Nuno Gomes Garcia conversa com Emílio Tavares Lima: «É uma maldade o que se passa na Guiné-Bissau»

Emílio Tavares Lima nasceu em Canchungo, na Guiné-Bissau, em 1974, um mês antes do reconhecimento oficial da independência do seu país. Desde muito cedo, seguindo a tradição guineense, prestou atenção à oralidade como forma de expressão artística.

Começou a declamar poesia ainda antes de aprender a escrever, paixão que culminou nos três livros de poesia já publicados.

Quando, ainda adolescente, recebeu uma máquina de escrever e passou a datilografar cartas enviadas a um «outro eu» que vivia em outro país. E esse «outro eu» sempre lhe foi respondendo sem falhas.

Com a Guiné-Bissau a recuperar da guerra civil, Emílio Tavares Lima foi estudar para Portugal e hoje vive na Escócia.

O nosso livro da semana é o seu primeiro romance: «Finhani – o Vagabundo Apaixonado».

 

Emílio, este teu romance «Finhani» pode ser considerado uma obra de prosa-poética? É assim que o vês?

Sim, Nuno, é assim mesmo. Este livro não tem apenas o pendor da escrita, ou da transcrição, mas demonstra o domínio do autor pela linguagem poética. Transportei, sim, para a prosa o componente da poesia.

 

E é também uma homenagem ao emigrante guineense?

É uma homenagem aos emigrantes guineenses e a todos os emigrantes do mundo. E eu recomendo-o, não por o livro ser meu, mas sim porque todos nós temos no interior um vagabundo silencioso. É uma homenagem ao emigrante, a quem abandona o seu lar, a quem deixa para trás tudo o que lhe é mais íntimo, a família, a terra que o viu nascer, que recebeu o seu cordão umbilical, e partir.

 

Sei que manténs um vínculo muito forte com a Guiné-Bissau. És até o mentor e coordenador do Projeto «Djorson Nobu – Nova Geração» que publica a Antologia Poética Juvenil da Guiné-Bissau. Eu já te ouvi a falar, como muita emoção e convicção, sobre a situação política e socioeconómica do teu país. Como vês a Guiné-Bissau de hoje?

Vejo-a com uma tristeza enorme. Muito se tentou fazer. Houve um período em que a Guiné-Bissau, o povo guineense, tanto o que vive na pátria como o que vive fora, viu renascer um momento de esperança com as eleições de 2014, que culminou na maioria absoluta do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo-Verde), que tinha como Primeiro-Ministro o ex-Secretário executivo da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), o engenheiro Domingos Simões Pereira. Ora, no espaço de pouco mais de um ano, o Presidente da República, José Mário Vaz, aliado a um grupo de pessoas, decidiu mandar abaixo o Governo, eliminando assim o sonho de todo o povo guineense, que estava no auge depois da mesa redonda nunca antes conseguida por qualquer país de língua portuguesa. A Guiné-Bissau conseguiu em Bruxelas uma promessa de financiamento, de ajuda pública, algo que nunca nenhum país tinha conseguido. Mesmo Angola, para que tenhamos a noção, quando saiu da guerra civil, o dinheiro que conseguiu na mesa redonda que organizou não chegou a uma terça parte do dinheiro que a Guiné-Bissau iria arrecadar em Bruxelas. Apesar disso, cerca de um ano depois, o Presidente da República arruinou o país. No espaço de menos de uma legislatura, a Guiné-Bissau já teve cinco Primeiros-Ministros e agora vamos a caminho do sexto.

 

Uma grande instabilidade…

É louco, Nuno, louco. Isto é uma fotografia. Agora, diz-me, Nuno, se isto não é adiar o sonho de uma nação, de todo um povo, um povo humilde? É uma maldade o que se passa na Guiné-Bissau.

 

Admiro essa tua tomada de posição, a tua convicção… mas vamos voltar aos livros. Por isso te pergunto: qual o impacto que tem tido a situação que acabas de descrever na literatura guineense?

Os jovens guineenses, os escritores estão, sim, a trabalhar. Falando da escrita propriamente dita, eu faço parte da Associação de Escritores Guineense, e nós acabámos de criar a PEN Clube da Guiné-Bissau. Estamos, por isso, a defender uma causa, porque para nós não importa o tamanho do mundo onde vivemos, a Guiné-Bissau é um país pequeno, mas sim o impacto, a intensidade que imprimimos na projeção dos sonhos do povo guineense. E nós, como escritores, somos quem catapulta a esperança do povo, somos uma referência e não podemos ficar calados quando todo um povo sofre e não tem a possibilidade se de exprimir. Eu, na Diáspora, tento cumprir o meu papel e muitos outros escritores guineenses, que tu conheces… por exemplo, o Tony Tcheka.

 

Sim, conheço.

Entretanto, há uma afronta contra as pessoas que tentam mostrar a visão crítica das coisas… mas, sim, temos batalhado e, sim, a vitória é certa. Mais cedo ou mais tarde. E há políticos, só para fazer este ponto, Nuno, há 19 políticos guineenses que foram sancionados recentemente pela CEEAO (Comunidade Económica dos Países da África Ocidental) e que agora têm os seus bens congelados no espaço sub-regional, não podem sair do país. Tenho portanto esperança de que a situação vá mudar.

 

Emílio, a literatura guineense é pouco conhecida no resto do espaço lusófono. Já referiste o Tony Tcheka. Apresenta-nos outros autores guineenses.

Eu falo com muito orgulho nos trabalhos que têm sido desenvolvidos na Guiné-Bissau. Olha, no campo da ficção-cientifica temos o Abdulai Silá, que tem dado cartas. O Abdulai Silá é o maior romancista guineense e é o Presidente da Associação Guineense de Escritores. Falo de Emílio Kafft Costa, jurista e professor na Universidade de Lisboa. Ele, a nível técnico é o cartão de visita da Guiné-Bissau. Temos a Odete Semedo, professora na Universidade Amílcar Cabral, na Guiné-Bissau, e também membro da Associação de Escritores. Temos também Conduto de Pina. Da nossa geração, temos o André Mendes, o Lourenço da Silva, que estão em França. Temos tantos e bons autores guineenses.

 

 

Entrevista realizada no quadro do programa «O livro da semana» na rádio Alfa, apoiado pela Biblioteca Gulbenkian Paris

Próximo convidado: Paulo M. Morais, autor do romance «Revolução Paraíso»

Quarta-feira, 25 de abril, 8h30

Domingo, 29 de abril, 14h25

 

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LusoJornal