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«Perguntou-lhe Pilatos: ‘És Tu o rei dos Judeus?’ Jesus respondeu-lhe: ‘Tu o dizes’. Os sumos sacerdotes acusavam-no de muitas coisas. Pilatos interrogou-o de novo, dizendo: ‘Não respondes nada? Vê de quantas coisas és acusado!’ Mas Jesus nada mais respondeu, de modo que Pilatos estava estupefacto. Ora, em cada festa, Pilatos costumava soltar-lhes um preso que eles pedissem. Havia um, chamado Barrabás, preso com os insurretos que tinham cometido um assassínio durante a revolta. A multidão chegou e começou a pedir-lhe o que ele costumava conceder. Pilatos, respondendo, disse: ‘Quereis que vos solte o rei dos judeus?’ Porque sabia que era por inveja que os sumos-sacerdotes o tinham entregado. Tomando novamente a palavra, Pilatos disse-lhes: ‘Então que quereis que faça daquele a quem chamais rei dos judeus?’ Eles gritaram novamente: ‘Crucifica-o!’ Pilatos insistiu: ‘Que fez Ele de mal?’ Mas eles gritaram ainda mais: ‘Crucifica-o!’ Pilatos, desejando agradar à multidão, soltou-lhes Barrabás; e, depois de mandar flagelar Jesus, entregou-o para ser crucificado» (cf. Mc 14,1-72; 15,1-47 ; e paralelos Mt 26,1-28,20; Lc 22,1-24,53; Jo 18,1-20,29).

As narrativas da paixão de Cristo são pequenos tratados de política e de cidadania. Numa época em que não existiam estudos de opinião, como as de hoje, ou redes sociais, já estavam na sociedade israelita e romana todos os sintomas de uma doença que, ainda agora, afeta as nossas sociedades e as nossas democracias: o calculismo dos dirigentes políticos e a sua falta de amor à Verdade, a incoerência e incapacidade de decisões corajosas em consciência (sem procurar agradar aos grupos de pressão, minoritários ou maioritários), a volatilidade (inconstância) e a superficialidade das convicções dos cidadãos (facilmente manipuláveis e enganados) que mudam de opinião conforme as circunstâncias…

Não deixa por isso de ser entristecedor o espetáculo que os Parlamentos e a vida partidária nos oferece, com aparente indiferença de muitos cidadãos que pactuam e até dão suporte a tais comportamentos. Tudo se tornou jogo de palavras e jogadas de afirmação tática, com avanços e recuos estratégicos, tendo em vista o acesso ao poder e a sua manutenção a todo o custo. Portugal não escapa a isso.

Não consigo listar todos as situações verificáveis, seria cansativo e iria muito além do espaço que disponho, mas posso dar um ou outro exemplo. Quando se diz, por decreto, que uma criança é filha de dois homens ou duas mulheres, como as outras, falta-se à verdade («O que é a verdade?» perguntou Pilatos a Jesus em Jo 18, 38), porque somos sempre filhos duma diferenciação sexual que se completa (do masculino e do feminino). É assim com os novos modelos de família e do casamento (à la carte et selon les envies), é assim com os assuntos mais correntes da governação.

Em situação económica muito frágil, com alguns serviços públicos à beira do colapso, vive-se em Portugal um ar de nova abundância até porque foi decidido que a austeridade acabou (mas a riqueza da Nação e do Estado não cresceu por isso, dado que o seu endividamento é enorme e não há maneira de se aliviar a sua dimensão). Já agora, um decreto de qualquer governo pode decidir que somos todos milionários: não acrescentará um cêntimo ao nosso património, mas passaríamos a ser considerados «ricos» pois, pelos vistos, as leis e a palavra dos políticos «re-criam» a realidade.

Ainda não há muito tempo, o que seria escandaloso e inadmissível para uns, é agora aceitável e silenciado pelos mesmos. O que mudou? A posição no jogo: era-se Oposição (ou Governo) e agora é-se Governo ou seu apoiante (ou Oposição). E «Pilatos, desejando agradar à multidão, soltou-lhes Barrabás; e, depois de mandar flagelar Jesus, entregou-o para ser crucificado». As «revoluções» na governação são apenas aparentes.

Mas, nesta narrativa, impressiona o silêncio de Jesus. Não responderá durante muito tempo aos seus acusadores: seja Pilatos, representante do poder de Roma (potência ocupante do país de Israel), seja o rei-fantoche Herodes, sejam as autoridades político-religiosas judaicas. Porque não se explica Ele, porque não os tenta convencer das Suas razões ou até porque não usa Ele de um milagre para se livrar daquela situação?

Porque n’Ele tudo é autêntico, sincero, leal e coerente. Não há jogos de poder nem cálculos, não há tácticas com avanços ou recuos estratégicos do momento. Há um plano desde sempre: por um Amor desmesurado – sem medida – ao Homem e à Verdade que o salva, libertar o Homem do poder definitivo do pecado, do mal e da morte. Para Jesus tudo está dito e o que foi dito vai agora realizar-se e tornar-se definitivo no «ser» humano, pela Sua morte na cruz e pela Sua ressurreição. E o acesso a essa experiência faz-se apenas pela confiança e pela entrega de cada um de nós: «Respondeu Jesus a Pilatos: ‘É como dizes: Eu sou rei! Para isto nasci, para isto vim ao mundo: para dar testemunho da Verdade. Todo aquele que vive da Verdade escuta a Minha voz’» (Jo 18, 37).

Ser crente ou não tem a ver com um dom e um desejo: até que ponto quero conhecer a Verdade? Não uma verdade-opinião, individualista, mas a Verdade acerca de tudo e comum a todos, sobretudo acerca do Homem, da sua liberdade e da sua dignidade plenas e definitivas. Querer conhecer a Verdade não me permite que uma vez conhecida seja propriedade minha! Mas manter-me-á sempre na posição humilde de quem se descobre mais servo da Verdade do que seu ‘dono e senhor’! Sem humildade não procuramos a verdade, mas também a não podemos manter!

Se quando Pilatos perguntou a Jesus o que era a verdade, não obteve resposta imediata, ele a deu-a a si mesmo e ao mundo quando, após a terrível flagelação e os maus-tratos a que Cristo foi sujeito, O apresenta ao Povo dizendo: «Ecce homo!», «Eis o Homem!».

Eis o Homem, Aquele que nos revela o que é sermos humanos, homens ou mulheres. Em quem tudo é coerência e coincidente, bem ao contrário de Pilatos, do Povo, dos partidos e de muitos políticos. Vale a pena, por isso, viver estes dias da Páscoa na companhia de tal Homem: Quinta-feira, sexta-feira e sábado santos sempre às 21h00 (neste santuário).

Renovadora Páscoa!

 

 

 

 

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