Anne Hidalgo inaugurou ontem o Jardim Mário Soares em Paris, na presença da família do antigo Presidente

Na manhã de sábado, dia 31 de janeiro, foi inaugurado em Paris o Jardim Mário Soares, situado na rue Pixérécourt, no 20° bairro de Paris, perto do Metro Télégraphe, na presença da Maire de Paris Anne Hidalgo, do Maire de Paris 20 Eric Pliez, do Embaixador de Portugal em França Francisco Ribeiro de Menezes, da Cônsul-Geral de Portugal em Paris Mónica Lisboa e, sobretudo, da família e dos amigos de Mário Soares, que vieram de Portugal para partilhar este momento.

Eric Pliez foi o primeiro a discursar e a evocar Mário Soares. Lembrou que visitou pela primeira vez Portugal apenas três anos depois da Revolução do 25 de Abril. “A esperança era palpável, brilhava nos olhos dos portugueses e das portuguesas, encontrávamos jovens da nossa idade com a felicidade de partilhar enfim a liberdade e acreditando num futuro melhor”.

Eric Pliez agradeceu a Anne Hidalgo por ter escolhido o 20° bairro de Paris para prestar homenagem a este “humanista convicto”. “Prestar homenagem a Mário Soares é lembrar que a democracia é um combate que tem de ser renovado em permanência e que a nossa esperança, nunca renuncie”.

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Isabel e João Soares discursaram em nome da família

Isabel Soares, primeiro, e João Soares, depois, falaram em nome da família. Os dois falaram num francês perfeito, e lembraram “o amor que o nosso pai tinha pela França e que nos transmitiu”.

Depois de Eric Pliez ter evocado o “Homem de Estado” que foi Mário Soares, Isabel Barroso Soares afirmou que “foi um combatente pela liberdade e pela democracia”. Depois lembrou que foi preso 12 vezes. “A Isabel e eu, nós eramos especialistas em visitas às prisões” disse por seu lado João Soares.

“Para nós, é importante ter o nome dele aqui, neste 20° bairro de Paris, um bairro de Esquerda, como ele. Ele era Republicano, socialista e laico” referiu Isabel Barroso. “Tenho a certeza que, se ele fosse vivo, estaria na primeira linha para defender a liberdade e a democracia, que estão tão em perigo, no mundo inteiro”.

A família ofereceu a Anne Hidalgo uma obra de Júlio Pomar inspirada na 3ª vez que Mário Soares foi preso, em 1947.

João Soares falou mais. Lembrou aquele dia em que o pai teve de escolher entre ser preso pela 13ª vez ou exilar-se. “Reuniu os amigos e decidiu exilar-se” e veio de carro, com a família, para Paris.

Durante os quatro anos que passou na capital francesa, acabou de escrever o livro “Le Portugal bâillonné (“Portugal Amordaçado”) (edições Calmann-Lévy, 1972). Foi também aqui que conspirou com um grupo de amigos exilados e acabou por criar o Partido Socialista.

“O partido não foi fisicamente fundado em Paris porque havia alguém muito importante na Alemanha, que se chamava Willy Brandt e que foi um magnífico Presidente da Internacional Socialista. Mas também ainda não havia um Presidente Mitterrand em França” disse João Soares a sorrir.

João Soares lembrou ainda que o pai criou a primeira livraria portuguesa em Paris, na rue Gay Lussac, “um centro de resistência socialista em Paris”. Mas lembrou também que “o meu pai gostava muito de Paris, mas no primeiro dia, depois da Revolução, a única coisa na qual ele pensou foi de ir imediatamente para Portugal”.

E acrescentou que “os grandes exilados estavam todos em França, ou quase todos, com duas ou três exceções. Álvaro Cunhal, que também merece uma homenagem da cidade de Paris, estava em Paris”, mas regressou a Portugal dois dias depois de Mário Soares.

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Reunião da família e dos amigos de Mário Soares

Esta iniciativa nasceu durante a participação de Anne Hidalgo na campanha de Manuel Pizaro para a Câmara municipal do Porto. Aliás, Manuel Pizaro, antigo Ministro da Saúde, estava presente este sábado na inauguração. “Ele não ganhou a Câmara do Porto, mas nós ganhamos este jardim em Paris” disse, com humor, João Soares.

Para além da mulher de João Soares, Annick Burhenne, estava também a filha do casal, Lilah. “O meu filho mais novo vai chegar, talvez não exatamente à hora, como acontece regularmente com jovens de 22 anos” ri o antigo Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, antigo Ministro da Cultura e antigo Deputado.

Lá estavam os amigos dos últimos tempos de Mário Soares, como o antigo Deputado pelo círculo eleitoral da Europa, Carlos Luís e a esposa Maria de Jesus, mas também Filipe Guimarães, Secretário-Geral da Fundação Mário Soares e Maria Barroso, e amigos de longa data como Rodolfo Crespo e Carlos Monjardino.

Lá estava também o antigo Deputado Paulo Pisco, o atual Presidente da Assembleia Municipal de Lisboa, André Moz Caldas, o Cônsul-Geral de Portugal em Marseille Álvaro Esteves, mas também os Maires-Adjoints Laurence Patrice, com o pelouro dos antigos combatentes e Arnaud Ngatcha, com o pelouro das relações internacionais, o Conselheiro de Paris Hermano Sanches Ruivo, o Secretário-Geral da Secção de Paris do Partido Socialista, António Oliveira, e muitos outros portugueses.

Lilah Soares, a filha de João Soares, leu uma mensagem de Cécile e Gilbert Benoit, família de Jean Moulin.

O Embaixador de Portugal em França Francisco Ribeiro de Menezes também proferiu um bonito discurso. “Esta homenagem, à qual me associo com honra e emoção, é o fruto de uma ligação profunda que Mário Soares – o Presidente Soares – manteve com Paris durante a sua longa vida, desde o período particular em que viveu aqui, no início dos anos 70, professor em Vincennes Sciences-Po”.

Evocou depois outros portugueses que moraram em Paris como Eça de Queiroz, António Nobre, Mário de Sá Carneiro, Amadeu de Sousa Cardoso, José Mário Branco, Sérgio Godinho, “ou mesmo o meu predecessor e cofundador do Partido Socialista, António Coimbra Martins”.

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Anne Hidalgo diz que Mário Soares é “inspirador”

Anne Hidalgo, que tinha preparado um discurso sobre a vida de Mário Soares, percebeu que muita coisa já tinha sido dita. Decidiu então falar de improviso. “O percurso de Mário Soares deve inspirar-nos. Nós, mulheres e homens de esquerda, nós mulheres e homens democratas, progressistas, este percurso deve continuar a inspirar-nos. É uma herança. Mas uma herança não é algo que se deixa de lado. Uma herança deve ser uma verdadeira linguagem viva, sobretudo uma herança democrática e uma herança de combate, como a de Mário Soares”.

A Maire de Paris lembrou o momento em que participou na campanha de Manuel Pizarro. “Admiro muito o que tu fazes” disse. “Quero evocar aqui uma outra personalidade pela qual tenho muita admiração: António Costa, que devia estar aqui hoje, mas tinha outras obrigações”.

Falou também as suas origens espanholas, evocou François Mitterand, que considerava Mário Soares como “son ami”, lembrou que está no fim de mandato e não se recandidata, e assume Mário Soares como “um homem inspirador”.

“O mundo político tornou-se mais um teatro, por vezes feito por maus atores, que fariam melhor de se inscreverem em cursos antes de quererem ser atores” disse Anne Hidalgo. “A vida de Mário Soares – e vocês, os filhos, constataram isso – não foi um jogo. Arriscar a vida não é um jogo. Arriscar a vida é assumir as suas ideias, os seus valores e construir um novo mundo”.