A existência de grupos extremistas de vários matizes, identitários, supremacistas, nacionalistas, neonazis, violentos e agressivos seja na retórica ou na ação, não é um fenómeno novo em Portugal e muito menos na Europa. Apesar do nazismo, dos fascismos e das ditaduras terríveis que Portugal e a Europa conheceram, é surpreendente que continue a haver pessoas que perfilhem este tipo de ideologias segregacionistas, sempre geradoras de violência e tensão nas sociedades.
Portugal e os portugueses foram profundamente marcados pela repressão e falta de liberdades que caracterizaram a ditadura, pela tortura e perseguições, pela pobreza e subdesenvolvimento, o que deveria funcionar como uma vacina contra qualquer adesão a partidos e movimentos extremistas, que existem como se a memória da nossa tragédia coletiva se tivesse apagado. Nalguns casos há mesmo gente saudosa do salazarismo, o que é uma aberração à luz da nossa história migratória e colonial.
Pensar nisso causa incómodo e vergonha, por ser uma manifestação de irracionalidade e desumanidade, por ser contranatura.
Numa edição recente do Diário de Notícias, revelava-se que as autoridades estão a acompanhar uma quantidade absurda de grupos extremistas, 14 pelo menos, que têm um nível de organização e solidez ideológica variável, uns mais ativos e presentes que outros.
Recentemente, a Polícia Judiciária levou a cabo a operação Irmandade, na qual foram detidos vários elementos do grupo neonazi 1143, alguns com ligações ao Chega, que tinham em preparação ações urbanas para espalhar o caos com um ataque racista em larga escala. No ano passado, numa outra operação, foi desmantelado um outro grupo chamado MAL-Movimento Armilar Lusitano, que tinha pensado fazer um assalto ao Parlamento.
É uma perfeita loucura que grupelhos de gente violenta e comportamentos totalitários achem que podem destruir as democracias e condicionar as liberdades.
Nunca será demais alertar para o facto de os aderentes a estes grupos extremistas que proclamam o ódio e a segregação racial, serem essencialmente eleitores do Chega, por verem nesse partido a legitimação para as suas atividades.
Com efeito, há um antes e um depois do surgimento do partido Chega. Antes, alguns destes grupelhos já existiam, mas andavam na sombra, clandestinos, sem coragem de se mostrar à luz do dia. Mas com o aparecimento do Chega, surgiram novos movimentos extremistas que passaram também a sentir-se legitimados e apoiados, e perderam a vergonha de sair à rua e de soltar as suas provocações e o seu ódio às pessoas e à democracia, em choque com os princípios mais elementares da lei, da Constituição da República e da convivência democrática e pacífica.
Por isso, se existem pelo menos 14 desses grupos de ódio, é porque encontraram a abertura, os aderentes e os meios para ganhar o seu espaço na sociedade, o que demonstra que há uma permissividade e uma recetividade que precisa ser bem compreendida e combatida.
O que seria normal, numa sociedade decente, é que nem sequer existissem, quanto mais terem condições para proliferar.
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Paulo Pisco
Diretor do Departamento de Comunidades do PS
Ex-Deputado (PS) pelo círculo eleitoral da Europa






