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As pancadas de Molière foram a única marca francófona no auditório do Liceu Internacional de Saint Germain en Laye na sexta-feira passada, à noite, quando os alunos de português da escola apresentaram a peça “Retratos de um Portugal salazarista”.

Perante uma plateia repleta de pais, professores e outros amigos da escola, os 31 alunos do 10º ano da Secção de português deste liceu, nos arredores de Paris, contaram e viveram o período da ditadura em Portugal através de contos de Sophia de Mello Breyner e Vergílio Ferreira.

Os alunos não só subiram ao palco, como fizeram parte do processo de transpor os contos dos autores portugueses para peça de teatro. “Retratos de um Portugal salazarista” recriou os contos “O retrato de Mónica” e “O Jantar do Bispo”, de Sophia de Mello Breyner, e “A Galinha”, de Vergílio Ferreira.

“Eu desafiei-os a criar o texto dramático. E não foi fácil, tiveram de escrever. Às vezes, achavam que não era possível, especialmente o conto ‘O retrato de Mónica’, de Sophia de Mello Breyner, que é muito descritivo. Até à semana passada, já nos ensaios, estavam a encontrar falhas e a mudar algumas deixas”, explicou Isabel Costa, professora que coordena a oficina de teatro e ensaiou com os alunos.

Para além do currículo normal em francês, os alunos da Secção de português deste liceu têm ainda seis horas semanais dedicadas ao estudo da literatura e da história de Portugal. A escolha de Sophia de Mello Breyner não foi por acaso, inserindo-se nas comemorações do centenário do nascimento da autora portuguesa e no currículo dos alunos.

Daniela Oliveira, aluna do 10º ano que está em França há sete anos, diz que tem uma preferência por Sophia: “Tivemos de fazer uma leitura expressiva de um poema nas aulas. A professora disse-nos para escolher um poema entre vários que ela enviou e eu escolhi o ‘Fundo do Mar’ da Sophia de Mello Breyner. E gostei muito”.

Se alguns dos alunos fizeram parte da sua escolaridade em Portugal ou no Brasil, a expressão oral é mais difícil para os lusodescendentes ou franceses que viveram uma temporada em países lusófonos. Mas na oficina de teatro são todos iguais.

“Eles sabem que não há escolha, todos vão participar no teatro. Eles foram impecáveis e claro que há nervos, mas eles surpreendem-me sempre. Trato-os a todos como se o português fosse a língua materna”, afirmou Isabel Costa.

Para Raphael Vieira, aluno do 10º ano e lusodescendente, o português está reservado para a escola e para a comunicação com a avó, que veio para França em 1965. “Foi a primeira vez que falei português para tanta gente. Em casa, falo com a avó em português e com os pais em francês”, disse Raphael.

Foi também a avó, que viveu em Portugal na época da ditadura, que lhe explicou que “os tempos eram muito difíceis”.

Para além do contexto literário, os diferentes contos mostraram a realidade portuguesa numa altura em que havia censura, algo que os alunos têm dificuldade em imaginar hoje em dia. “Eu acho que não tinha conseguido viver nessa altura. Não sou nada hipócrita e penso, do que li e do que vi, que as pessoas tinham de falar só de certos assuntos e não podiam falar de tudo. E eu gosto de falar e escrever. Limitar-me na escrita e quando falo não é possível. Penso que também foi difícil para algumas pessoas não falarem”, afirmou Luidgi Almeida, aluno do 10º ano e que encarnou a personagem Camilo na adaptação do conto “O Jantar do Bispo”, indicando Sophia de Mello Breyner como o exemplo de alguém que “conseguiu ultrapassar a censura” para se exprimir.

A peça de teatro dos alunos do 10º ano já se tornou uma tradição lusófona no Liceu Internacional de Saint Germain-en-Laye.

Solene, francesa, e António, português, têm quatro filhos. Dois deles já estão na universidade e dois ainda estão no liceu, que tem alunos desde a pré-primária até ao 12º ano. Mas mesmo sem filhos no 10º ano, fazem questão de não passar ao lado deste evento. “Há cinco anos que vimos sempre. Claro que a peça é sempre a razão principal, mas é uma maneira também de vir, ver gente e participar na vida da Secção porque, se não, com o trabalho, é difícil conviver com os outros pais e os outros alunos”, afirmou Solene, acrescentando que apesar do esforço de manter tanto o francês como o português em casa, há coisas de que não se fala normalmente no ambiente familiar e há um papel da escola na manutenção da cultura portuguesa.

Agora, é tempo de os alunos do 10º ano do Liceu Internacional de Saint Germain-en-Laye continuarem a ensaiar, já que haverá no final do ano letivo um encontro de teatro dos alunos de português em França na Cidade Internacional Universitária, promovido pelo Camões – Coordenação do Ensino Português em França.

 

MCL

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