O Salão do Livro Africano terá lugar em Paris nos dias 21 e 22 de março, tendo Angola como país convidado especial. Aproveitamos a oportunidade para entrevistar João Melo, autor do livro de contos “O Perigo Amarelo”, traduzido por Dominique Stoenesco e publicado pelas edições Pétra, sob o título “Le Péril jaune”.
João Melo estará presente neste Salão do Livro Africano e também num encontro com estudantes da Sorbonne Université, quarta-feira 18 de março.
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Entre ironia e travessia
Alguns livros ultrapassam fronteiras e acabam por mexer também na forma como vemos o mundo. Não são apenas obras que circulam entre países; são textos que, discretamente, alteram a perceção de quem os lê. A escrita de João Melo tem essa característica. Marcada por ironia contida, humor crítico e um olhar atento às estruturas de poder, ela não se limita a representar a realidade angolana: tensiona-a, inclina-a, expõe suas fissuras.
Ao ser traduzida para outra língua, essa escrita passa por um segundo gesto criador. Traduzir não é reproduzir; é escolher. É manter o ritmo sem endurecer a frase, preservar a ironia sem explicá-la em excesso, sustentar a crítica sem diluí-la.
Autor e tradutor conversam aqui sobre esse processo e sobre o que acontece quando um texto muda de idioma, de público e de horizonte cultural.
O processo
João Melo, ao acompanhar a tradução de sua obra, o que mais lhe preocupava preservar o ritmo da frase, a ironia ou a dimensão política do texto?
João Melo: A ironia, em primeiro lugar. O humor, para nós, angolanos e africanos, é uma forma de sobrevivência e resistência
Dominique Stoenesco, em que momento percebeu que não bastaria transpor palavras, mas seria necessário recriar o efeito literário?
Dominique Stoenesco: Quando embarquei na aventura da tradução, minha obsessão era permanecer fiel ao texto original, num estilo quase solene. Mas com isso eu deformava o texto. Tive que percorrer um longo caminho até entender que tinha que traduzir num estilo mais solto, porque a literatura traduzida não tem apenas uma função comunicativa. Aqui entra a questão da “transcriação” como complemento da tradução: em que medida a tradução transcreve um texto respeitando o projeto intelectual do autor e dando destaque às especificidades da língua-alvo?
O trabalho foi construído em diálogo constante ou o tradutor teve autonomia nas escolhas?
João Melo: Sempre que foi necessário, dialogámos, claro. Mas Dominique Stoenesco é um excelente tradutor e conhece bastante do português angolano.
Dominique Stoenesco: O diálogo com o autor, João Melo, foi indispensável e constante. Creio que o tradutor nunca é totalmente autónomo nas suas escolhas.
Ironia e deslocamento
Dominique, como traduzir uma ironia que muitas vezes se constrói nas entrelinhas?
Dominique Stoenesco: A ironia, bem como a metáfora ou a poesia, só podem ser traduzidas livremente. Na verdade, traduzir ironia depende de dois passos consecutivos: identificar a ironia (como compreendê-la?) e produzir a ironia (que técnicas de tradução utilizar para a representar no texto-alvo?). O tradutor deve também considerar a forma como o leitor do texto-alvo identificará e interpretará a ironia traduzida. Além disso, é claro, no caso presente, o tradutor deve ter um bom conhecimento da sociedade angolana contemporânea, dos seus estereótipos culturais e da sua história. No conto homónimo “O Perigo Amarelo”, mas não só nele, encontram-se vários exemplos do uso da ironia por João Melo.
João Melo, você se reconheceu plenamente na versão traduzida ou cada língua acaba revelando algo inesperado da própria obra?
João Melo: A tradução de Dominique Stoenesco é bastante fiel ao original. Aqui ou ali, obviamente, houve necessidade de “afrancesar” uma ou outra palavra ou construção. Mas é assim mesmo que tem de ser. Tradução não é transposição literal, mas interpretação.
A crítica social mantém a mesma intensidade quando atravessa culturas distintas?
João Melo: De um modo geral, sim.
Dominique Stoenesco: Sim, geralmente sim, mas por vezes com um grau de intensidade inferior, pois os seres humanos não se posicionam no mundo da mesma forma. A linguagem revela-nos algo sobre a psicologia e a cultura de cada povo. E é isso que é difícil de traduzir.
História e alcance
João Melo, sua ficção reorganiza o olhar sobre o real. A tradução amplia esse deslocamento ou inevitavelmente o transforma?
João Melo: Espero sinceramente que o amplie, sobretudo para os leitores estrangeiros, pois só assim eles poderão “entrar” plenamente – e, se possível, surpreenderem-se! – no texto traduzido.
Dominique, ao lidar com referências históricas específicas, optou por contextualizar o leitor ou preservar a densidade original do texto?
Dominique Stoenesco: A resposta está na sua pergunta: na verdade o tradutor tem que procurar um equilíbrio entre estes dois elementos interdependentes, ou seja, contextualizar o leitor e preservar a densidade original do texto. A tradução do livro “O Perigo Amarelo” (“Le Péril jaune”), de João Melo, ilustra perfeitamente a necessidade de respeitar este equilíbrio.
Encerramento
A literatura já é, por natureza, um deslocamento do real. A tradução talvez seja um segundo deslocamento, aquele que confirma que nenhuma obra pertence inteiramente a uma única língua.
Para encerrar, uma pergunta comum aos dois: traduzir é um exercício de fidelidade ou envolve sempre o risco – e talvez a necessidade – de uma traição criativa?
João Melo: Não tenho nada contra – pelo contrário! – essa possível “traição”. Desde que seja realmente criativa.
Dominique Stoenesco: A noção de traição é um dos temas mais prevalentes nas discussões em torno da tradução, daí a expressão “traduttore-traditore”. O texto traduzido resulta de uma operação que envolve o tradutor num esforço estético e na invenção de uma linguagem dentro da língua-alvo que ainda não existe. Assim, traduzir literatura significa correr riscos e tomar uma posição. Em princípio, a tradução é impossível, mas tem que ser feita. Este é o grande paradoxo. O tradutor tem que ser um criador, pois quando ele está traduzindo, ele realiza um trabalho literário. Quando me deparo com um obstáculo intransponível, tenho que criar uma narrativa que o seu autor não tinha escrito propriamente, pelo menos não com aquelas palavras e naquele estilo. É a tal lei das compensações na tradução: se perco numa determinada passagem, tenho que compensar em outra. Na verdade, quando traduzo estou em guerra com a minha própria língua.
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Marco Guimarães
Jornalista e escritor, é autor de 14 romances publicados em diferentes países, entre os quais Angola, Brasil, Croácia, França e Itália.







