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Não, não se trata de um erro ortográfico. A expressão original é, na verdade, «mal e parcamente», sendo este advérbio derivado do adjetivo «parco» que significa pouco, pobre, reduzido, etc.

Com o tempo, e possivelmente por o vocábulo «parco» ter caído em desuso, generalizou-se a expressão «mal e porcamente», significando qualquer coisa mal feita, descuidadamente ou à pressa e pouco apresentável.

Deixando de lado a confusão linguística, pode-se porém afirmar que a expressão acima ,seja na forma original ou naquela mais moderna, designa perfeitamente o modo como o Estado português trata os funcionários responsáveis por dois dos principais pilares do país, a Saúde e a Educação.

Em Portugal, os médicos e enfermeiros do Serviço Nacional de Saúde, mal pagos e sobrecarregados de trabalho, emigram em busca de melhores condições, deixando desfalcados hospitais e clínicas.

O resultado é que ou o cidadão tem dinheiro suficiente para custear assistência médica privada ou então arrisca a saúde e a vida porque o Estado descura o dever de lhe proporcionar os cuidados necessários.

Tudo feito mal e parcamente, ou porcamente, porque, dizem os políticos responsáveis, falta dinheiro. Certo. Falta dinheiro e por isso as pessoas ficam meses à espera de consultas médicas ou cirurgias que muitas vezes chegam tarde demais.

Quanto à Educação, seja em Portugal ou no Ensino do Português no Estrangeiro, o «parcamente» é ainda mais parco, pois assistindo às atuais atitudes dos governantes, é fácil deduzir que os estes acham que os professores não merecem respeito, esperando que trabalhem a baixo preço e sem auferir a justa retribuição dos serviços prestados.

Durante quase dez anos, os professores portugueses, seja em território nacional seja fora dele, lecionaram e avaliaram os seus alunos, fizeram formação e foram eles próprios avaliados, tudo a preço mínimo, confiando nas promessas dos políticos, que prometiam futura recuperação do tempo de serviço e acerto salarial.

O tempo passou e os que os excelentíssimos políticos dizem agora é que… «não há dinheiro, professores, esqueçam os dez anos em que trabalharam porque não há nada para ninguém… mas continuem a trabalhar como se nada tivesse acontecido, certo?»

Certo não, de maneira nenhuma. Erradíssimo! Se um indivíduo tivesse feito, no seu banco, um depósito a prazo, sob o compromisso de dez anos depois receber os juros acordados, e, passado esse tempo, o banco o informasse que não iria receber juros, porque não tinham dinheiro, choveriam críticas e os responsáveis seriam apodados de intrujões, ladrões, etc. E com razão.

Com os professores sucede o mesmo. Aplicaram-se, trabalharam, confiaram. E agora, nada. A economia está mal e por isso o Governo procede parcamente.

No respeitante aos professores de Português no estrangeiro, a cargo do Ministério dos Negócios Estrangeiros e Instituto Camões, a situação é ainda pior, pois a tutela firma-se no princípio que, se para os docentes em Portugal dez anos de carreira vão ser ignorados, para aqueles no estrangeiro será o mesmo. Só que no estrangeiro não existe carreira nem progressão, havendo unicamente dois muito parcos grupos salariais.

Mas apesar disso, a tutela recusa atualizar vencimentos, embora lucre com a aplicação da obscena propina, que os alunos lusodescendentes pagam em maioria mas da qual os meninos estrangeiros estão dispensados, assim como também estão muitas vezes dispensados de pagar provas de certificação e manuais, porque é importante angariar muitos estrangeiros para frequentar cursos de Português.

Contraditoriamente, o facto de haver cada vez menos lusodescendentes a frequentar cursos que deveriam ser da sua língua de origem parece não preocupar ninguém, exceto os professores que vêm os seus postos de trabalho em perigo, devido ao parco número de inscrições.

E, para piorar a situação, aos professores no estrangeiro nem sequer é permitido candidatarem-se a lecionar em escolas em Portugal em igualdade com os professores no país. Só o podem fazer em prioridade inferior, o que reduz as possibilidades de conseguirem um posto seguro de trabalho. Mal e parcamente, no seu melhor.

Mas no estrangeiro, o mal, acompanhado do parcamente, não fica por aí. A Caixa Geral de Depósitos, com agências em vários países das Comunidades portuguesas, encerrou grande número dos seus balcões, seguindo as diretrizes de um acordo feito em Bruxelas (onde é que havia de ser?), visando redução da operação.

Em França, a CGD tem cerca de 48 agências, mais de 500 trabalhadores, e 2,3 mil milhões em depósitos, servindo os cidadãos portugueses nesse país e funcionando como um elo de ligação a Portugal.

Mas agora está previsto o encerramento das mesmas, embora ninguém saiba o que vai suceder aos clientes e aos trabalhadores, situação que originou uma luta destes últimos que se prolonga há vários meses.

Bruxelas manda, Portugal obedece. Os trabalhadores da CGD irão para o desemprego, os clientes porão o seu dinheiro nos bancos estrangeiros.

Quanto aos professores de Português no estrangeiro, sempre ameaçados pela precariedade laboral, têm além disso perdido direitos inerentes à Função Pública, estando atualmente em situação muito inferior àquela dos seus colegas em Portugal.

Os alunos portugueses pagam as aulas, os manuais e uma certificação desprovida de valor real. Os alunos estrangeiros têm, em muitos casos, tudo isso a título gratuito.

Possivelmente as diretrizes para o Ensino não vieram de Bruxelas, mas que a situação dos Portugueses nas Comunidades está cada vez mais caracterizada pelo mal e parcamente, isso é inegável, porque o que se passa é realmente uma vergonha.

 

 

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