
Adeline Roldão Martins, a Maire de Survilliers, volta a ser candidata à sua reeleição. Filha de um português alistado na Légion Etrangère, nasceu em Toulouse, mas circulou pelo país antes de se fixar na região parisiense.
Já foi candidata a Deputada e a Senadora, mas diz que é nas funções de Maire que se sente bem.
Nesta longa entrevista ao LusoJornal explica também que é uma Europeísta convicta e diz que um simples Pastel de Nata ao pequeno almoço, mantém as suas raízes portuguesas.
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Quer falar-me das suas origens portuguesas?
Eu nasci em Toulouse, filha de pai português e mãe italiana. O meu pai, na verdade, era Legionário paraquedista. Veio para França e alistou-se ao serviço da bandeira francesa. Tinha 17 anos. Ele nasceu em 51, portanto veio em 1968. Fugiu do regime de Salazar e então entrou para a Legião Estrangeira, como paraquedista, e fez carreira no exército francês.
Acabámos por andar bastante de um lado para o outro. Depois de Toulouse fomos para Djibouti, vivemos muito tempo na Córsega, em Calvi, ele fez várias operações no estrangeiro. Depois acabámos Castelnaudary, e ele partiu para Mururoa, na altura dos testes nucleares. Depois regressou a Bayonne, etc.
Todos os anos íamos ver a família. Desde muito pequena fui a Portugal, passava as minhas três semanas de agosto com os meus avós, as minhas tias, os meus primos. E foi assim que, em pequena, aprendi a falar português. E hoje ainda tenho a minha avó – já não tenho o meu pai, que faleceu há alguns anos – mas continuo a ir ver a minha avó e as minhas tias em Portugal, em Pinhal Novo, perto de Setúbal.
E acompanha a política portuguesa?
Não, não acompanho a política em Portugal, não por falta de interesse, mas por falta de tempo. No entanto, o meu apego à Europa e à unidade que construímos entre os países vem, inevitavelmente, de ter um pai português, uma mãe italiana, e eu própria ser francesa. A Europa faz sentido. Portugal é um ator importante na Europa, e eu acompanho talvez mais através das políticas europeias do que da política interna portuguesa, as posições que Portugal assume a nível europeu.

Quando decidiu envolver-se politicamente?
Havia algumas sementes da infância. Em casa, os meus pais não eram particularmente politizados, mas eu sempre tive, desde os 6 anos, um fascínio pelos Presidentes da República, pela Terceira República, pela história contemporânea da Democracia, etc. Isso acompanhou-me durante toda a infância e parte da adolescência. Fiz Sciences-Po Toulouse, depois fui para o setor privado, porque não queria ser um produto da Administração, queria estar no terreno. Mas não perdi esse interesse pela política, dizia para mim mesma que “a minha carreira começa no privado”. E depois a política acabou por me apanhar.
Cheguei a Survilliers há relativamente pouco tempo, há 12 ou 13 anos, estava envolvida numa associação e, na altura, aquela que hoje é a minha primeira Adjunta – que já era Adjunta do Maire – veio ter comigo e perguntou-me se não estaria interessada. E isso despertou todas aquelas memórias. Fiz a campanha do Maire em 2014; o meu objetivo era apenas ajudar, nem sequer tinha ambição de entrar na lista. Mas ele disse: “sim, sim, vens!”. E rapidamente entrei na lista, rapidamente fui nomeada Adjunta. Ele deixou as funções em 2020. Então apresentei-me às eleições municipais de 2020. O meu passado apanhou-me, e não me arrependo nada, porque o compromisso com os outros, com o interesse geral, é extraordinário.
Essa implicação exige muitos sacrifícios?
Acho que é uma forma de equilíbrio. É verdade que em relação aos filhos… mas quando isso está enraizado em nós… A minha família sabe que eu sempre fui muito ativa, e eu sou assim, preciso disto para me realizar. É a ideia de servir para alguma coisa, ao nosso nível, na nossa escala, de contribuir com aquela pequena gota de água que alimenta um rio. Quando fazemos ações para os nossos seniores, quando sensibilizamos as crianças para a cidadania, com ações ambientais, estamos a semear pequenas gotas. E espero que, quando estas crianças crescerem, se lembrem – como eu me lembro – do que significa envolver-se pelos outros, porque no fundo é trabalhar pela unidade. Até fico arrepiada, porque não gosto muito de falar de mim, mas é isso que me anima, que me motiva, por isso não é um sacrifício. Eu sou assim, a minha família sabe que sou assim, e contribuem também, com a sua paciência e com a ajuda logística que podem dar.

É então uma europeísta convicta?
Sim, sou europeísta convicta. Não por uma forma de idealização, porque já não é a Europa do início; tem de acompanhar o seu tempo, temos de trabalhar políticas de coesão. Também sou crítica das instituições, que precisam de ser melhoradas, de evoluir. Europeísta convicta, sim. Porque é que a Europa foi criada? Pela paz, antes de tudo pela paz. Depois veio a parte económica, o mercado único. Mas os fundadores da Europa tinham a paz como fundamento para cada país que se juntou ao projeto europeu. Hoje podemos falar de Europa da Defesa, mas até à guerra na Ucrânia ninguém queria ouvir falar disso.
Todos os anos, no dia 11 de novembro, entrega bandeiras francesas às escolas de Survilliers. Porquê?
Todos os anos, antes do 11 de novembro, dia em que se comemora o Armistício, entrego as bandeiras – a bandeira francesa e a bandeira europeia – para sensibilizar os alunos ao dever de memória. Eu pertenço a uma geração que não conheceu a guerra, e tenho consciência disso. Lembro-me disso todas as manhãs quando acordo – e ainda por cima tendo tido um pai militar – fico feliz por viver onde vivo, fico feliz com um raio de sol, com as pessoas à minha volta. Temos uma sorte preciosa e esquecemo-nos disso. E estes momentos de dever de memória são importantes para recordar a história do nosso país. Nos tempos atuais a paz é um tesouro, a paz é preciosa e a paz cultiva-se todos os dias. Um dos mais belos presentes quando se é Maire é quando encontramos crianças na rua que me chamam “Madame la Maire!”, e vêm ter comigo, dão-me um abraço, ou apertam a mão. Isso significa que o símbolo ainda existe, significa que a esperança, a cidadania, tudo isso, ainda está lá. E é preciso alimentar isso nas crianças. E a simbologia… é por isso que eu uso a minha faixa nesses momentos com as crianças, porque o símbolo é forte, e elas sentem-no. Estamos a construir a sociedade de amanhã.
Como me pode descrever Survilliers?
É uma grande aldeia. Está no limite entre aldeia e pequena cidade, ainda envolvida por um manto verde, ainda preservada, a 30 km de Paris pelo RER e com um património envelhecido que também precisa de ser atualizado. É uma aldeia que se está a transformar pouco a pouco. Uma aldeia que não tem vocação para se tornar uma grande cidade – não é a nossa vontade política – porque as estruturas, e sobretudo as cidades à escala humana, são mais agradáveis. Conhecemos as pessoas, vê-se o vínculo entre uns e outros. E é uma aldeia com uma particularidade que gosto de mencionar: Survilliers tem hoje 4.500 habitantes, e vamos ganhar cerca de 1.000 habitantes até 2028-2029, quase um quarto da população. E em Survilliers temos uma vida associativa extraordinária. O número de associados nas associações é mais de metade dos habitantes. Temos cerca de 2.500 inscritos nas associações de Survilliers. Isto mostra uma forma de vitalidade.
Já foi candidata a Deputada e a Senadora. Era um objetivo ir mais longe na vida política?
Eu não posso dizer que era um objetivo. Sou alguém que vive um pouco ao sabor das minhas vontades e das oportunidades. É verdade que, na altura, eu era muito jovem, muito “verde” na política e surgiu essa oportunidade, em 2017, para as Legislativas. Aprendi muito com essa candidatura, aliás, porque sou tímida e a campanha libertou-me um pouco na relação com os outros. Sei que parece estranho dizer que sou tímida, mas garanto-lhe que sou. Foi uma etapa bonita na minha construção política. Depois vieram as municipais, que ganhámos. E depois, as senatoriais foram também uma questão de oportunidade: tinham-me abordado, recusei numa primeira fase, e acabei por aceitar. Aceitei sabendo perfeitamente que o objetivo não era ser eleita. Eu não tinha vontade de deixar a minha comuna. Sou uma jovem Maire e quero continuar aqui para os meus eleitores. Sou alguém que quer, sim, investir-se no serviço público, mas não tenho um plano de carreira. Primeiro, é preciso trabalhar, provar, colher os frutos do trabalho, e depois veremos o que o futuro reserva.

A França ganha alguma coisa com esta sua tripla influência cultural?
Multicultural é a palavra certa. A diversidade é uma força. Eu não fui criada exclusivamente na cultura italiana, nem exclusivamente na cultura portuguesa, tive bases. De Portugal tenho imensas memórias que ficam para a vida adulta. Quando lá vou, preciso de ir tomar o pequeno-almoço com o meu pastel de nata, para me reencontrar com a cultura portuguesa. Faz parte de mim. Sim, a França ganha com isso. Não existe uma nação que se construa fechando-se sobre si própria. Não esqueçamos: a França continua a ser uma terra de acolhimento. Sem querer entrar em política politiqueira, a França continua a ser uma terra de acolhimento, e é preciso garantir a coerência desse acolhimento. Quando se chega a França, é preciso amar a bandeira, amar o país. Se não se tem essas bases, não se deve vir para França. E, no entanto, todas as pessoas que partilham isso, são bem-vindas para co-construir esta sociedade, para crescer connosco. Portugal não é o meu país. O meu país é a França. Mas respeito a bandeira portuguesa, respeito as suas especificidades, a sua cultura. Temos culturas muito próximas. Mas se eu for a outro país, será igual: respeito o país onde estou, a sua cultura, as suas tradições. E isso é um alicerce. A partir do momento em que há respeito pelo outro e aceitação da diferença, o viver em conjunto funciona muito bem.
E Portugal, tem algo a ganhar com o facto de ter uma lusodescendente eleita em Survilliers?
Acho que Portugal tem a ganhar no sentido do seu “rayonnement” cultural e também da sua influência em França e na Europa. Não vou até ao mundo, porque estou mais focada na Europa. Mas a influência dos países faz-se através da língua, da cultura, da presença e da rede. E isso cultiva-se assim. Temos belas amizades políticas com Portugal em vários temas, e isso contribui. É influência.
Politicamente, onde se situa?
Eu sou centro-direita, assumidamente. Se tiver de lhe dar uma figura de referência: Édouard Philippe, nessa linha do centro-direita. Historicamente, pessoas como Alain Juppé dizem-me alguma coisa. E pessoas como Jean-Louis Borloo também.
Quer acrescentar algo a esta entrevista?
Sim, talvez uma coisa, que é um pouco pessoal. Acho que o meu percurso – o meu modesto percurso – deve muito à natureza de tudo isto, aos seus primeiros sinais, e isso remete para o meu pai e para o seu compromisso. Nunca foi algo dito explicitamente e o meu pai faleceu quando eu ainda era jovem, mas sempre me perguntei de onde vinha este lado meu, esta vontade de fazer isto. E acho que esta cultura da bandeira francesa, ainda por cima num português muito ligado a Portugal, que planeava viver a reforma em Portugal, e este compromisso com um país que não era o dele, mas com valores comuns… penso que o meu compromisso inconsciente nasceu aí, através do meu pai, português.






