Uma senha ser-lhe-á enviada por correio electrónico.

Artigo publicado no “Correio Olhanense” (12/04/1924) por Francisco Dentinho

Sossego em todo o campo. Apenas de quando em quando o estalito seco de um «very-ligth». Os ouvidos estão atentos e todo o rumor, por mais insignificante que seja, nos obriga a prestar-lhe atenção. É porque aquela calma não é natural, mas sim pronuncio da tempestade que se avizinha.

Lembra-nos o espelhado do mar, sem a mais ligeira ondulação, momentos antes do temporal que se anuncia apenas por uma insignificante nuvem que se mostra lá longe. Ela vem caminhando lentamente, aumentando de volume e de cor. O que se nos afigurava ténue, como que a diluir-se, toma forma. Assim a noite de oito para nove de abril de mil e novecentos e dezoito. Até às três horas da manhã, a paz campeou por sobre as forças que guarneciam as trincheiras, mas paz assustadora, paz que nos inquietava. Um nevoeiro densíssimo espalhava-se por todo o campo como se a natureza pretendesse amortalhar naquele véu espesso, os milhares de homens que se enfrentavam.

Subitamente, a tempestade desencadeia-se e uma chuva de metralha cai sobre os defensores das trincheiras. Estas, que em certas partes do setor, naquela altura, já não eram mais do que um montão de ruínas, são arrasadas, trituradas, removidas, como se charrua gigantesca laboreasse aquele terreno para uma grande sementeira de cadáveres. O estrondear dos morteiros e granadas é ensurdecedor, o crepitar da metralhadora é irritante e o rebentamento cavo das granadas de gazes, abrigam-nos a pôr as máscaras. Quase se enlouquece no meio daquele inferno.

Ouvem-se gritos de dor. Moços cheios de vida expiram, sem um adeus. E o soldado agarra-se ao parapeito enquanto não chega o caco do morteiro, ou a bala que o há-de matar. É heroica aquela atitude. Os seus olhos prescutam as trevas na “Terra de ninguém”, avidamente. A luz dos “very-ligths” de nada serve, porque o nevoeiro a isso se opõe. E o soldado espera, baioneta armada, ou segurando a granada de mão que dá-de esmigalhar o primeiro alemão que tente forçar aquela passagem que ele tão denodadamente defende.

A barragem é cerrada e hoje perguntamos a nós mesmos, como é possível sair-se com vida duma fornalha semelhante.

Só um fator: a sorte. O acaso nos mata e esse mesmo acaso faz com que vivamos. Quantos e quantos presenciaram o horroroso deste quadro, saindo ilesos!

Outros houve, porém, que na retaguarda, muito para traz, encontraram a morte num estilhaço de grande lançada a esmo. A sorte! Só ela nos favorece.

O soldado de Portugal foi aí o mesmo de sempre e atestou ao mundo inteiro que no seu corpo, corre ainda o sangue dos seus antepassados, aqueles que pelos seus feitos tornaram respeitada e engrandecida esta grande Pátria.

Honremos pois a memória daqueles dos nossos irmãos que nas lamas viscosas da Flandres e nas plagas tórridas da África, regaram com o seu sangue essas terras e juncaram esse solo com os seus restos mortais. Que esse sacrifício nos sirva de grande ensinamento, acabando com todas as lutas intestinas e amando-nos todos como filhos dignos desta terra portuguesa.

 

Francisco Dentinho

Avô de Paulo Dentinho, jornalista, Diretor de informação da RTP, e antigo correspondente da RTP em Paris, Francisco José Dentinho nasceu em Olhão, em 12 de abril de 1895. Foi incorporado em 1916 no RI4, em Faro e esteve como aspirante miliciano na primeira Grande Guerra. Fez parte das operações do CEP, entrando na Batalha de La Lys, pertencendo ao Batalhão de Infantaria nº15. Louvado porque “manifestou muita dedicação e sangue frio e tendo recebido ordem para efetuar a retirada com sua companhia da linha de fogo, depois de esta ter desfilado de novo, voltou àquela linha, da qual já estava afastado cerca de 400 metros, armado de uma espingarda e acompanhado de uma praça, quando os ingleses anunciavam que o inimigo avançava, revelando uma coragem e valor excecionais”.

Foi condecorado com várias medalhas e louvores, nomeadamente a Cruz de Guerra de 2ª Classe. Em 1919 desfilou em Paris, fazendo parte dos 4 porta estandartes portugueses.

 

Francisco Dentinho foi um dos 4 porta estandartes portugueses que desfilou em 1919 nos Champs Elysées

Foto da coleção pessoal de Afonso Maia

 

 

Gostou deste artigo? Vote, participe!
Votação do Leitor 5 Votos
4.7