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Cinquenta anos depois, o movimento histórico de protestos e greves em maio de 1968, em França, é recordado pelo cartoonista Vasco como um «período deslumbrante» no qual participou ativamente, como contou em entrevista à Lusa.

Vasco de Castro, hoje com 83 anos, tinha pouco mais de vinte quando rumou a Paris, em 1961, desiludido com Portugal, opondo-se fervorosamente ao regime de Salazar e à guerra colonial.

O objetivo era estar em Paris «a fazer desenhos, poder viver dos desenhos e estar naquilo que para mim era, por tradição, a capital do mundo, a nível artístico e de encontros vivenciais», contou.

Até à Revolução de Abril de 1974, Vasco viveu e trabalhou em Paris, onde se tornou cartoonista e caricaturista, colaborando com os principais jornais e revistas franceses, onde foi cofundador do semanário IX, e um dos Portugueses que teve uma participação ativa nos acontecimentos de maio de 68.

«O Maio de 68 esteve sempre dentro do meu tutano. Foi um período deslumbrante. (…) Há um deslumbramento que é uma insurreição, um estado de tensão permanente, de felicidade. É a prática exata da alegria de viver, porque estamos a ser úteis para qualquer coisa que está prenhe de futuro. Dali pode sair qualquer coisa», recordou.

Em Paris, além da vida boémia, fez parte de um Comité de ação com outros Portugueses exilados para apoiar «o rio caudaloso» do movimento francês que brotou da contestação estudantil, e que ganhou força, com greves e barricadas, junto de milhões de operários e dos sindicatos. «Organizámos um plano de ação que era convencer a grande massa de trabalhadores portugueses, completamente despassarados, atónitos, com medo de perder o emprego. Eram rurais, camponeses, analfabetos, desenraizados e sem compreenderem o contexto, mal falando o francês e a ligação ao proletariado francês era fraco. Não queriam fazer greve. Era convencê-los a fazerem greve e a serem solidários com os Franceses», relata.

Mas o cartoonista não esquece também «umas dezenas» de Portugueses, mais novos, desertores e refratários, que estavam disponíveis «para reivindicar um lugar na sociedade francesa e, ao mesmo tempo, contestando o regime português, as guerras coloniais».

Vasco de Castro, transmontano de nascença e que durante mais de uma década se sentiu parisiense de Montparnasse, considera que os acontecimentos em Paris transbordaram por toda a França e tocaram «a sensibilidade de todo o mundo».

«Ao ponto de ainda hoje muita gente que nunca foi a Paris diz que é da geração de Maio de 68», exclamou.

Meio século depois, Vasco de Castro lembra que aquela foi uma revolução não partidária. «Ali não se queria tomar o poder. (…) Foi a fonte de uma imaginação transbordante», numa sociedade que «estava paralisada no êxtase do consumismo».

Para o caricaturista, nada se repte, mas atualmente ainda existem «sistemas intelectualmente repressivos».

«Já não é o consumismo, mas o positivismo messiânico das novas tecnologias», disse.

 

 

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