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Neste espaço já falamos com escritores, claro, mas também com tradutores, livreiros e editores. Iremos agora colmatar uma falha grave. Vamos conversar com um homem que promove um elemento fulcral neste mundo dos livros. Um elemento que é o combustível que alimenta o “mecanismo” do livro. Falo do leitor, o fim da cadeia, o objetivo final do processo.

Jorge Silva, 52 anos, um maiato de pedra e cal, é o coordenador de uma das Comunidades de Leitores mais importante de Portugal. A Comunidade de Leitores da Maia já organizou 170 encontros e já levou, em 13 anos de existência, 60 escritores aos leitores da cidade. Um trabalho monumental levado a cabo por um irredutível grupo de maiatos, entre os quais se encontra Jorge Silva, um doutorando em Filosofia, investigador no domínio da Educação e da Leitura, que transformou a Maia em local de passagem obrigatório para qualquer escritor.

 

Jorge, vamos começar por uma pergunta que já sei que não vais saber responder. Quantos livros leste no ano de 2018?

Sabes, eu ontem fui fazer essa listagem e constatei que, em 2018, li 98 livros de ficção, tirando os ensaios, os artigos…

 

Bem, além de saberes responder à questão, acabaste de pulverizar o meu registo de leituras (risos). Agora mais a sério. Quando a Comunidade de Leitores da Maia foi criada, tu fazias ideia que um dia chegarias aos 170 encontros? Encontros, julgo eu, sempre em volta de um livro. Ou seja, estamos a falar de quase 200 livros. Não achas isso admirável?

A Comunidade de Leitores nasceu de uma forma profundamente informal. Nasceu em 2006, ano do centenário do nascimento do Agostinho da Silva. Lemos, portanto, as obras do Agostinho da Silva, que nem é propriamente ficção, e depois colocou-se a questão de continuarmos ou de ficarmos por ali. Foi aí que começou o desafio da ficção. O projeto foi feito ano a ano, só que a questão de procurarmos novos objetivos, novas formas de cativar e motivar os leitores fez com que nós fossemos andando e acrescentando eventos. Posso dizer garantidamente que à partida não fazia a mínima ideia onde é que nós iríamos parar.

 

Mas ficas surpreendido com este trajeto?

Fico surpreendido com a resiliência dos leitores e com a sua adesão. Tal como tu disseste, e isso é sempre subjetivo, além de ser uma das mais importantes do país, a Comunidade de Leitores da Maia é seguramente uma das mais antigas e uma das mais, se quiseres, sistemáticas ou consistentes ao longo dos anos. Eu sempre disse que andaria por cá com todo o gosto e todo o carinho desde que houvesse leitores e pessoas interessadas. O prémio é para os leitores. Alguns estão cá desce o começo, há 13 anos. Há pessoas que vão entrando, outras que vão saindo por questões de vida, questões profissionais. Nós somos o grupo mais extenso, a nível de elementos, do país. Isso, sim, surpreende-me.

 

No mês passado foi organizada uma convenção literária na Maia, na qual também participei, onde os leitores se reuniram com nove escritores que escreveram sobre a Grande Guerra. Nessa convenção, além da Comunidade de Leitores da Maia, participaram também as Comunidades de Leitores de Montemor-o-Novo e de Loures. Esta convergência de esforços foi caso único ou há planos para a que ela continue e se alargue?

Eu sempre tive uma ideia contrária à maior parte das pessoas. Eu sempre pensei que isto só faria sentido se tivéssemos escala e se os leitores da Maia se confrontassem com outras experiências dos seus homólogos, fosse onde fosse, em Lisboa, no Algarve, Trás-os-Montes… desde que soube que havia Comunidades de Leitores de Bibliotecas em outros locais, tentei sempre promover os contactos. E daí, por volta de 2009 ou 2010, convidei a Comunidade de Leitores da Comunidade de Coimbra para vir à Maia. Depois fiz o mesmo com a Figueira da Foz. Entretanto, nós já fomos lá, eles já vieram cá e já nos reunimos algures a meio. Quando fizemos 10 anos de vida, surgiu a possibilidade de fazermos um Encontro Nacional pela primeira vez. Algo de inédito. Tentámos reunir o maior número de Comunidades de Leitores num único encontro para se discutir, não só problemas inerentes à parte da coordenação e da orientação, mas sobretudo de problemas que contam para os leitores. Isso foi feito aqui na Maia em 2016. Foi a partir daí que nós, Montemor, Loures, Almada, Coimbra, Vila Real, Caminha… foram cerca de 13 ou 14 Comunidades aqui presentes. E nós tentámos fazer uma espécie de rede, uma rede de leitores. E é isso que lentamente estamos a tentar construir. Os intercâmbios têm acontecido de 2016 para cá e têm sido vários ao longo de cada ano.

 

Jorge, quando eu olho para as Comunidades de Leitores, além do seu óbvio papel de promoção da leitura, encontro também outros fatores relevantes a nível de socialização. Conheces casos, por exemplo, em que uma Comunidade de Leitores tenha ajudado a combater a solidão de um idoso ou motivado um jovem a prosseguir os estudos?

A nível de socialização e de integração, as Comunidades de Leitores começam a ser espaços fundamentais para as sociedades locais. O que eu noto é que as pessoas quando chegam à Comunidade de Leitores, elas chegam por razões muito distintas. Umas, claramente, vêm para combater a solidão, para terem um espaço de partilha, de criação de novas amizades, de laços afetivos. Essas são dimensões fundamentais ligadas à leitura. E a leitura promove a empatia. Uma coisa tem necessariamente a ver com a outra. Muitas vezes também serve para combater alguns sintomas depressivos. Isso já aconteceu aqui: pessoas que recuperaram num ambiente de Comunidade de Leitores. Esse papel social e, se quiseres, de profilaxia na promoção do bem-estar emocional e psicológico, acho que é fundamental, sim.

 

Há algum projeto que vise divulgar a experiência de todos estes anos da Comunidade de Leitores da Maia?

Ainda bem que perguntas isso. Em 2016 havia a ideia de materializar toda a experiência – eu sou um tipo à antiga que gosta de registar tudo o que se faz para memória futura, até porque nós vivemos um tempo em que a memória começa a ser algo fugidia e muito porosa – e, tendo isso em vista, eu fiz um livro que combina três grandes eixos. Um primeiro que é uma espécie de ensaio sobre a leitura enquadrada nas Comunidades de Leitores. Um segundo que trata o que foi a dinâmica da Comunidade de Leitores da Maia ao longo de dez anos: participações, entradas, saídas, o que se fez e o que não se fez. Inclusive com tratamento gráfico e estatístico. E num terceiro momento a inclusão de trabalhos que foram pedidos aos leitores ao longo dos anos, recensões de livros, por exemplo. O livro será provavelmente publicado ainda este ano. Não o foi em 2016, com pena minha, pois o objetivo era aproveitar a visita das outras Comunidades para o entregar, para partilhar com eles. Ele será publicado tal como foi feito em 2016 para, caso haja um segundo livro a comemorar os 20 anos, os podermos comparar.

 

Entrevista realizada no quadro do programa «O livro da semana» na rádio Alfa, apoiado pela Biblioteca Gulbenkian Paris

Próximo convidado: Marcos Cruz, autor de “Os pés pelas mãos”

Quarta-feira, 13 de outubro, 9h30

Domingo, 17 de outubro, 14h25

 

 

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