Saúde: Os mistérios do cabelo


O couro cabeludo é frequentemente negligenciado porque, culturalmente, associamos “cabelo” apenas à haste capilar visível e não ao seu ambiente biológico. A porção visível, ou seja, o fio de cabelo é o que nos dá a beleza do cabelo, todavia tudo se passa na parte invisível, isto é, o folículo piloso, que é a porção “viva” biologicamente ativa do cabelo. Além disso, muitas patologias do couro cabeludo manifestam-se de forma subtil (descamação fina, prurido, ardor), levando à automedicação ou banalização dos sintomas. Por fim, a complexidade das interações entre microbioma, barreira cutânea, inflamação e folículo piloso torna esta área menos intuitiva para o paciente.

A haste capilar reflete a saúde do folículo onde nasce. Inflamação, microirritação crónica, alterações da barreira cutânea ou excesso de sebo afetam o ambiente folicular, comprometendo a fase anagénica (crescimento) e resultando em cabelos mais fracos, finos, frágeis ou com menor densidade. Se o couro cabeludo permanecer equilibrado em relação aos fatores descritos promove um ciclo capilar mais estável e cabelos de melhor qualidade e aspeto saudável.

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Inflamação crónica

Os sinais mais típicos incluem prurido (comichão) persistente, descamação recorrente ou placas eritematosas (avermelhadas), aumento de queda ou miniaturização dos cabelos, dor ou sensibilidade ao toque, sensação de ardor ou calor, zonas de rarefação associadas a dermatites. Quando a inflamação é constante, o folículo entra mais cedo em fase de queda (telogénese) e recupera mais lentamente.

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Ingredientes e inovações em cuidados capilares

O ácido hialurónico atua como um agente que atrai e retém água, reforçando a hidratação da epiderme e apoiando a integridade da barreira cutânea. No couro cabeludo, isso traduz-se em menor irritação, maior conforto e menor tendência para descamar. Ambientes mais hidratados reduzem microinflamações que podem interferir com a saúde do folículo.

Pacientes com cabeludo seco, sensível ou irritável, com dermatite seborreica associada a irritação, pacientes submetidos a terapêuticas agressivas (anticaspa), utilização frequente de secadores potentes, utilização de pranchas ou tratamentos químicos que desidratam/ ressecam o couro cabeludo.

No entanto, o ácido hialurónico não deve ser aplicado na haste capilar com o objetivo de obter um efeito “hidratante profundo”. O ácido hialurónico atua essencialmente na superfície e no couro cabeludo. Outro erro é sobrecarregar a raiz com fórmulas muito pesadas, levando a oleosidade reativa.

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Irritação

A niacinamida modula a inflamação, reforça a barreira cutânea e reduz a perda transepidérmica de água. Tem ainda um efeito regulador da produção de sebo, sendo útil em casos com prurido, irritação e sensações de ardor frequentes.

Os ingredicantes que potenciam ou prejudicam, por exemplo, ácido hialurónico (hidratação sinérgica), pantenol e ceramidas (reforço da barreira) e extratos anti-inflamatórios como Centella asiática.

Podem prejudicar a sua ação, agentes muito agressivos ou com pH ácido ou básico extremo, que irritam a barreira cutânea e anulam o efeito calmante da niacinamida.

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Peptídeos

Os peptídeos são pequenos fragmentos de proteínas que funcionam como “mensageiros biológicos”. Alguns estimulam a atividade das células da papila dérmica, nomeadamente os fibroblastos da papila dérmica, promovem o aumento da vascularização e prolongam a fase anagénica (de crescimento). Também podem reforçar a fixação da haste capilar ao folículo piloso e reduzir a miniaturização capilar.

Já existe evidência científica consistente a apoiar o uso de peptídeos em produtos de rotina diária crescente, embora variável consoante o péptido. Há dados mais robustos para peptídeos biomiméticos, peptídeos sinalizadores e alguns complexos que estimulam fatores de crescimento. Ainda assim, a eficácia depende da formulação, concentração e estabilidade do péptido.

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Ácido Glicólico

O ácido glicólico penetra facilmente na haste de cabelo, ajudando a reter água e melhorando temporariamente a elasticidade do fio de cabelo. Também atua como agente esfoliante suave no couro cabeludo, removendo resíduos.

Pode ser uma boa opção para quem tem cabelo encaracolado ou texturizado, desde que utilizado em concentrações baixas e de forma controlada. Cabelos encaracolados tendem a ser mais secos e porosos, pelo que pequenas quantidades de ácido glicólico podem melhorar retenção hídrica. Concentrações altas, porém, podem desestruturar a haste de cabelo e aumentar o frizz.

Há riscos de dano quando usado em excesso porque pode alterar a coesão da haste capilar, aumentar porosidade, provocar quebra e sensibilizar o couro cabeludo. É um ingrediente que deve ser utilizado com moderação, sobretudo em cabelos muito finos, descolorados ou frágeis.

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Centella asiática

A centella asiática tem propriedades anti-inflamatórias, cicatrizantes e calmantes. Ajuda a reduzir vermelhidão, sensação de calor, ardor e descamação induzida por champôs anticaspa, por exemplo. Também auxilia na recuperação da barreira cutânea entre lavagens.

A sua utilização está recomendada em situações de couro cabeludo sensível, após utilização de agentes agressivos, esfoliações, condições de prurido crónico do couro cabeludo, pós-procedimentos (mesoterapia, por exemplo) como agente calmante, tendência a microinflamação, entre outros.

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Professora Doutora Ana Pedrosa

Dermatologista

Clínica Insparya Porto