LusoJornal | António BorgaOpinião: O Portugal que eu amo, continua a ser um país maravilhoso?Carlos Pereira·Opinião·21 Janeiro, 2026 Desculpem-me se digo que amo Portugal. Confesso que nunca tinha pensado nisso antes de sair do país, em 1984. Nunca tinha sentido a necessidade de estampar a bandeira de Portugal no capot do carro. É verdade que também não tinha carro! Agora que tenho carro, não colei qualquer emblema nacional, nem que seja na placa de matrícula. Mas compreendo quem o faz. Para quem mora fora, Portugal é “o nosso país”. Mesmo para os binacionais. Quantas vezes ouvimos binacionais a dizer que amam Portugal, como amam a França? Por que razão vos falo disto hoje? Porque de repente, nesta campanha eleitoral, os ventos que me chegaram do meu país, trouxeram-me imagens de um Portugal que nem parece ser o meu. Quem acompanhou a campanha eleitoral ficou a saber que, afinal, Portugal é um país de corruptos, que o país está cheio de imigrantes que não falam português, que matam e roubam pessoas nas ruas, que não trabalham, que vivem de subsídios, que é um país inseguro em que tudo vai mal! Bolas. Dito assim, eu tenho dificuldade em reconhecer Portugal. Mas confesso que este discurso é muito português. Quando chego a Portugal e falo com quem lá está, quando pergunto como vão, ouço logo queixas de uma dor nas costas, do raio da ciática que não nos deixa, de uma pedra nos rins que provoca dores horríveis, e das enxaquecas, então, nem se fala. Queixam-se da chuva, dos engarrafamentos, do Presidente da Junta de Freguesia… parece que estamos na CM TV. Tenho mesmo este sentimento de estar em frente do muro das lamentações. Não sei porquê, mas é um comportamento muito português. Não me choca propriamente quando na campanha eleitoral se levantam os problemas do país. Aliás, as campanhas eleitorais também podem servir para isso. Mas, sinceramente, eu prefiro os candidatos que propõem soluções. Porque o inventário do que está mal, qualquer um de nós, cidadãos, pode fazer. Vamos para um café, tomamos um copo e listamos logo ali uma série de coisas que estão mal. Não necessitamos de políticos para isso, não é. O que procuro num político é solução para os problemas. Mas Portugal estará assim tão mal como alguns candidatos o pintam? Do lado de cá, eu constato que todos os anos, há milhares de Portugueses residentes no estrangeiro que rumam ao país, para passar férias, para ver os amigos e a família, mas também para investirem, em bens imobiliários e até em empresas. Todos os anos, os emigrantes enviam pipas de dinheiro em remessas. Ora, ninguém envia dinheiro para um país podre e com moléstia! A minha volta, cada vez encontro mais franceses, suíços, belgas, holandeses, ingleses, que decidiram emigrar para Portugal, para aí passarem a sua aposentação. E todos argumentam que Portugal é um país simpático, com gente simpática e acolhedora, onde se vive bem e… em segurança. Ainda não encontrei ninguém que não me diga que a segurança é uma das razões pelas quais decidiram mudar-se para Portugal. Ainda recentemente, lemos todos na imprensa internacional, que Portugal tem “a melhor economia do ano”. Tenho a certeza que qualquer português duvidou. Tenho a certeza que alguns tiveram de ler duas vezes e até três. Imagino aqueles que dizem que tudo está podre em Portugal, de repente, abrirem o jornal e lerem que Portugal tem uma economia sólida, que o mundo nos admira! Os políticos portugueses serão mesmo todos corruptos? Alguém acredita que os bons estão todos de um lado e os maus estão todos do outro? Alguém acredita que tudo na Esquerda é mau e que tudo na Extrema-Direita é bom? Sejamos francos. Na Esquerda há muita coisa boa, como a Extrema Direita também deve haver muita coisa má. Em França, quando alguém exagera no que diz, pensa-se que se trata de alguém de Marseille, mas finalmente, esta “exageração” também se encontra em alguns políticos portugueses. E se os políticos portugueses fossem assim tão maus, seriam convidados para dirigir as Nações Unidas, a Comissão Europeia, o Conselho da Europa, o Banco Europeu,… Se os portugueses fossem assim tão maus, seríamos, como somos, respeitados em qualquer país do mundo? É incrível que tanta a gente nos admira e nós mesmo, somos os primeiro a dizer que os nossos políticos não valem nada. É estranho, não é? Isto é um incrível falta de confiança em nós mesmos. Somos um país único. Eu continuo a achar que Portugal é um país maravilhoso, com gente boa, inovadora, empreendedora, gente com punho, capaz de avançar nos ambientes mais adversos. Eu continuo a achar que Portugal é um país especial, que consegue falar com a Europa, com a África, com a Ásia, até com a América… E nós, emigrantes, sabemos bem disso, porque nos adaptamos em qualquer país. Estamos presentes em mais de 190 países. É obra. E compreendemos bem as diferentes culturas. Conhecem muitos países assim? Com gente respeitada em todo o mundo, com gente que percebe o mundo? Conhecem muitos países assim, com Portugueses que se sentem bem em qualquer lado? Nós, Portugueses, temos esta qualidade. E então, se sabemos falar com qualquer cidadão do mundo, nos mais diferentes países, será que não conseguimos falar com os cidadãos do mundo que escolheram Portugal para viver? Enquanto imigrante em França, eu quero que o país que eu amo e que me viu nascer, acolha, pelo menos tão bem os imigrantes que escolheram viver em Portugal, como eu fui acolhido no país onde resido. .Eu acredito em Portugal e nos Portugueses. Custa-me ver tanta gente que baixou os braços, rabugenta e que diz que Portugal está de rastos. Cegaram?