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Tenho sido, ao longo deste ano, o destinatário de tantas provas de gentileza e de cooperação cordial da parte dos dirigentes das associações da Comunidade portuguesa e tive, por outro lado, também o grato prazer de constatar uma tal dinâmica do associativismo dos Portugueses neste país que gostaria de poder celebrar convosco o dia em que perfaço um ano exato da minha chegada a França.

Esse encontro que, se tudo correr bem, gostaria que constituísse uma nova tradição e se convertesse num encontro anual, será também a ocasião, de me desempenhar da honrosa tarefa que me incumbiu Sua Excelência o Presidente da República de, em sua representação, proceder à imposição das insígnias das condecorações concedidas por ocasião do passado Dia 10 de Junho. Os agraciados são, como já saberão, os Senhores Mapril Baptista, José Mendes Constante, José da Costa Esteves, Fernando Lopes e Ana Paixão.

Devo dizer que sinto-me muito bem na presença desta assembleia de compatriotas. O contacto com a Comunidade portuguesa ao longo deste ano ofereceu-me grandes momentos. A primeira vez que passei pelo rito do “Gavião do Penacho” num almoço em que muitos tinham na lapela um “pin” com a forma de um bacalhau; a subida a um palco perante uma multidão tal que me senti uma estrela do rock, uma entrega de prémios junto à pista dum hipódromo; e claro aquela impressionante cerimónia no cemitério onde está a memória da I Grande Guerra.

Aprendi nomes novos, os do roteiro da Diáspora, nomes como Mongeront, St Maximin, Nanterre, Pontault-Combault, Valenton, St Maure-des-Fossés, Fontenay-sur-Bois, Champigny, mas também Beausoleil.

Encontrei-me com os Senhores Comendadores, mas também com os donos de estabelecimentos de petiscos, dirigentes partidários, embaixadores das Comunidades e muitas pessoas que me contaram histórias admiráveis de como tudo tinha começado e como tinham conseguido chegar ao que agora são.

Queria aproveitar esta ocasião para dizer-vos que continuo a aprender sobre o que é a Comunidade portuguesa neste país. Mesmo se já tinha vivido em França, há muitos, muitos anos, primeiro oito meses como estudante, depois oito meses como bolseiro – e conheci a estação de comboios de Hendaye e o quiosque com jornais portugueses na Étoile – estes últimos 365 dias são muito pouco para grandes conclusões.

Mas há coisas que me impressionaram. A identidade coletiva da vaga dos “históricos” dos anos 60, e o peso que teve nestes a memória do Bidonville (como constatei de maneira eloquente no recente funeral de Gérald Blancourt no Père-Lachaise) e também o impacto do 25 de Abril (como confirmei ainda há poucos dias na homenagem ao José Batista de Matos). E, como já tive ocasião de falar nisso, o paralelo que se pode fazer entre as penosas condições dos soldados do Corpo Expedicionário nas trincheiras da Flandres e o duríssimo dia a dia dos emigrantes nos bidonvilles e estaleiros de construção civil, e talvez daí e a ressonância muito especial da Batalha de La Lys para a Comunidade.

A esses “históricos”, a quem se deve, em primeiro lugar, a vitalidade associativa, sucederam novas gerações. Os mais novos, entre os quais muitos optaram por serem franceses, o que devemos respeitar e não forçar “l’amalgame” (aqueles que se afastaram da Diáspora não deixam de ter o nosso DNA coletivo quer se voltem a aproximar ou não).

Esta relação com Portugal tem evoluído na boa direção, e creio bem que já conseguimos ultrapassar o pior dos tempos tristes em que um emigrante neste país, não era bem francês em França, onde vivia, nem bem português em Portugal, onde ia passar férias. Agora, há também as novas gerações, e mais recentemente uma nova leva de expatriados. Enfim a Comunidade não é uma coisa uniforme, é, e ainda bem, muito diversa.

Quais são os grandes temas para esta Comunidade? Para mim serão o Acesso à Língua Portuguesa; o sair do silêncio e optar pela Participação Cívica; e a expansão da Atividade Económica e Empresarial – não somente interna, fazendo o melhor possível e até enriquecendo em França, mas também externa, investindo fora e nomeadamente em Portugal (daqui a menos de duas semanas participarei aliás no III Encontro dos Investidores da Diáspora, em Penafiel).

Aqui, como sabem, o meu “negócio principal”, é a relação entre Portugal e a França. E devo dizer que tive sorte com as novas circunstâncias, algumas bem recentes, que vim encontrar:

– laços económicos bilaterais dinâmicos e em expansão, quer nas trocas comerciais quer nos investimentos;

– intercâmbios cada vez maiores entre pessoas e territórios (para turismo, estudo, trabalho, para fortificação laços – como nas Geminações),

– crescente atenção recíproca às duas grandes línguas universais que nos unem;

– artistas de renome internacional que até são Portugueses reconhecidos no meio cultural francês.

São circunstâncias notáveis. E em tudo isto não me esqueço nunca que há aqui milhão e tal de Portugueses e descendentes de Portugueses. São, como tantas vezes já o vi na prática, uma ponte, um instrumento de esforços e uma maneira de “jogar em casa”. Um enorme trunfo.

A Comunidade portuguesa é discreta, é silenciosa, mas depois de ter tido nessa tranquilidade e silêncio a sua arma, corre o risco de ser vítima do estar calada.

– É bom não ser a criminalidade ou a radicalização que nos tornem conhecidos.

– É menos bom que não seja por sermos portadores duma altamente conhecida e reconhecida cultura.

– É menos bom que não tenhamos uma participação cívica ativa: há que ser mais presente nas eleições, nas autarquias em França, no Parlamento.

– É triste que as estatísticas de educação e literacia, e do completar cursos superiores não sejam muito positivas. Temos que fazer tudo para que a terceira geração seja o mais bem preparada possível.

– É ótimo que tenhamos gerado um universo de 50 mil empresas em França, que seja bem patente o nosso espírito empreendedor e que haja cada vez mais interesse por investir em Portugal.

– É excelente e muito gratificante que as associações da Comunidade continuem a ser exemplares na sua atividade filantrópica e nos seus gestos de solidariedade.

É nesta Comunidade que continuamos a encontrar grandes exemplos, como os que vamos condecorar hoje. Na defesa da cultura e do Português, com Ana Paixão e José Manuel Esteves, no empreendedorismo empresarial, com Mapril Baptista e Fernando Lopes, no associativismo benévolo com Jorge Mendes Constante.

Mes amis,

Nous, Portugais, on a eu, il y a longtemps déjà, un empire, qui était plutôt d’ailleurs un archipel de possessions. Mas on continue d’être partout dans le monde, on est partout en France! Grace à nos efforts communs, nous érigeons lentement une nouvelle reconnaissance universelle, c’est l’«Empire du Pastel de Nata»!

Merci bien, muito obrigado.

Viva Portugal!

 

Jorge Torres Pereira

Embaixador de Portugal em França

 

 

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