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Teatro: «Portugal não é um país pequeno» em abertura do Festival Chantiers d’Europe em Paris

LusoJornal / Luisa Semedo

A peça de teatro documental «Portugal não é um país pequeno», apresentada no dia 14 de maio pela companhia de teatro Hotel Europa, foi o espetáculo de abertura do Festival Chantiers d’Europe, que precedeu o concerto de Camané e Agnès Jaoui nesse mesmo dia.

Emmanuel Demarcy-Mota, Diretor do Théâtre de la Ville e mentor do Festival, apresentou, em introdução, no palco do Espace Cardin, os objetivos da iniciativa assim como a peça de teatro que foi criada, encenada e interpretada por André Amálio.

O título da peça fez-nos imediatamente viajar até 1934 e visualizar o cartaz de propaganda da ditadura salazarista criado para a Exposição Colonial desse mesmo ano, onde se mostrava a grandiosidade da superfície dos países colonizados como Angola e Moçambique sobrepostos a um mapa da Europa.

«Portugal não é um país pequeno» insere-se no trabalho de doutoramento de André Amálio, que utiliza, segundo o artista, «o teatro documental como instrumento de reflexão e pesquisa» sobre a história do colonialismo português.

Em palco, André Amálio apresenta-se como um investigador que entrevista vários antigos colonos e recita alguns desses testemunhos recriando «as vozes» dessas pessoas. O espetáculo consegue a proeza de num sagaz equilíbrio, sem relativismos morais, denunciar o mais longo Império Colonial Europeu de quase 500 anos – o português – e ao mesmo tempo de evidenciar as condições difíceis da chegada a Portugal dos antigos colonos portugueses, designados de retornados, entre 1975 e 1978.

O espetáculo navega entre o humor e a gravidade e é pontuado pela interatividade através da participação do músico Pedro Salvador, de uma sessão de aprendizagem do público de dança merengue, da confeção in loco de camarões na frigideira e de café, de vídeos e sons da época, como mensagens filmadas de soldados para os familiares em Portugal pela época do Natal ou imagens de discursos de Salazar.

André Amálio entra e sai dos personagens com uma excecional destreza e é ainda mais comovente quando se apresenta como sendo um descendente direto desta história e explica os motivos da criação do espetáculo.

A sinceridade que emana das suas declarações e do seu engajamento confere à peça uma emoção acrescida. O público fica com a invulgar sensação de estar a assistir à História a ser feita, em direto, através do trabalho progressivo de consciencialização individual e coletiva de questões ainda presentes e prementes dessa época, a que o artista nos convida.

«Portugal não é um país pequeno» insere-se num ciclo de teatro documental do qual fazem, igualmente, parte as peças «Passa-Porte» e «Libertação».

A companhia Hotel Europa, formada por André Amálio e pela artista checa Tereza Havlíčková, pretende com este ciclo «contribuir para re-escrever a história do colonialismo português, fazendo parte de um movimento que atravessa a sociedade portuguesa, nas universidades e artes, predisposta a olhar criticamente o passado colonial para lá dos discursos memorialistas e comemorativos que têm silenciado o passado colonial durantes décadas».

Ao despedirmo-nos da experiência inovadora de «Portugal não é um país pequeno», da fusão entre a arte e a busca da verdade, saímos melhores pessoas.

 

 

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