racismo e nacionalismo trauliteiro.

E em Inglaterra, por exemplo, acontece um aumento de manifestações antissemitas. Isto está a espalhar-se.

 

Menos em Portugal, onde a Extrema-Direita racista e xenófoba se reduz a um punhado de descabelados. Quando olhamos para o resto da Europa, Portugal parece um país híper-progressista, uma espécie de farol da civilização.

Sim, sim, sem dúvida. Eu espero, sinceramente, que esses ventos maléficos não cheguem até cá, ou que pelo menos nós tenhamos o discernimento de percebermos os sinais que nos chegam de fora, onde se estão a passar coisas muito complicadas.

 

Esperemos que, em Portugal, as memórias trágicas do Fascismo ainda estejam bem vivas.

Esperemos que sim.

 

Voltemos ao teu trabalho. No primeiro livro, voltas aos Estados Unidos, onde viveste algum tempo, e, neste segundo, escolheste Paris como um dos cenários. Porquê?

Por uma razão muito simples, muito prosaica: é aquela vontade que nós temos de viajar, de estar num determinado sítio, e eu quando escrevo, tenho de me divertir. E divertir-me é também viajar, estar nos lugares onde gostaria de estar naqueles momentos. Parece que não, mas quando nós estamos na fase criativa, a compor o texto, a descrever os lugares, nós estamos realmente nos sítios. E Paris é um lugar que sempre me fascinou. Foi portanto uma maneira de contrariar aquele esforço, aquele sofrimento que impõe a disciplina de escrever um romance.

 

Tornar a escrita libertadora, de certa forma. Libertadora para o próprio autor.

Exato. Dá-nos liberdade.

 

E para terminar, João, gostaria que nos aconselhasses um livro. Talvez o livro que estejas a ler neste momento.

Eu estou a ler um livro que já deveria ter lido há muito tempo, mas que me está a dar um enorme prazer. É o «Ana Karenina».

 

A velha alma russa no seu melhor. Mas o Tolstoi não sabia escrever livros curtos, tens aí leitura para muito tempo.

Nem que seja leitura para meses, porque é um grande, grande romance da literatura mundial.

 

 

Entrevista realizado no quadro do programa “O livro da semana” na rádio Alfa

Próximo convidado:

Dominique Stoenesco, tradutor de Antônio Torres, autor de “Mon cher cannibale”.

Quarta-feira, 17 de janeiro, 8h30

Domingo, 21 de janeiro, 14h25

 

 

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