Foi inaugurada ontem ao fim da tarde, no Consulado-Geral de Portugal em Paris, a exposição “Orgulhosamente ABRIL”, do artista lusodescendente Glaçon. Mas antes da inauguração propriamente dita, teve lugar uma mesa-redonda organizada pelo projeto Literanto, moderada por Sara Novais Nogueira, Diretora do Conselho Cultural da AILD/França, com Jorge Barreto Xavier, Conselheiro cultural da Embaixada de Portugal em França e Diretor do Instituto Camões em Paris e o próprio artista.
O salão Eça de Queirós do Consulado estava completamente lotado e destacou-se a presença dos atores Luís Rego e Lionel Cecílio, do escritor Manuel do Nascimento ou do músico Quitó de Sousa.
A Cônsul-Geral de Portugal em Paris, Mónica Lisboa, abriu a sessão explicando que “queremos que estes salões sejam um espaço de partilha, de encontro, de pensamento crítico, sobre temas que interessam à nossa Comunidade, na sua mais ampla diversidade, ao espaço lusófono e à projeção de Portugal enquanto país universalista e humanista, profundamente comprometido com a cultura, a liberdade e o diálogo”.
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Uma exposição que apela ao diálogo entre gerações
Glaçon apresenta na Chancelaria do Consulado, Espaço Nuno Júdice, uma mostra densa de obras relacionadas com personagens que fizeram Abril e com situações da história pessoal do próprio artista. “Mais do que ver a exposição e ler o que escrevi, o importante é que cada um de vocês se lembre da vossa própria história. Na exposição evoco muito a minha história pessoal, porque não conheço a vossa, mas interroguem-se sobre a vossa própria história”.
Na sala estava uma parte da família do artista, como os avôs, e outros que não falam português “e que não estão a perceber absolutamente nada do que eu estou a dizer” disse com humor o artista.
Na verdade, a exposição foi também uma oportunidade para o artista se interrogar sobre a sua própria história e a história da sua própria família. Explicou que quando estava a montar a exposição e em particular um quadro onde estava a bandeira de Cabo Verde, uma criança perguntou à mãe “Há quanto tempo existe o nosso país?”. “Esta pergunta deixou-me feliz. É isso mesmo que eu quero com esta exposição, que as pessoas se interroguem. Neste caso era uma criança filha de caboverdianos, do Tarrafal. Esta criança percebeu a essência do meu trabalho. Eu queria isso mesmo, que os jovens cheguem a casa, se sentem em frente dos pais e dos avôs e lhe peçam para contarem a história deles” porque “a nossa ligação com Portugal não pode ficar apenas pelas férias no Algarve, tem de ir mais longe” acrescentou.
Para a Cônsul-Geral Mónica Lisboa, “Glaçon desafia-nos com o seu olhar singular e a sua criatividade. Agradeço por nos convidar, através da sua arte, a sair da nossa zona habitual de conforto e a olhar para a memória e a história com novas perspetivas” disse. E depois completou com uma referência ao 25 de Abril, presente no trabalho do artista. “Através da exposição temos um convite aberto a celebrarmos os valores de Abril que a liberdade abriu e também descobrir arte urbana enquanto expressão viva da memória e da expressão artística entre os nossos dois países e favorizar a transmissão às novas gerações”.
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“A criação artística é um poder quase divino”
Jorge Barreto Xavier começou por abordar o sentido da palavra “ilustração” porque “ilustrar é um exercício fundamental para a nossa vida interpessoal e para a nossa vida exterior” e considera que “as gerações mais novas querem saber mais sobre a sua história, sobre as suas raízes. Isso é muito interessante”.
Para o antigo Secretário de Estado da Cultura, “a criação artística é um poder quase divino. Os artistas são capazes, como Deus, de criar novos mundos. Talvez sejam deuses menores, mas desempenham um trabalho fundamental”.
Ainda nas suas intervenções durante a mesa-redonda, Jorge Barreto Xavier explicou a importância das “redes”. “Nós temos de trabalhar juntos, em rede. Sozinhos não podemos grande coisa. Nós por vezes temos esquemas de funcionamento tribais, e desentendemo-nos entre pessoas da mesma comunidade, mas há elementos culturais que nos aproximam, que nos unem”.
“A questão da rede é essencial. O Estado sozinho não pode fazer tudo. As associações também não, mas cada um pode fazer a sua parte”.
Chamado a pronunciar-se sobre o 25 de Abril de 1974, Glaçon assumiu que “o 25 de Abril abriu tudo. Abriu as portas à Arte”.
Jorge Barreto Xavier moderou: “Antes do 25 de Abril também havia criação artística em Portugal” e evocou mesmo a importância da criação artística como “ato de Resistência”, no teatro, na canção, na dança, no cinema… Mas concordou que depois da Revolução dos Cravos “a criação deixou de ser condicionada, deixou de ter os travões da censura, e de ter medo da prisão”.
Lembrou que “Portugal tinha mais analfabetos em 1974 do que tinha a Argentina em 1900” e que “Salazar desceu o ensino obrigatório da 4ª para a 3ª classe. O país estava numa pobreza enorme e aliás, é por isso que nós estamos aqui hoje, em grande número” referindo-se à forte emigração para França durante o Estado Novo.
“O que nós ganhámos é extraordinário, se compararmos com o que provavelmente perdemos. A história é escrita pelos vencedores, mas é bom não esquecermos” concluiu.
Para Mónica Lisboa “a língua e a cultura não se preservam apenas, vivem-se, reinventam-se e partilham-se” e no final, os presentes partilharam também um Porto de Honra e uns Pasteis de Nata.







