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Tito Paris estará em concerto na La Cigale, dia 27 de abril, às 20h00, para apresentar o seu mais recente álbum «Mim Ê Bô», após quinze anos sem gravar.

O LusoJornal esteve à conversa com um dos mais prestigiados embaixadores culturais de Cabo Verde e Portugal.

 

«Mim Ê Bô» é o título de uma das canções que também dá nome ao seu mais recente álbum. Pode explicar, para quem não compreende crioulo, o que quer dizer e o porquê da escolha do nome?

«Mim ê bô», quer dizer «eu sou tu», é uma palavra de solidariedade. A canção é inspirada num grande amigo que tenho, e se ele está bem, eu estou bem e vice-versa. «Mim ê bô e bô ê mim», «eu sou tu e tu és eu». Se tens um problema, eu também tenho. É o símbolo da amizade e da solidariedade para com o teu amigo. Escolhi, igualmente, este nome para o álbum porque um dia estava em Cabo Verde numa festa, com um grupo de pessoas e começámos a falar do facto de eu já não gravar há 15 anos, e respondi que andava ocupado em concertos pelo mundo fora, em parcerias com outros músicos para promover a música de Cabo Verde, mas que já tinha um trabalho novo quase a sair e apareceu, então, um indivíduo que me disse «Tito, não há problema, eu espero o tempo que for necessário, porque mim ê bô» e isso ficou-me, e como já tinha a música feita com esse título achei que foi um bom acaso e que encaixava bem.

 

O Tito é multi-instrumentista: guitarra, baixo, bateria, compositor, cantor, orquestrador, e de facto quando eu penso na sua música, quando oiço o nome Tito Paris, a primeira coisa que me vem à cabeça é a variedade de instrumentos, as orquestrações, os metais, as cordas, que estão mais uma vez bem presentes neste disco. É essa a sua conceção da música? Por exemplo, uma guitarra-voz, um piano-voz não lhe agrada?

Gosto sim, adoro uma guitarra-voz e um piano-voz, dependendo de quem toca, é uma construção normal, é criar um caminho para fazer uma melodia e cantar, mas eu desde criança que gosto de música clássica, e então sempre tive o sonho de introduzir o clássico na música de Cabo Verde. Já fiz várias vezes orquestração europeia com base caboverdiana com cavaquinho, violão, baixo, etc. Sempre tive esse desejo e a música de Cabo Verde tem muito para dar nesse sentido. Um dia, eu peguei numa morna de B.Léza e dei a um amigo meu, que é um maestro russo, e ele fez uma obra com essa música que uma pessoa fica arrepiada, porque realmente a música de Cabo Verde tem essa liberdade de se poder mexer. Sempre gostei de fazer música com outras sonoridades, mas sem tocar na raiz que é a música de Cabo Verde, e essa fusão de som é muito boa. Cheguei a fazer um espetáculo com a Orquestra Metropolitana de Lisboa e levei-a a Cabo Verde e estou a fazer uma grande obra com música de Cabo Verde clássica, música que pode ser tocada em qualquer parte por qualquer orquestra no mundo. E essa é a minha intenção.

 

Li que não gosta de sintetizadores, e de facto esta utilização de instrumentos acústicos também permite talvez uma maior intemporalidade na música…

Eu respeito quem toca sintetizadores, eu próprio já utilizei em algumas músicas, mas a minha preferência é o piano, o baixo, ou então o contrabaixo, o acordeão, o clarinete, a trompete, o trombone, etc. O meu objetivo é que a música de Cabo Verde seja mais rica e com o sintetizador não sei se a consigo enriquecer, mas com o piano, algo de muito poderoso harmonicamente já arrasta para fazer outro arranjo, e a sonoridade está lá porque é som da madeira. Então, sempre defendi os instrumentos acústicos para a música de Cabo Verde.

 

Como funciona o seu processo criativo, trabalha sozinho, em grupo? Encontra primeiro a letra, a música?

Eu, muitas vezes, o que vem primeiro é a melodia ou a harmonia e mais tarde consigo escrever. Mas, ultimamente, tenho feito outra experiência a de musicar letras de outras pessoas, o que é um desafio, e também escrever antes de musicar, escrevo muito no avião inclusive. Tenho arranjado outra forma de trabalhar e tem estado a resultar.

 

E como se passa quando chega no estúdio?

Quando chego no estúdio nada está feito. Sento-me no piano, os músicos sentam-se a olhar para mim à espera que eu mostre aquilo que eu quero e de repente arranca-se.

 

Mas tem um estúdio em casa?

Não. Ter um estúdio é ter mais um problema na vida. Não se vive. Eu prefiro sair de casa para gravar e voltar a casa.

 

Sim, ter um espaço de vida preservado.

É isso.

 

E o que prefere, este trabalho de composição, o estúdio ou o palco, o contacto com o público e a música ao vivo?

Eu adoro público e palco, respeitando o estúdio e dando valor ao estúdio, mas eu adoro ser gravado ao vivo, mesmo que nos enganemos. Tudo aquilo que é ‘live’ é bem-vindo. Eu adoro estar num palco com as pessoas a olhar para mim e eu a olhar para elas, sentir aquele calor humano, juntamente com a harmonias, melodias, batidas, ritmos, etc., é muito bom, é fantástico, é outra emoção.

 

Sim, imagino, e talvez tenha a ver com o que sonhava quando era pequeno e desejava ser músico e agora ver o sonho materializado, deve ser uma sensação especial.

É isso mesmo, é verdade!

 

As primeira notas do «Fado Triste» lembram-me o «Preciso me encontrar» do Cartola…

Não é a primeira pessoa que me diz isso. Tenho um amigo brasileiro que mora perto de mim lá em Lisboa, que escreve para o Seu Jorge, e que me disse a mesma coisa. Eu também sou fã do Cartola…

 

Ora esta Morna intitulada «Fado Triste» fala de Mindelo e Lisboa, e encontramos de certa forma a nostalgia, a tristeza que também caracteriza o Fado. Quais são, a seu ver, as similitudes e as diferenças entre estes dois estilos musicais?

São duas realidades diferentes, a Morna tem um caminho e o Fado tem outro, ambas falam de amor e de nostalgia, de separação e de saudade, de tudo aquilo que nos diz a alma, mas a harmonia, a melodia, a aplicação é completamente diferente. Mas pode-se casar, a música pode misturar-se. Mas esta canção era um Fado, a poesia não é minha e eu fiz uma tradução em crioulo, transformei-o numa Morna, mas é do Vitorino.

 

Na obra do Tito encontramos blues, jazz, música latina como por exemplo na Cidade Velha ou na Doce Paixão e ainda música brasileira. Como concilia estas influências multiculturais e mantem a essência da música caboverdiana? Porque, de facto, ouvimos sempre Cabo Verde.

Eu vou buscar muitas vezes as sonoridades a pessoas. Na «Cidade Velha» por exemplo fui buscar um músico cubano, o pianista é um português, mas que está muito ligado à música latina e depois introduzo cavaquinho para dar aquele toque, o violão que vai introduzir Cabo Verde e vê-se que é uma fusão.

 

Com uma espinha dorsal caboverdiana…

Exatamente!

 

Quando era pequena, em Lisboa, lembro-me de um amigo me ter pedido música do meu pai caboverdiano e eu pensava que se estava a referir a música negra dos Estados Unidos ou ao Reggae, mas era de Funana, Kizomba, Kuduro que estava a falar. Na altura ainda era um «exotismo», uma raridade, mas hoje é uma música muito popular que ultrapassou fronteiras. Como vê esta explosão de música proveniente de países como Cabo Verde ou Angola, é algo de bom?

É sempre bom quando mantemos a raiz. O importante é fazer as fusões, mas com o tronco de Cabo Verde intocável, onde se vê cachupa, onde há atum, um groguinho e vês champagne ao lado… E sim, é positivo, quando se faz uma fusão porque nós gostamos da cultura dos outros povos, e quem não gosta da cultura de outro povo é porque não aprecia a sua. Nós só nos enriquecemos depois de ter provado a cultura de outro povo desde a gastronomia a várias outras coisas. O que está aqui é bonito, o que está ali também é se misturarmos fica ainda mais bonito.

 

No título «Bô» canta com o rapper Boss AC. Como correu essa colaboração? Qual é a sua relação com as novas gerações? E isto é mais uma provocação, o Rap nem sempre tem esta exigência de orquestração, de arranjos de que o Tito gosta…

Eu respeito muito o Boss AC. É um inovador em Portugal desse estilo de música Rap, é muito respeitado. E eu cresci com a mãe e o pai dele em Cabo Verde, é como se fosse quase um sobrinho para mim, e também nós fizemos uma fusão. Repare que nesta canção tem cavaquinho. Eu disse ao Boss AC «fiz uma música a pensar em ti, gostava que fizesses uma parceria comigo» e ele respondeu com dúvida «achas Tito?» e eu disse «claro que acho». E quando ele foi para estúdio e ouviu a música, deslumbrou, disse que não pensava que era isso, e o que ele cantou foi feito por ele, escreveu lá no estúdio, foi fantástico.

 

Boss AC também estará em palco com o Tito em La Cigale, em Paris. E o que será este espetáculo?

Sim. O espetáculo vai ser meio adaptado porque não vamos ter cordas, mas vamos ter trompete, instrumentos folk, piano, cavaquinho, violão, percussão, etc., vai ser um concerto com músicas do disco, mas adaptadas e acho que serão adaptadas para melhor.

 

E não pensa numa captação audiovisual do espetáculo?

Isso já não é comigo, é com a produção, mas gostaria muito, gosto sempre de ser gravado ao vivo. E seria interessante.

 

Conhece bem Paris, já cá esteve várias vezes. Qual é a sua relação com o público francês, o que os distingue dos outros, se é que há distinção?

É um público curioso culturalmente, gosta de provar e de ver. E eu tenho tido sorte porque todas a vezes que venho cá tenho muitos Franceses nos meus concertos, fazem fotografias pedem autógrafos. E depois alguns até iam ter comigo ao bar que tinha em Lisboa. É um público muito culto, gosta de receber a cultura de outro povo e é por isso que é respeitado culturalmente em todo o mundo.

 

Há alguns artistas que não eram propriamente respeitados em Portugal, mas que quando chegaram a França…

Sim, foram mais respeitados. É um povo muito preparado, há anos, para a cultura, vê-se pelos edifícios, pelos monumentos é um pouco diferente de Portugal, que está a ser preparado mais recentemente, com muito respeito que eu tenho pelo país.

 

E já agora, porquê o nome Paris?

Eu chamo-me Aristides Paris, é mesmo o meu nome, e há pelo menos três histórias possíveis por trás deste nome que me contaram. A primeira é que por volta de 1700 na Ilha de Santo Antão houve um naufrágio e escapou um miúdo, que quando lhe perguntaram como se chamava só dizia «Paris», depois deve ter sido registado, casou, etc. A segunda seria na Primeira Guerra Mundial uma Francesa que foi para Marrocos e casou lá e depois foram viver para Cabo Verde. A terceira é que somos uma família de judeus, porque para não serem perseguidos adotavam nome de árvores e de cidades. Portanto, não sei se alguma é verdadeira.

 

E nunca pensou vir viver para Paris? Há vários artistas que viveram aqui?

Não, eu não domino o francês, entendo umas coisinhas, mas não domino, mas é um cidade onde se poderia viver muito bem, mas devo dizer que eu não troco nenhuma cidade pela cidade de Lisboa, respeito todas as outras e gosto de vir cá, mas Lisboa, Portugal…

 

É um verdadeiro alfacinha…

Porque tem o seu encanto, eu adoro Portugal e eu sempre defendi Portugal pelo mundo fora, não é por acaso que sou Comendador da República.

 

Sim, já lá iremos…

O que eu prefiro é mesmo Portugal e Cabo Verde.

 

Vamos entrar numa parte mais política da entrevista… em 1974 tinha 11 anos, lembra-se do 25 de Abril, do movimento de independência em Cabo Verde?

Lembro-me muito bem como se fosse hoje, antes da independência já tínhamos o nosso grupo, eu tinha 10 anos estamos a falar de 73, e eu lembro-me de 75 eu estava na Ilha de Santo Antão, com um grupo que era os «Seis Jovens Unidos», um grupo de intervenção, punham-nos a tocar e depois davam os seus comícios políticos, e no dia da Independência ouvimos uns tiros e já era a festa da independência. Quando viemos para São Vicente, no dia 5 de julho, foi o subir da bandeira e víamos os Portugueses a sair nos barcos de guerra, mas foi tudo pacato, tranquilo, houve uma coisa ou outra, mas em geral foi calmo. E eu era criança e ainda me lembro da morte de Salazar, lembro-me que vinha no jornal em grande «Morreu o Salazar». Era criança, mas lembro-me.

 

Qual é a sua relação com Cabo Verde? Sente a responsabilidade que lhe atribuem de ser um embaixador do país?

Eu sinto responsabilidade, eu sou um diplomata do Estado caboverdiano, tenho um visto diplomático e sinto responsabilidade em divulgar a cultura de Cabo Verde em vários domínios, a educação musical, cultural e do Homem, quando me atribuem um título deste, é uma honra, mas também uma responsabilidade.

 

Sim porque há artistas que dizem, «eu só faço arte, não me atribuam responsabilidades a mais…»

Não, eu sinto essa responsabilidade em relação ao meu próprio país e se o estado, a República te dão essa confiança, é necessário ter muito encaixe, respeitar a sua bandeira, a dignidade do seu país, a pátria.

 

Mas ainda antes desta atribuição oficial, o Tito já era chamado de embaixador.

Sim, já me chamavam, já fazia esse papel mas de forma genuína, não fazia de propósito, mas mais tarde o Estado reconheceu-o e atribuiu-me o título.

 

E com Portugal? Tem a dupla nacionalidade? Foi agraciado o ano passado com o grau de Comendador da Ordem do Mérito pelo Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, foi um reconhecimento que o tocou?

Sim, tenho a dupla nacionalidade. Devo dizer que me senti honrado, com mais outra responsabilidade e o povo de Cabo Verde ficou satisfeito. Recebi chamadas de todas as forças políticas, das Embaixadas lusófonas em Portugal, do Presidente da República de Cabo Verde e isso foi fantástico, porque gostaria de ver mais pessoas com títulos dessa natureza. O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa disse que já não iria mais condecorar com esse título, eu sou talvez o único negro Comendador em Portugal e isso deixa uma pessoa honrada, mas a minha forma de estar na vida não mudou.

 

Sim, não se faz chamar de Comendador pelos amigos nem pede o beija-mão…

(Risos) No outro dia, fui parado pela Polícia, e quando o Polícia me reconheceu chamou-me Senhor Comendador e eu fiquei à rasca (riso), mas a minha vida não mudou, só tenho um sentido de responsabilidades acrescido.

 

Como vê a situação dos afrodescendentes em Portugal? A construção do memorial de homenagem às vítimas da Escravatura, a subida dos movimentos racistas e xenófobos, como por exemplo aquele grupo de extrema-direita que apareceu na ação de protesto «Descolonizando» contra a estátua do padre António Vieira em Lisboa? Tem seguido estes acontecimentos?

Tudo o que é minoria pelo negativo nem dou importância, se é positivo tem tendência a criar, quando é negativo chega a um ponto e morre, nem dou importância a estes factos de negatividade, mas não deixa de ser preocupante. Sim, estou sempre atento até porque eu tenho filhos lá na escola. Mas em geral, não podemos dar importância a mais ao negativo com tanta coisa boa dentro da nossa sociedade.

 

Como viveu enquanto pessoa racializada em Portugal?

Eu sempre me senti integrado e ao mesmo tempo preparado para enfrentar o racismo, eu sei que existe, não é um tabu, ainda no outro dia saiu um homem do carro que me disse «Eu estou no meu país» e eu disse «Você nem cova tem, quando morrer depois vão lá pôr outra pessoa, a ignorância tem o seu preço e você perdeu oportunidade para estar calado, se quiser falar comigo direito tudo bem» e assim foi, ele ficou calado. Ainda há pessoas assim, que têm tanta ignorância e que deixa a sua cor enganá-las, porque é mais claro pensa que é mais inteligente. Até pessoas que têm pouco conhecimento de base, olham para um negro e pensam que são mais inteligentes só por causa da cor. Isso é um grave problema. A chave é a educação, a humildade e saber estar.

 

Depois desta longa carreira, reconhecida internacionalmente, o que lhe resta ainda fazer, com o que sonha, o que ainda não fez? Ou agora que já é Comendador já está descansado?

(Risos) Não, nada disso. Tenho muita coisa, tenho vários projetos. Por exemplo, em relação à lusofonia eu defendo que haja uma bandeira. E a CPLP falou comigo sobre isso, a ideia é haver uma bandeira da lusofonia como a da União Europeia que integre os nove países, uma bandeira, bonita, bem feita, bem pensada, para haver mais respeito e unificar mais a lusofonia, e também um hino.

 

E porque não ajudar a compor o hino?

Eu estou a pensar nisso, fui convidado para o fazer. Fiz um hino para a Cidade da Praia, trabalhado com orquestra e então fui convidado para fazer um hino da lusofonia. É um desafio grande. Há anos, fui também convidado para fazer a banda sonora de um filme, «O testamento do Senhor Napumoceno», foi mais um grande desafio, mas consegui.

 

Mas frequentou uma escola de música ou é autodidata?

Não frequentei nenhuma escola, é tudo intuição.

 

E o sonho a nível musical?

Completar o projeto da música de Cabo Verde clássica, acabar as partituras para as quais qualquer orquestra do mundo olhe e possa tocar, e isso é um projeto para o futuro, mas que já está a ser feito.

 

 

 

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