Opinião: Henrique Gouveia e Melo – autoridade, eficácia e o peso da matriz militar_LusoJornal·Opinião·8 Janeiro, 2026 O candidato a Presidente da República, Henrique Gouveia e Melo, é um perfil que se situa entre a autoridade, a eficácia e uma visão hierárquica que decorre do seu percurso militar. Apresenta uma imagem de competência e comando, mas com uma fragilidade clara: trata-se de um militar sem percurso político, com o risco de transportar para o poder civil uma liderança excessivamente vertical – algo que, de certa forma, se pode inferir do seu histórico recente. Acresce a ausência de uma visão inovadora ou de soluções que ultrapassem a mediania. Almirante da Marinha, nascido em 1960, em Moçambique, Gouveia e Melo tornou-se uma figura nacional durante a pandemia, quando coordenou a Task Force de Vacinação contra a Covid-19. A sua liderança operacional, marcada por disciplina e comunicação direta, colocou Portugal entre os países europeus com maiores taxas de vacinação. Foi a consagração pública de um militar eficiente, pragmático e capaz de gerir crises, mas também o início da construção de uma imagem de autoridade carismática – acompanhada de um certo saudosismo sebastianista, próprio de quem anseia por um “salvador nacional”: a figura de mão firme que “põe tudo a funcionar” porque sabe mandar. Este eleitorado existe e é numeroso. Em Portugal, muitos são os que pouco fazem por si próprios, pelos outros ou pela sociedade, mas continuam à espera de uma figura patriarcal, providencial, quase tutelar, que “ponha isto a andar” e resolva, de uma vez, tudo o que está mal – sem esforço, sem participação, sem responsabilidade cívica, sem mexer uma palha. É esse impulso – mais emocional do que racional, mais delegador do que participativo – que favorece candidatos com aura de comando e disciplina. Por isso, este perfil tem um eleitorado natural e corre o risco real de, sendo um dos favoritos, vir a representar o país como a mais alta figura do Estado, isto sem precisar de fazer muito pela campanha ou de dizer algo de especial. Uma visão apontada por muitos como autoritária encontra eco no acórdão do Supremo Tribunal Administrativo, de 7 de maio de 2025, relativo ao caso dos militares do navio NRP Mondego, que se recusaram a embarcar por alegada falta de condições de segurança. No acórdão, com cerca de 230 páginas, os juízes consideraram inválido todo o processo disciplinar desde a origem, identificando múltiplas ilegalidades e violações de direitos fundamentais, incluindo o direito à defesa, à produção de prova e à imparcialidade do procedimento. Em termos jurídicos, o tribunal foi claro na censura ao processo conduzido sob a chefia direta do então Chefe do Estado-Maior da Armada, Henrique Gouveia e Melo. O problema é simples: a Presidência da República não é um navio de guerra. O comando supremo das Forças Armadas não se confunde com a magistratura de influência que o cargo exige, e as consequências de falhas ao mais alto nível não se circunscrevem ao mundo dos soldados. Um Presidente precisa de ponderação, diálogo, empatia e equilíbrio institucional – virtudes distintas das de um oficial superior habituado a dar ordens e a vê-las cumpridas sem contestação. É aqui que o perfil do candidato revela a sua vulnerabilidade política, agravada quando se discute inovação e progresso num país empobrecido e estruturalmente atrasado. Portugal precisa de um Presidente com visão transformadora, capaz de questionar e reformar instituições ultrapassadas, caras e ineficientes. A urgência de uma verdadeira revolução de mentalidades – de onde possa emergir uma reforma profunda do Estado, a mãe de todas as reformas – é hoje incontornável. Nesta perspetiva, alguém que emerge das cúpulas do sistema será, sobretudo, o garante da continuidade: não piora, mas também não melhora. É a escolha do marinheiro de águas serenas, num Portugal que precisa de sair ao alto mar e enfrentar fortes correntes para passar novamente do Cabo das Tormentas para o Cabo da Boa Esperança, na direção da modernidade e prosperidade. Num país onde um em cada quatro cidadãos vive no limiar da pobreza, com envelhecimento acelerado, natalidade baixa, emigração prolongada de jovens qualificados e imigração tendencialmente desqualificada, a escolha do mais alto representante do Estado é de suma importância e uma questão central impõe-se: como exercerá este ex-militar o poder presidencial e que Portugal ajudará a reconstruir? Reconheça-se, contudo, uma qualidade inegável: Gouveia e Melo é, por formação e carreira, um gestor de crises. Disciplina, racionalidade e determinação são virtudes relevantes num mundo instável e com riscos reais de conflito armado alargado na Europa Oriental. Se a conjuntura internacional evoluir para uma crise de segurança ou uma guerra, será, para muitos, a escolha natural de quem procura estabilidade e comando firme. Mas é preciso dizê-lo com clareza: será um Presidente que trará dignidade, mas estará mais vocacionado para defender e conservar do que para reinventar e elevar. Foi treinado para proteger e manter, não para transformar. Portugal, porém, é um país adiado, suspenso no tempo, que precisa menos de manutenção e muito mais de mudanças profundas e emergentes. E é aí que a figura do Almirante, por mais sólida e respeitável que seja, se afasta do tipo de criatividade política e visão estratégica de que o país urgentemente carece. O voto dura um minuto; o poder que concede dura anos, e as suas consequências estendem-se por décadas. Por isso, o voto, esse poder instantâneo, deve ser ponderado com rigor. Nestas eleições, mais do que escolher o ideal, importa que o melhor entre os possíveis nos represente. . Pedro Brácaro Movimento Sinergias da Diáspora . Fontes: – Supremo Tribunal Administrativo, Acórdão de 07.05.2025 (caso NRP Mondego). – Página Um, “Justiça torpedeia Gouveia e Melo: Supremo arrasa processos contra militares castigados”, 07.05.2025. – Direção-Geral da Saúde / SNS, dados oficiais da vacinação COVID-19 (2021). – Our World in Data, comparações europeias de taxas de vacinação (2021). – Instituto Nacional de Estatística e Eurostat, indicadores de pobreza, demografia e migrações.