Saúde: Como tirar o peso da organização familiar das costas das mulheres


São cada vez mais frequentes os relatos de mulheres exaustas, irritadas, com dificuldade em descansar, mesmo quando “não estão a fazer nada”. O corpo repousa, mas a mente continua ativa: lista de compras, consulta do filho, mochila por preparar, máquina por pôr a tempo. A sensação de ter de pensar em tudo, o tempo todo, é uma fonte comum de desgaste emocional.

Este funcionamento mental, marcado pela antecipação constante e pela necessidade de controlo, não é apenas uma questão de personalidade ou gosto por organização. É um padrão subtil, mas amplamente disseminado, em que são as mulheres quem mantém, quase por defeito, o fio condutor da vida doméstica.

Mesmo quando há partilha de tarefas visíveis, muitas continuam responsáveis por manter a lógica da casa a funcionar: lembrar datas, planear refeições, antecipar necessidades, gerir horários. Não está escrito em lado nenhum que esse trabalho lhes pertence, mas raramente é colocado em causa.

Com o tempo, este modelo de funcionamento pode cobrar um preço. Instalam-se sintomas como ansiedade, insónias, irritabilidade ou cansaço persistente. Não se trata de fragilidade, mas de exposição prolongada a exigências mentais contínuas, sem pausa nem redistribuição justa.

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Como aliviar este peso?

O primeiro passo é reconhecer que esta sobrecarga existe, que é real e que compromete o bem-estar. Enquanto for vista como algo natural ou inerente ao papel feminino, continuará a repetir-se.

É preciso abandonar a ideia de que ajudar é suficiente. A ajuda mantém a lógica de que a responsabilidade principal é de uma só pessoa. O que se exige é corresponsabilização: pensar em conjunto, antecipar em conjunto, dividir não só o fazer, mas também o cuidar e o lembrar.

O problema não é só a ausência de participação prática, mas o que se tem chamado mankeeping: quando os homens colaboram na execução, mas deixam o planeamento e a gestão para as mulheres. Romper com esse padrão implica mudanças concretas: reparar no que está por fazer sem esperar instruções, assumir tarefas de forma autónoma, planear a dois e reconhecer o esforço de quem tem sustentado tudo.

Em contexto terapêutico, é frequente trabalhar-se o reconhecimento de padrões adquiridos ao longo da vida. Crenças como “tenho de dar conta de tudo” ou “pedir ajuda é sinal de fraqueza” estão muitas vezes enraizadas em modelos de exigência e validação através do desempenho. Desconstruir essas ideias é fundamental para recuperar o direito ao descanso, à partilha e ao prazer sem culpa.

Por fim, é necessária uma mudança educativa mais profunda. nas escolas e nas famílias. Meninas e meninos devem ser envolvidos desde cedo na organização da vida quotidiana. Precisam de aprender que a gestão da casa e das emoções é responsabilidade de todos, e não uma missão delegada às mulheres.

Aliviar as mulheres da sobrecarga da organização familiar não é uma exigência individual, é uma mudança relacional. Quando o mapa do dia a dia deixa de viver na cabeça de uma só pessoa e passa a ser partilhado, todos respiram melhor.

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Dra. Ângela Rodrigues

Psicóloga

Clínica da Mente

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