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Paris, Strasbourg ou em qualquer lugar… Têm sido semanas de violência, de agitação e de protesto, entre «gilets jaunes», «casseurs» e um ataque terrorista, com mortos e feridos. Tivemos de tudo, mais uma vez. Ao Deus da vida elevemos uma prece pelas suas vítimas!

Alguns de nós ficarão inquietos, outros talvez já nem se admiram: habituamo-nos a tudo. Habituamo-nos ao mal e à violência como nos habituamos à nossa própria imperfeição. Como cidadãos de uma Cidade onde Deus está quase proibido de se manifestar, preferimos o mal e o pecado à santidade divina. Também nos habituámos tanto às más notícias que já não acreditamos nas boas. Neste tempo de espera – e por isso de Esperança que é o Advento – Deus deu-nos uma ‘bonne nouvelle’: «O Senhor, está no meio de ti e já não temerás nenhum mal. Não temas, não desfaleçam as tuas mãos» (cf. Livro do profeta Sofonias 3, 14-18). E ainda pelo Apóstolo S. Paulo: «Alegrai-vos sempre no Senhor. Novamente vos digo: alegrai-vos. Seja de todos conhecida a vossa bondade. O Senhor está próximo. Não vos inquieteis com coisa alguma» (cf. Carta aos Filipenses 4, 4-7).

Acreditamos com todo o coração nesta promessa e neste dom de Deus, capaz de criar laços de autoconfiança emocional? Sim ou não? A resposta faz toda a diferença.

Reconhecemos hoje como muitas pessoas são emocionalmente frágeis, sempre à beira do abismo: facilmente descompensam, perdem o equilíbrio, caiem na armadilha da ação/reação a qualquer gesto ou palavra do outro, deprimem e, pior ainda, desesperam. E buscam-se compensações em comportamentos de risco e autodestrutivos, ilusórios e frustrantes. Da comida ao álcool excessivos, passando pelas adições (muitas e variadas), ao excesso de trabalho e às compras sem fim, o “tratamento” não cura esse mal…

As pessoas olham-se como concorrentes, adversárias e até inimigas, porque neste «tudo ou nada» a vida é uma luta que se ganha ou perde. Fazemos depender a nossa alegria de viver e a felicidade do que temos ou não temos, do que os outros nos fazem, dizem e como somos por eles reconhecidos. Falta-nos a consistência interior: renunciou-se a Deus, o Totalmente Outro e Todo-poderoso no amor e na Verdade, para se viver dependente das coisas e dos outros, tão frágeis como nós. Pensam muitos que sem Deus, serão mais livres e mais felizes: finalmente decidem por si mesmos o que é bem e o que é mal, à medida dos seus gostos e anseios. O resultado não satisfaz. Desta frustração – porque nada têm de duradouro e profundo – nasce o sentimento de mal-estar e de incompatibilidade relacional. Daí a pergunta terrível que o Arcebispo de Paris fazia na missa pela França, em dia da Imaculada Conceição: «Est-ce que nous sommes encore capables de nous écouter et de nous parler?»

Que lugar vai haver para Jesus no Seu Natal? Sabemos todos que Jesus Cristo foi espoliado da Sua festa de aniversário. Roubaram o Menino Jesus e tiraram-Lhe a sua festa de anos. Ele é o aniversariante expulso da nossa mesa e da lista dos nossos convidados para casa. Ele é o aniversariante esquecido nas festas do Seu próprio Nascimento. Mais uma vez, como há 2018 anos, não há lugar para Cristo nas vidas dos que ainda se dizem cristãos.

Uma grande parte dos praticantes durante o ano falta à missa nos dias do Natal. E digo dias, porque são vários, desde a missa do Galo, à Meia-Noite, até ao dia da Epifania do Senhor, passando pelo dia do Ano Novo (Oitava do Natal). É quando se vêem menos crianças, jovens e suas famílias. Curiosamente, as missas são mais frequentadas pelos “não praticantes habituais”, trazidos pela saudade de um Deus próximo dos homens e convivial: «O Senhor teu Deus está no meio de ti, como poderoso salvador. Por causa de ti, Ele alegra-se» (Sof 3, 17). Sim, Ele quer alegrar-se connosco, para que a nossa alegria de viver não esteja ameaçada pela falta de alguma coisa ou pela incapacidade de alguém em nos fazer felizes.

O natal dos cristãos sem Cristo visível na comunhão da Igreja torna-se um natal igual ao dos ateus, dos indiferentes, dos muçulmanos ou dos judeus, apenas com comida e prendas.

No entanto, é esta presença de Cristo salvador dos homens, que possibilita a nossa fraternidade, igualdade e liberdade. A sua escritura nos muros já não nos dá nada. Essa ideologia faliu, travestida de «gilet jaune» ou sob outra bandeira qualquer de populismos de esquerda ou de direita! Cristo é a fonte viva de uma alegria que não depende de razões externas a nós, mas que nos inspira a sermos conhecidos pela nossa bondade, livres de todo o revanchismo e frustração, porque Ele nunca falha nem nos falta.

E então, Paris, Strasbourg ou qualquer outra cidade, serão finalmente terras da fraternidade. Caríssimo leitor, um feliz e santo Natal!

 

 

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