Primeira exposição da obra “desconhecida” do enigmático Alvess na Galerie Jocelyn Wolff


Um dos mais enigmáticos artistas portugueses de França, Manuel Alvess, falecido em 2009, tem enfim uma primeira exposição individual em Paris, na Galerie Jocelyn Wolff, até 7 de março. Esta sexta-feira, no fim da tarde, teve lugar na galeria parisiense, um debate sobre a obra do artista com a crítica de arte Anne Bonnin, o artista e investigador franco-português António Contador, moderado por Jocelyn Wolff.

“Haute Surveillance” é apresentada como sendo a primeira exposição individual em França da obra de Manuel Alvess, mas na verdade, a Caixa Geral de Depósitos de Paris já tinha organizado uma exposição na agência Marceau e comprou-lhe aliás uma obra que foi recentemente exposta na Embaixada de Portugal em Paris.

Manuel Alvess nasceu em 1939, veio para Paris em 1963 e aqui faleceu em 2009. Teve dois filhos, mas “não era dado para o casamento” assumiu Anne Bonnin, na presença da filha do artista, Clara, que estava na sala. Vivia num pequeno estúdio de 40 metros quadrados, em Paris, onde pintava.

É um dos pintores menos conhecidos de todos os que passaram por França. E Anne Bonnin explica que Manuel Alvess não veio para Paris com uma bolsa da Gulbenkian e não fugiu à Guerra colonial, porque foi isento do serviço militar “por miopia e por ter os pés chatos”. Por isso, era certamente dos menos politizados dos pintores que viveram em Paris. “Alvess não vivia da pintura. Trabalhava numa gráfica, tinha uma profissão, e isso dava-lhe uma liberdade em relação à arte. Ele fazia o que queria, pintava para se expressar e não para ganhar a vida, sem a pressão que os outros artistas tinham de produzir, para viverem da arte”.

Para esta apresentação inaugural, a Galerie Jocelyn Wolff escolheu um conjunto de obras nunca antes expostas, que nunca tinham saído do seu atelier, que a família guardou tal e qual.

“A pintura de Manuel Alvess, tal como hoje nos chega, atinge-nos de imediato. A sua acuidade surpreende. Trata‑se de uma linguagem visual de simplicidade fulgurante: um estilo gráfico depurado, uma iconografia reduzida ao essencial. Muitas vezes, temos a impressão de que o quadro nos observa, nos vigia, com ironia, sarcasmo ou ameaça” assume Anne Bonnin, conhecedora da arte contemporânea portuguesa.

A única grande exposição individual de Alvess teve lugar no Porto, no Museu Serralves. Foi graças à artista Lourdes Castro, que os curadores João Fernandes e Sandra Guimarães visitaram Alvess em Paris. Foram ao estúdio do artista, ficaram surpreendidos por não verem nada, e, pouco a pouco, Alvess começou a desembrulhar obras e encheu não apenas o estúdio, mas também o corredor e as escadas que davam acesso ao estúdio. Esta exposição, em 2008, no Museu Serralves, tirou Manuel Alvess do anonimato, mas morreu um ano depois.

“O artista desenvolveu o seu trabalho numa marginalidade artística, afastado do mercado e das redes institucionais, sem, no entanto, ser associal ou desligado do mundo” descreve Anne Bonnin. “Serralves concebeu uma exposição centrada nos seus objetos de medida e linguagem, nos envios postais e nas performances, inscrevendo Alvess no contexto de uma jovem vanguarda conceptual parisiense e internacional. A escolha de pinturas que abordavam temas de administração e burocracia ia igualmente nesse sentido”.

António Contador disse que Alvess fez tudo para não mostrar a sua arte, mas tanto Anne Bonnin, como Jocelyn Wolff discordaram, como discordou a sala, nomeadamente Miriam Rewald Dacosta, a viúva do artista António Dacosta.

Interroga o facto de, em mais de 40 anos de trabalho artístico, Alvess apenas tenha realizado uma grande exposição, a de Serralves, e tenha criado apenas umas 60 obras.

“Foi o depositário mais fiel de uma estética reflexiva: o quadro como espaço especulativo, onde o pintor põe à prova a própria pintura, num diálogo contínuo com a arte contemporânea. Nos anos 1960, está em sintonia com as vanguardas, a arte conceptual, a performance e o mail art, participando em importantes manifestações em Paris e na Bienal de São Paulo” salienta Anne Bonnin. “Depois, o seu trabalho adquire um carácter semiótico, aproximando-o de artistas como Edward Ruscha ou Jack Goldstein, ou de tendências pop e pós-conceptuais dos anos 1980, especialmente na vertente americana, partilhando procedimentos de apropriação e descontextualização de signos e palavras”.

A conversa desta sexta-feira pôs também em evidência o comportamento “dândi baudelairiano” de Manuel Alvess. Com uma “aparência impecável: chapéu Borsalino, blazer, colete, calças brancas no verão. Adotou um estilo definitivo, construindo a figura de um personagem elegante, ligeiramente anacrónico” descreve Anne Bonnin. António Contador lembrou que ele tinha uma postura de Fernando Pessoa. “Ele encenava a sua presença”.

A exposição está patente ao público até 7 de março, mas Jocelyn Wolff tenciona continuar a mostrar a obra de Manuel Alvess em França, e abordar outros temas da obra do artista em próximas exposições.

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Galerie Jocelyn Wolff

1 rue de Penthièvre

75008 Paris

Infos: 01.42.03.05.65

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