Opinião: A minha relação com o futebol


A minha relação com o futebol nunca foi muito saudável.

Na adolescência, jogando num time lá no sítio do meu avô, acontecia uma coisa estranha. Quando a bola, sabe-se lá por força de qual destino, parava nos meus pés, eu me transformava numa espécie de bólido desenfreado, capaz de vencer uma prova de 100 metros rasos, embora incapaz de saber exatamente o que fazer com a bola.

Então, veloz como um atleta e inútil como jogador, disparava em tal velocidade que frequentemente passava do gol, deixava a trave para trás e só parava quase cem metros adiante, já sem bola, sem destino e sem qualquer serventia esportiva.

Não bastassem esses episódios bizarros, já no ginásio perguntaram-me se eu queria ser goleiro numa partida contra o time de uma escola adversária. Prontamente aceitei, sem saber que aquilo seria o início de um ciclo sombrio. Ao fim do jogo, eu era considerado o inimigo número um de toda a escola.

Perdemos de 15 a 0.

Essas memórias, transformadas em diabretes, foram guardadas a sete chaves no meu inconsciente pessoal. E é agora, com muito cuidado, que volto ao tema futebol. Não para resgatar tais lembranças, que deveriam permanecer enterradas como relíquias de uma civilização fracassada, mas para comentar um fato que deveria me causar surpresa.

Deveria.

Mas, como ainda tento manter acesa a capacidade de me surpreender, vamos lá.

O senhor de peruca laranja, que se julga dono do mundo, resolveu mais uma vez exercer seu incontido narcisismo. Pediu, ou melhor, determinou, porque certos homens não pedem, ordenam, a outro senhor, daqueles que, se tivessem nascido cachorro, seriam do tipo que abana o rabo para todo mundo, que intercedesse para anular um cartão vermelho dado por um árbitro.

Sim, um cartão vermelho.

No futebol, como se sabe desde os tempos em que a bola ainda parecia obedecer a alguma regra superior à vontade dos poderosos, cartão vermelho é cartão vermelho. O árbitro apita, o jogador sai, o jogo segue. É simples, antigo, quase litúrgico. Uma daquelas pequenas cerimônias da civilização em que todos, ao menos em tese, aceitam que existe uma regra acima do capricho individual.

Mas eis que o mundo moderno, sempre tão disposto a ajoelhar-se diante dos homens barulhentos, parece ter descoberto uma nova modalidade esportiva: o futebol de gabinete.

Nele, não importa tanto o que aconteceu em campo. Importa quem telefonou depois. Não interessa a falta cometida, o lance visto, a decisão tomada. Interessa a vontade do homem que, acostumado a confundir país, empresa, palco e planeta com extensão de sua sala de estar, acredita poder meter a mão também no apito do juiz.

E o mais espantoso talvez nem seja o pedido.

O mais espantoso é a rapidez com que certos personagens se curvam. Há homens que não caminham: rastejam. Há homens que não respondem: obedecem. E há homens que, colocados diante do poder, perdem imediatamente a espinha, como se ela fosse um acessório opcional.

Foi então que compreendi que minha antiga relação desastrosa com o futebol talvez fosse, afinal, menos ridícula do que parecia.

Eu, pelo menos, quando corria com a bola, passava do gol por incompetência atlética. Não pretendia mudar a regra do jogo. Não telefonava ao dono do sítio, não exigia a anulação do vexame, não pedia que o goleiro adversário fosse afastado por ter defendido demais.

Eu apenas corria.

Corria como quem foge de si mesmo, da bola, do gol e talvez da humilhação inevitável.

Hoje, porém, há quem corra em outra direção. Corre-se atrás do poder. Corre-se atrás da bajulação. Corre-se atrás da vantagem. E, nessa corrida, que parece a mais rápida de todas as disputas, a bola já pouco importa.

Importa apenas saber quem manda.

E quando o futebol, esse velho teatro popular de regras simples, passa a depender dos caprichos de senhores vaidosos e de seus obedientes abanadores de rabo, já não estamos mais diante de uma partida.

Estamos diante de uma metáfora.

E, convenhamos, uma metáfora bem mais triste do que perder de 15 a 0.

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Marco Guimarães

Jornalista brasileiro residente em França

Autor de quinze romances, com obras publicadas na América do Sul, na África e na Europa

Marco Guimarães

Marco Guimarães

Écrivain et journaliste.
Cofondateur et Vice-Président de l’Union européenne des écrivains de langue portugaise (UEELP)

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