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O escritor e médico portuense Miguel Miranda é autor de uma obra extensa, com especial incidência no romance policial, tendo já quatro romances traduzidos em francês, todos pela mesma chancela, a L’Aube.

Um desses romances, “Sem Coração”, publicado pela Porto Editora, em 2015, e lançado, em 2016, em França com o título “La disparition du coeur des symboles”, retrata mais uma investigação do irresistível e sedutor detetive privado Mário França, personagem que se autodenomina sem ponta de modéstia “o melhor detetive do mundo” e cujo escritório, pormenor delicioso, se situa no Muro dos Bacalhoeiros virado para o rio Douro.

Ora, essa investigação incide sobre o roubo de um dos mais queridos símbolos da cidade do Porto: o coração do rei D. Pedro IV, guardado na Igreja da Lapa.

 

Miguel, este tema do coração de D. Pedro guardado na Lapa… eu não me lembro de nenhuma obra de ficção que o aborde.

Sim, é a primeira vez em que aparece esta história do coração do rei D. Pedro.

 

Lá está, eu tinha essa impressão. Explica-nos então a cadeia de acontecimentos que fizeram com que o coração do rei D. Pedro IV, que também foi o primeiro imperador do Brasil independente, fosse parar dentro de um frasco de formol?

O D. Pedro foi um personagem impar da História. Foi um rei que abdicou de duas coroas, a do Brasil e a de Portugal, em prol de uma ideia de liberdade e de independência. Esta história recua ao seu pai, D. João VI, que fugiu para o Brasil, levando consigo a corte…

 

Fugiu de Lisboa pouco antes de Portugal ser ocupado pelas tropas napoleónicas.

Sim. E com essa ida, os luso-brasileiros começaram a criar um sentimento de independência e, anos mais tarde, D. Pedro declarou a independência do Brasil com o célebre Grito do Ipiranga, transformando-se no primeiro imperador do Brasil.

 

E, entretanto, em Portugal tudo se preparava para a guerra civil de 1832/34…

Pois, aqui, o seu irmão Miguel entrou numa deriva absolutista e tomou a coroa portuguesa. Então, D. Pedro abdica da coroa brasileira e atravessa o Atlântico, desembarcando de surpresa à frente de um pequeno exército de 7.500 homens numa praia a norte do Porto, hoje conhecida como Paia da Memória, no Mindelo, onde até existe um obelisco comemorativo. Ora, a verdade é que o exército absolutista o esperava em Lisboa.

 

E o exército liberal toma o Porto sem encontrar resistência.

Sim, porque os absolutistas estacionados no Porto recuam, visto não estarem preparados, embora fossem muitos mais. D. Pedro manda os seus batedores à frente e acaba por entrar seguro na cidade com o apoio do povo do Porto. Diga-se de passagem, que os portuenses inicialmente olharam com desconfiança para mais este exército a entrar na cidade. O último exército a entrar pela cidade dentro tinha sido o dos franceses.

 

Invasão francesa essa que culminou na tragédia da Ponte das Barcas, em 1809, onde morreram mais de 4.000 civis portugueses que atravessavam a ponte fugindo de uma carga de baionetas.

Sim, é verdade. Bem, mas pouco depois, os 60.000 homens do exército miguelista cercaram a cidade do Porto durante um ano e começou o bombardeamento. Aliás, uma das grandes batalhas da guerra foi a tomada por parte de D. Pedro do Mosteiro da Serra do Pilar, em Gaia. Foi esse o único lugar a sul do Douro que os liberais conseguiram manter durante o conflito. No Porto, o D. Pedro fez do Palácio dos Carrancas – o atual museu Soares dos Reis – o seu quartel-general, mas uma bateria miguelista instalada no Monte do Castelo em Gaia começou a mandar bombarda e entrou uma bala de canhão pelo quarto de D. Pedro e os liberais resolveram recuar o rei para uma casa na rua de Cedofeita, onde foi montado outro quartel-general, e instalaram uma bateria nas Virtudes e desfizeram à bombarda o Castelo de Gaia, que ainda ninguém sabe exatamente onde era.

 

Eu passei anos a escavar no Monte do Castelo e encontrámos lá alguns indícios durante esses trabalhos arqueológicos.

Sim, vocês descobriram para lá umas pedras. Bem, entretanto, o povo do Porto, um bocado irritado pelos miguelistas estarem a bombardear sistematicamente a cidade, deu todo o apoio ao exército de D. Pedro, que conseguiu sobreviver e resistir. Até que os miguelistas recuam e os liberais marcham sobre Lisboa e implantam uma monarquia liberal.

 

Então D. Pedro abdica também da coroa portuguesa.

Sim, e entrega-a à sua filha Dona Maria. Muito sensibilizado pelo imprescindível apoio da cidade do Porto, D. Pedro doou o seu coração ao Porto e a sua filha cumpriu esse desígnio.

 

Miguel, as pessoas talvez tenham dificuldade em visualizar como é que um coração, literalmente um coração, quer dizer o órgão que nos bate no peito, foi parar e é conservado dentro de um frasco há quase duzentos anos.

O coração está dentro de um frasco de vidro, mergulhado e conservado em formol, que por sua vez está numa redoma de prata e ouro.

 

É um relicário, no fundo.

Claro, e está situado numa espécie de cofre, à esquerda do altar-mor, cujas chaves estão na secretária do Presidente da Câmara. Só de dez em dez anos é que é exibido e verificado o seu estado de conservação. É também mostrado em ocasiões raras, quando algumas personalidades muito importantes vêm observar o relicário. E esta é uma relíquia única no mundo. É um símbolo da liberdade, da resistência, do povo do Porto.

 

Miguel, como tu, eu sou um portuense, cresci e estudei no Porto. Conheço muito bem a sua História. Aliás, durante a minha antiga vida de arqueólogo, encontrámos muitos vestígios desses bombardeamentos durante a guerra civil. Pergunto-te, por isso, sendo este teu livro uma homenagem à nossa cidade, tu, como portuense, o que sentes quando escreves sobre o Porto?

É difícil descrever. Eu escrevo sobre outras coisas, mas regresso sempre ao Porto. É uma forma de homenagear a cidade, de me forçar a renovar as minhas memórias de infância. Estes pormenores sobre o coração do D. Pedro, eu não os conhecia. Há histórias da nossa própria cidade que nós não conhecemos. Por exemplo, eu quando era miúdo vivia na Rua dos Polacos e só muito mais tarde descobri que esse nome tem a ver com o cerco do Porto. Existem duas versões, a menos credível, que eu coloco no livro, fala num batalhão de polacos no exército liberal. A outra versão refere-se à batalha da Serra do Pilar, que terá sido tão encarniçada que eles lutaram como polacos. Na época, tinha havido na Polónia uma batalha feroz com uns sindicalistas polacos, e daí terá ficado o nome. Bem, existem essas duas versões.

 

Miguel, chegou a tua vez de nos sugerir um livro de que tenhas gostado.

Vou sugerir-te um livro chamado “Impunidade” do Hélder G. Cancela, que li há um ano ou dois, e que me impressionou imenso. É um livro duro, que fala sobre o incesto, mas que é muito bom.

 

Entrevista realizado no quadro do programa “O livro da semana” na rádio Alfa

Próximo convidado:

João Reis autor de “A avó e a neve russa”.

Quarta-feira, 14 de fevereiro, 8h30

Domingo, 18 de fevereiro, 14h25

 

 

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