Saúde: A gota tem tratamento_LusoJornal·Saúde·7 Janeiro, 2026 A gota é a forma mais comum de artrite (inflamação das articulações), afetando cerca de 4% da população. Resulta da deposição de cristais de ácido úrico nas articulações e tecidos, consequência da hiperuricemia (níveis no sangue acima de 6 mg/dL em mulheres e 7 mg/dL em homens). Embora necessária, a hiperuricemia só leva à gota em cerca de 20% dos casos. A doença é mais frequente em homens a partir dos 40 anos e em mulheres após os 60, sendo comum a associação com hipertensão, diabetes, obesidade, síndrome metabólica e doença renal. A gota pode ser idiopática (sem causa definida), influenciada por fatores como história familiar, dieta e medicamentos, ou secundária a condições que aumentam a produção (ex: neoplasias, psoríase e medicamentos) ou reduzem a eliminação do ácido úrico (ex: doença renal). As manifestações iniciais surgem como artrite aguda, com crises súbitas, geralmente noturnas, de dor intensa, edema, calor e vermelhidão. Em 90% dos casos afeta apenas uma articulação, sendo a mais comum a 1ª metatarsofalângica (base do 1º dedo do pé) e designa-se de podagra. Outras articulações frequentemente afetadas são os tornozelos, joelhos e dorso do pé também. As crises podem ser desencadeadas por medicamentos (diuréticos, aspirina), ingestão de álcool e alimentos ricos em purinas (carne vermelha e marisco) ou situações como infeções, cirurgias ou desidratação. Sem tratamento, tornam-se mais frequentes e atingem várias articulações. Na fase crónica, podem surgir artrite persistente e artrose com dor crónica, deformações articulares, tofos gotosos (nódulos indolores em cotovelos, dedos, orelhas, tendão de Aquiles) e complicações renais, como litíase (“pedras renais”) e doença renal. A confirmação do diagnóstico definitivo exige aspiração de líquido das articulações para identificar cristais, embora na maioria das vezes não seja necessário. O diagnóstico pode ser estabelecido baseado na história clínica sugestiva e em exames laboratoriais e de imagem. Importa referir que a hiperuricemia isolada não confirma o diagnóstico pois o ácido úrico pode estar normal durante crises. A ecografia e a radiografia ajudam na identificação de sinais típicos da doença nas articulações. O tratamento divide-se em controlo das crises agudas e tratamento crónico. Nas crises, usam-se anti-inflamatórios (colchicina, AINEs ou corticoides), além de gelo e repouso. O tratamento crónico visa reduzir o ácido úrico e prevenir novas crises. Inclui medidas não farmacológicas, como dieta mediterrânica, perda de peso, exercício, cessação tabágica e redução de álcool, marisco, carne vermelha e bebidas açucaradas. Medicamentos como alopurinol ou febuxostate são usados para manter o ácido úrico abaixo de 6 mg/dL e reduzir as crises e complicações, iniciando-se em doses baixas e ajustando gradualmente (estratégia “treat to target”). A adesão terapêutica é essencial, pois muitos doentes permanecem sem tratamento ou utilizam doses inadequadas. . Dr. Manuel Silvério António Reumatologista Sociedade Portuguesa de Reumatologia