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Andamos nós enregelados no corpo e, pior ainda, também no coração. E não é por causa do inverno ou da neve recente.

«Porque se multiplicará a iniquidade, vai arrefecer o amor de muitos» (Mt 24, 12).

A iniquidade em todas as suas formas produz o arrefecimento do amor em todas as suas possibilidades. Iniquidade, palavra raramente hoje ouvida ou dita. O dicionário da língua portuguesa define-a: «1. Qualidade do que é iníquo. 2. Falta de equidade; injustiça. 3. Perversidade; corrupção nos costumes».

Como se vê, o seu sentido é amplo e aplicável a muitas realidades da vida, mas como se lhe atribui sobretudo um sentido moralista, a palavra foi banida. Além do mais, no que toca à “perversidade” cada vez mais o que era considerado perverso, tornou-se hoje “singularidades pessoais” que não se podem condenar ou criticar, sob pena de sermos imediatamente insultados de intolerantes ou chamados de “qualquer coisa-fóbicos”… Pouco importa. A iniquidade está aí e existe. Jesus não perdeu atualidade.

Na sua mensagem para a Quaresma de 2018, o Papa Francisco parte desta frase evangélica, e ainda oportuna, para fazer uma proposta. E ela não é moralista, vendo imoralidades em tudo. Não, a perspetiva é outra. Permitam-me uma citação dessa mensagem:

«Na Divina Comédia, ao descrever o Inferno, Dante Alighieri imagina o diabo sentado num trono de gelo; habita no gelo do amor sufocado. Interroguemo-nos então: ‘Como se resfria o amor em nós? Quais são os sinais indicadores de que o amor corre o risco de se apagar em nós?

O que apaga o amor é, antes de mais nada, a ganância do dinheiro, “raiz de todos os males” (1 Tm 6, 10); depois dela, vem a recusa de Deus e, consequentemente, de encontrar consolação n’Ele, preferindo a nossa desolação ao conforto da sua Palavra e dos Sacramentos. Tudo isto se traduz em violência que se abate sobre quantos são considerados uma ameaça para as nossas “certezas”: o bebé por nascer, o idoso doente, o hóspede de passagem, o estrangeiro, mas também o próximo que não corresponde às nossas expetativas.

A própria criação é testemunha silenciosa deste resfriamento do amor: a terra está envenenada por resíduos lançados por negligência e por interesses; os mares, também eles poluídos, devem infelizmente guardar os despojos de tantos náufragos das migrações forçadas; os céus – que, nos desígnios de Deus, cantam a sua glória – são sulcados por máquinas que fazem chover instrumentos de morte».

Dentro e fora da experiência eclesial e religiosa, mas sempre humana e universal, o “ar do tempo” é frio e faz gelar o coração. Sob a capa de progresso ideológico, da ditadura do politicamente correto, da justiça on-line e do hipercriticismo em tempo real (que a todos julga e condena de imediato nas redes sociais ou em alguns meios de comunicação social) uma “frente polar” gela-nos a capacidade de comunicar com sinceridade, de refletir em diálogo autêntico e de criar verdadeira comunhão alargada a muitos.

O que fazer? Francisco propõe, a partir da experiência milenar da Igreja e da sabedoria divina que ela transporta ao longo dos séculos (sempre entre luzes e sombras), o seguinte:

«(…)  Saibamos que, a par do remédio por vezes amargo da verdade, a Igreja, nossa mãe e mestra, nos oferece, neste tempo de Quaresma, o remédio doce da oração, da esmola e do jejum. Dedicando mais tempo à oração, possibilitamos ao nosso coração descobrir as mentiras secretas, com que nos enganamos a nós mesmos, para procurar finalmente a consolação em Deus. Ele é nosso Pai e quer para nós a vida. A prática da esmola liberta-nos da ganância e ajuda-nos a descobrir que o outro é nosso irmão: aquilo que possuo, nunca é só meu. (…) A este propósito, faço minhas as palavras exortativas de São Paulo aos Coríntios, quando os convidava a tomar parte na coleta para a comunidade de Jerusalém: “Isto é o que vos convém” (2 Cor 8, 10). (…) Como gostaria também que no nosso relacionamento diário, perante cada irmão que nos pede ajuda, pensássemos: aqui está um apelo da Providência divina. Cada esmola é uma ocasião de tomar parte na Providência de Deus para com os seus filhos; e, se hoje Ele Se serve de mim para ajudar um irmão, como deixará amanhã de prover também às minhas necessidades, Ele que nunca Se deixa vencer em generosidade?

Por fim, o jejum tira força à nossa violência, desarma-nos, constituindo uma importante ocasião de crescimento. Por um lado, permite-nos experimentar o que sentem quantos não possuem sequer o mínimo necessário, provando dia a dia as mordeduras da fome. Por outro, expressa a condição do nosso espírito, faminto de bondade e sedento da vida de Deus. O jejum desperta-nos, torna-nos mais atentos a Deus e ao próximo, reanima a vontade de obedecer a Deus, o único que sacia a nossa fome.

Gostaria que a minha voz ultrapassasse as fronteiras da Igreja Católica, alcançando a todos vós, homens e mulheres de boa vontade, abertos à escuta de Deus. Se vos aflige, como a nós, a difusão da iniquidade no mundo, se vos preocupa o gelo que paralisa os corações e a ação, se vedes esmorecer o sentido da humanidade comum, uni-vos a nós para invocar juntos a Deus, jejuar juntos e, juntamente connosco, dar o que puderdes para ajudar os irmãos!»

Que o fogo da verdade – percebida como dom universal e comum feito a todos os humanos – e do amor, entendido como dom do que temos e do que somos aos outros, nos ajude a vencer esta era do gelo em que parecemos mergulhar.

A quaresma começa nesta Quarta-feira de cinzas, com a missa deste dia reparador e desafiante no gesto da «cinza das coisas» e, sobretudo, do mal que se apegou aos nossos corações.

 

 

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