Lusa | Mário Cruz

António Lobo Antunes morre aos 83 anos: Figura maior da literatura Portuguesa


O escritor António Lobo Antunes, um dos maiores nomes da literatura portuguesa desde a segunda metade do século XX, morreu esta manhã aos 83 anos, confirmou à Lusa fonte editorial. É irmão do Embaixador Manuel Lobo Antunes, representante de Portugal junto da OCDE, em Paris.

António Lobo Antunes nasceu em Lisboa, em 01 de setembro de 1942, licenciou-se em Medicina, pela Universidade de Lisboa em 1969, tendo-se especializado em Psiquiatria, que mais tarde exerceu no Hospital Miguel Bombarda. Optou pela escrita a tempo inteiro em 1985, para combater a depressão que dizia ser comum a todas as pessoas.

“Nunca soube verdadeiramente fazer outra coisa que não escrever”, declarou o escritor à Lusa, em 2004, quando já tinha recebido o Prémio União Latina (2003) pelo conjunto da obra, e a lista de distinções já ia do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE) ao Melhor Livro Estrangeiro publicado em França (“Manual dos Inquisidores”) e ao reconhecimento pela Feira do Livro de Frankfurt (1997), na Alemanha.

A sua obra fala da solidão, da morte, do amor, da loucura e, invariavelmente, da guerra colonial, para a qual foi mobilizado em 1970, embarcando para Angola no ano seguinte, de onde regressou em 1973.

“A psiquiatria está presente nos meus romances, mas não só da maneira explícita como os críticos habitualmente observam”, disse António Lobo Antunes ao jornal Estado de S. Paulo, em 1996. “Eles prendem-se aos aspetos temáticos, mas há uma influência ainda maior, que aparece na técnica. A formação em psiquiatria é uma aprendizagem técnica, um exercício de lucidez e rigor. Ela deu-me um raciocínio diferente, uma maneira particular e talvez mais aguda de encarar o mundo. […] Além disso, a psiquiatria dá-nos um contacto intenso com o sofrimento e a morte. Isso enriqueceu-me e fez-me ver que poucas coisas realmente valem a pena nesta vida. Ela ajudou-me também a ver como relativos o sucesso e o insucesso. É claro que a literatura é importante, mas existem coisas muito mais importantes”.

O seu primeiro livro, “Memória de Elefante”, surgiu em 1979, logo seguido de “Os Cus de Judas”, no mesmo ano, sucedendo-se “Conhecimento do Inferno”, em 1980, e “Explicação dos Pássaros”, em 1981, obras marcadas pela experiência da guerra e pelo exercício da Psiquiatria, que depressa o tornaram um dos autores mais lidos em Portugal.

Em 1987, o Prémio Literário Franco-Português foi atribuído à tradução francesa do romance “Os Cus de Judas”. Foi o primeiro prémio de dimensão internacional que o escritor recebeu ao longo de 45 anos de carreira literária, distinguida em 2007 com o Prémio Camões, atribuído em conjunto por Portugal e Brasil.

Em França também teve o Prix France Culture de Littérature Étrangère em 1996 por “A morte de Carlos Gardel”, e o Prémio de Melhor Livro Estrangeiro, por “Manual dos Inquisidores”, em 1997, romance também distinguido em Frankfurt, na Alemanha, como melhor obra traduzida, no mesmo ano.

A República Portuguesa condecorou-o com o Grande Colar da Ordem de Sant’Iago da Espada, em 2004 e, em 2019, com a Ordem da Liberdade. França deu-lhe o grau de “Commandeur” da Ordem das Artes e das Letras, em 2008.

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

Não perca