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O pianista português João Costa Ferreira, radicado há 12 anos em Paris, acaba de editar um disco com obras do compositor também português Viana da Mota.

O disco foi lançado no mercado no dia 9 de fevereiro, pela editora Naxos, mas foi apresentado aquando de um concerto na sexta-feira da semana passada, na galeria Au Médicis, em Paris.

Esta foi uma oportunidade para uma entrevista exclusiva para o LusoJornal.

 

Onde começou a estudar piano?

Eu nasci em Leiria e estudei no Conservatório de Leiria com o professor de piano Luís Batalha. No final dos meus estudos, decidi vir estudar para Paris, para a École Normale de Musique de Paris, onde estudei cerca de 8 anos tendo chegado até ao último diploma do ciclo profissional e obtido esse diploma. Entretanto inscrevi-me na Sorbone, em musicologia, fiz a Licenciatura, o Mestrado, com investigação. Já no Mestrado estudei a obra de Viana da Mota, nomeadamente sobre as influências que Franz Liszt exerceu sobre a obra de Viana da Mota e há dois anos para cá tenho prosseguido os meus estudos em doutoramento e tenho estudado a integral da obra para piano, e com piano, de Viana da Mota.

 

A partir de que momento decidiu especializar-se em Viana da Mota?

A decisão não é abrupta. Quando acabei o primeiro ano da Licenciatura e que decidi prosseguir os meus estudos no Mestrado em investigação, decidi estudar a obra de Viana da Mota. Mas na verdade, eu tinha pensado estudar Franz Liszt, porque era um compositor com o qual me identificava muito. Tocava muitas obras de Franz Liszt. Mas muito depressa percebi que talvez tivesse mais interesse em trabalhar sobre um compositor que tivesse mais coisas por descobrir. Na verdade já muitas coisas foram escritas sobre Franz Liszt e pensei: porque não dedicar-me a estudar a obra de um compositor português?

Podia ter escolhido um qualquer outro compositor…

Sim, podia ter escolhido outro qualquer, mas eu sabia que Viana da Mota tinha tido contacto com Franz Liszt. Tinha sido um dos poucos Portugueses a ter tido esse previlégio e portanto escolhi Viana da Mota porque esta ideia permitia-me não descartar completamente a ideia inicial de estudar Franz Liszt (risos). Elaborei a minha primeira Tese de Mestrado que se intitulava “As influências de Franz Liszt sobre José Viana da Mota” e na segunda Tese – porque a Sorbone exige duas teses de Mestrado – debrucei-me sobre as cinco raposódias portuguesas do José Viana da Mota, um estudo para a compreensão destas obras através da filiação Lisztiana.

 

Quem foi Viana da Mota?

José Viana da Mota nasceu numa antiga colónia portuguesa, em São Tomé e Príncipe. Foi para Portugal estudar muito cedo e desde muito cedo revelou-se ser uma criança genial ao piano, tanto enquanto pianista, como enquanto compositor. Aos 14 anos foi estudar para Berlim, onde acabou por residir cerca de 30 anos. Com a I Guerra Mundial mudou-se para a Suíça, mas ainda antes do fim da Guerra, voltou definitivamente para Portugal, onde veio a exercer o cargo de Diretor do Conservatório Nacional. Aí implantou um determinado número de reformas que vizavam a alteração do ensino da música em Portugal, nomeadamente no sentido de que era necessário para um músico, não apenas saber música, mas saber um pouco de todas as artes… ser um humanista.

 

Porque decidiu publicar obras de Viana da Mota?

Desde o ano de 2013 tenho publicado efetivamente várias obras deste compositor português, na editora AVA Musical Editions. Tenho-o feito porque considero que é necessário para o meu trabalho de investigação, tanto no meu trabalho de Mestrado como no meu trabalho de Doutoramento e este trabalho resume-se muito facilmente: encontro os manuscritos que estão no espólio da Biblioteca Nacional, em Portugal, proponho à AVA publicá-los, faço a revisão do manuscrito, deteto se há notas erradas, se há algo que o Viana da Mota escreveu por engano e sugiro uma correção no prefácio. Na altura eu tinha contado, em termos percentuais, que a obra para piano de Viana da Mota tinha sido publicada em cerca de 25% apenas, e desde então já publiquei cerca de 30 peças, pelo que atualmente já nos estamos a aproximar dos 50%. Isto revela aliás que em Portugal há muita coisa para fazer ao nível da música, há muito trabalho de investigação por fazer, com obras dos compositores portugueses. E a prova encontra-se aqui, com Viana da Mota, onde há cerca de 3 ou 4 anos, apenas um quarto da obra para piano tinha sido publicada.

 

Os compositores portugueses não são suficientemente conhecidos a nível internacional, pois não?

Em geral, os compositores portugueses, a nível internacional, têm ficado esquecidos. Salvo no meio da musicologia, claro. Obviamente que no meio especializado, os compositores portugueses são falados e são reconhecidos. Mas eu diria que não são muito conhecidos porque nós não fazermos – creio eu – para que isso aconteça. Vou dar-lhe só um exemplo: recentemente, o pianista Bruno Belthoise, com quem eu tenho trabalhado recentemente em projetos com piano a quatro mãos, foi-lhe proposto enviar o CD que ele lançou, o “Lisboa-Paris”, para a France Musique. E a France Musique passou o disco com obras de compositores portugueses. Passaram António Victorino d’Almeida, Viana da Mota, duas obras que nós tocámos a quatro mãos… Quando se trabalha para isso, a obra acaba por despertar interesse, sejam compositores Portugueses, Franceses, Belgas, ou Alemães. Não é por ser Português que a obra tem menos valor. Simplesmente há ainda muito trabalho por fazer para dar visibilidade internacional aos compositores portugueses.

 

 

No que lhe diz respeito, este é o seu primeiro CD…

Este foi o meu primeiro disco a solo. Já gravei algumas obras com o Bruno Belthoise para o CD “Lisboa-Paris”. Mas este é efetivamente o meu primeiro disco a solo, só com obras do Viana da Mota. Este disco tem muitos inéditos, tem obras que nunca tinham sido gravadas. Tem várias primeiras gravações mundiais. E tem nomeadamente cinco raposódias portuguesas. No meio musicológico chamamos-lhe “música nacionalista” porque é inspirada do folclore nacional. Tem também duas outras peças, uma inspirada em quadros de um compositor Suíço, Arnold Böcklin, e uma fantasia que ele compôs pouco tempo antes de ter chegado a Berlim.

 

Quanto tempo demorou a fazer este disco?

Este projeto demorou cerca de quatro anos a ser realizado. Desde o início da revisão das cinco raposódias portuguesas até ao lançamento, passaram cerca de 4 anos. Foi um projeto que reuniu muitos esforços, muito trabalho, e agora espero que venha a ter o impacto desejado, que é um conhecimento e um reconhecimento internacional da obra de José Viana da Mota. É aliás por isso – por eu desejar um reconhecimento internacional à obra de Viana da Mota – creio que a escolha da editora Naxos, foi a melhor para dar essa visibilidade. A distribuição que eles fazem é de facto extraordinário. Semanas antes do lançamento oficial, que foi o dia 9 de fevereiro de 2018, eles já estavam a anunciar o CD na Índia, nos Estados Unidos, no Japão, na Suíça, em França, na Bélgica,… eles têm feito um trabalho exemplar nesse sentido e creio que essa foi a melhor escolha.

 

E agora, em que está a trabalhar?

Atualmente estou a fazer o meu Doutoramento, que aliás tenho de acabar. Quanto ao futuro, nunca sei bem o que vai ser. O meu futuro decide-se a cada dia. Aquilo que posso dizer é que neste momento tenho felizmente conseguido reunir as condições necessárias para realizar o meu trabalho, para realizar os meus desejos profissionais, e como tenho conseguido reunir estas condições, vou continuar a enveredar por este caminho até sentir necessidade de procurar outro meio que favoreça o desenvolvimento do meu trabalho.

 

E em termos de concertos?

O futuro é sempre partilhado entre os concertos, a investigação, a edição e a gravação. Claro que a divulgação deste CD vai dar a conhecer o trabalho de Viana da Mota, mas espero, obviamente que dê também mais visibilidade ao trabalho que eu tenho vindo a fazer e com isso obter outros concertos e outras oportunidades de apresentar em público a obra de Viana da Mota.

 

 

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