Num artigo publicado no jornal “Le Figaro” o Diretor Editorial Alexandre Devecchio afirmou que 59,82% dos portugueses residentes em Paris votaram em André Ventura, candidato do partido populista Chega, na segunda volta da eleição presidencial portuguesa.
À primeira vista, o número é impactante e facilmente instrumentalizável.
Contudo, isolado do seu enquadramento, torna-se redutor e “politicamente enviesado e tendencioso”.
Importa começar pelo essencial: a dimensão real da Comunidade portuguesa em França. Segundo dados do Observatório da Emigração, com base em estatísticas internacionais recentes, residem em França cerca de 577 mil cidadãos portugueses, tratando-se da maior Comunidade portuguesa na Europa. Este dado, por si só, demonstra a dimensão e a diversidade social, cultural e política desta diáspora.
No plano eleitoral, os números oficiais do recenseamento indicam que estão inscritos no estrangeiro mais de 1,6 milhões de eleitores portugueses, sendo que aproximadamente 400 mil se encontram recenseados em França. Porém, a participação efetiva nas últimas eleições foi residual. Em França, votaram pouco mais de onze mil eleitores, o que corresponde a uma taxa de participação próxima dos 3%.
A abstenção ultrapassou, portanto, os 97%.
Perante estes dados, a leitura isolada da percentagem de 59,82% revela-se profundamente distorcida. Quando se considera o universo total de eleitores inscritos em França, o apoio expresso nas urnas a André Ventura representa apenas uma fração diminuta da comunidade.
Não é intelectualmente sério, nem politicamente honesto, transformar uma percentagem calculada sobre um número tão reduzido de votantes numa caracterização global de centenas de milhares de emigrantes.
Acresce que muitos portugueses enfrentam dificuldades logísticas significativas para exercer o direito de voto. O Consulado de Paris cobre uma área geográfica extensa, obrigando, em inúmeros casos, a deslocações longas e dispendiosas.
A baixa participação não pode ser desligada destas limitações estruturais, que continuam por resolver.
Houve mobilização política, é verdade.
Mas tratou-se da mobilização de uma parte muito restrita do eleitorado.
A Comunidade portuguesa em França é plural, heterogénea e politicamente diversa. Reduzi-la a um bloco homogéneo associado a um voto extremista é uma simplificação abusiva que serve agendas ideológicas e empobrece o debate público.
As 182 Mulheres da Carta Aberta reafirmam que rigor estatístico, contextualização e responsabilidade são princípios essenciais na interpretação de resultados eleitorais. Quando estão em causa Comunidades emigrantes, frequentemente instrumentalizadas no confronto político interno, a exigência de seriedade deve ser ainda maior.
A democracia não se compadece com leituras parciais nem com números transformados em arma de arremesso.
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Artigo elaborado em grupo pelas assinantes da Carta aberta “182 Mulheres portuguesas em França pela democracia e clareza política”





