Cédric de Oliveira volta a ser candidato a Maire de Fondettes


Cédric de Oliveira, que foi um dos mais jovens Maires de França e provavelmente o primeiro, com nome português, a assumir as funções, volta a candidatar-se em Fondettes, uma cidade com cerca de 11.000 habitantes na área metropolitana de Tours.

Nesta longa entrevista exclusiva ao LusoJornal, Cédric de Oliveira fala das suas origens portuguesas, mas também da Europa. Aborda ainda a forma como encara a vida política em França.

Apesar da sua juventude, Cédric de Oliveira foi, até agora, o Presidente da importante associação dos Maires d’Indre et Loire, eleito pelos seus pares e tudo indica que vai ter uma carreira política que não se esgota nas funções de autarca local.

.

Quer falar-nos das suas origens portuguesas?

O meu pai é português, nasceu em Portugal, e a minha mãe é francesa, mas cujos pais são portugueses. No fundo, sou francês, mas com sangue verdadeiramente português nas veias. Em 2014, quando me tornei Maire de Fondettes, as autoridades francesas entraram em contacto comigo para dizer: “Você é um dos mais jovens Maires de França, mas também é o primeiro Maire com um nome de origem portuguesa no país”. Para mim, isso foi realmente marcante, no sentido de que foi um motivo de orgulho e, ao mesmo tempo, despertou em mim a vontade de aprofundar ainda mais as minhas origens.

Não conhecia Portugal?

Eu conheço bem Portugal porque os meus avós me recebiam lá durante todas as minhas férias de verão. Os meus avós tinham uma casa na região do Porto, perto de Gondomar e os meus outros avós tinham uma casa na zona de Felgueiras, portanto eu passava férias lá. Descobri Portugal com os meus pais durante toda a minha infância e adolescência, e depois acabei por me afastar um pouco. Quando crescemos, temos vontade de nos emancipar, de fazer outras coisas, e eu descobri também a Europa e um pouco do mundo. Desde que me tornei autarca com estas origens portuguesas tão assumidas, voltei a criar laços ainda mais fortes com Portugal. Tive contactos com Parlamentares portugueses, membros do Governo português e voltei a Portugal depois de cerca de quinze anos de ausência, em 2017, quando visitei, com outros autarcas, a Assembleia da República.

E isso emocionou-o?

Sim, claro, porque penso que nunca se podem apagar as raízes. Na vida, há, como costumo dizer, o apelo das raízes. E quando voltei em 2017, esse apelo foi extremamente forte para mim. Disse para mim mesmo que devia aprofundar ainda mais quem tinham sido os meus avós, porque foram exemplos para mim, valores-refúgio quando era preciso. Os meus avós eram pessoas generosas, atentas, tolerantes. E é isso que às vezes reencontro no povo português: esse sentido de solidariedade que alguns países do mundo ocidental perderam. Portugal não o perdeu. Por isso, tenho bastante orgulho nestas raízes.

O que o levou à política? Em que momento aconteceu?

Começou aqui, neste município, no Conselho municipal de jovens. Para mim, foi uma verdadeira revelação, poder contribuir para melhorar a vida da cidade. E pensei: “Um dia, porque não tornar-me Maire?” Na altura, podia parecer engraçado, porque eu dizia isso abertamente – tinha 12 ou 13 anos – “Eu quero ser Maire desta cidade”. Vinte anos depois, já não acharam tanta graça. Porque acabei mesmo por me tornar Maire.

E entrou em algum partido político?

Na altura, os partidos tinham mais prestígio do que hoje. Entrei no RPR, com Jacques Chirac, porque a sua dimensão humana me dizia muito, tal como a sua abertura ao outro. E pensei: “Porque não seguir este homem?” E assim fui formado no partido, no militantismo e também na reflexão. Porque, naquela época, tínhamos de pensar: “Como podemos melhorar a vida dos outros?” Isso é algo que os partidos já não fazem hoje. Para mim, foi aí que criei verdadeiras amizades. Depois continuei os meus estudos, comecei a trabalhar num grande grupo francês e tornei-me quadro na área das relações sociais. A fibra social, no fundo, chamou-me novamente, de forma suave. Tornei-me Conselheiro do Presidente do Departamento de Indre-et-Loire e isso levou-me até à eleição como Maire e depois Conselheiro departamental. E tive a honra de ser eleito Presidente da Associação dos Maire de Indre-et-Loire em 2017. Maire aos 26 anos, Presidente da associação aos 30, e aos 32 tornei-me Conselheiro departamental do cantão de Saint-Cyr-sur-Loire, que reúne cinco municípios.

E alguma vez pensou que um dia poderia ser Presidente da República? Os seus sonhos vão mais longe?

Quando fazemos política, há uma base que ressoa em nós. Temos vontade de mudar o mundo. Isso ainda vibra em mim. É uma chama muito forte: mudar as coisas, melhorar a sociedade, torná-la mais justa para com o outro. Por agora, estou comprometido com este município. A minha cidade era uma cidade-dormitório, agradável, porque era uma cidade de campo. Eu nasci aqui, vi a sua evolução, participei nessa evolução com a minha equipa municipal. Mas não sou favorável a fazer carreira eterna nesta função. Acho que há etapas a respeitar. Mostramos quem somos, o que sabemos fazer, e um dia, se formos mais úteis noutro lugar, a vida decidirá. É preciso deixar-se levar. É um pouco a minha filosofia de vida.

O que representa, para si, o facto de haver tantos autarcas franceses de origem portuguesa?

É a prova de que os portugueses souberam integrar-se neste país maravilhoso que é a França e, ao mesmo tempo, continuam a servir este país. Participaram na sua reconstrução após a II Guerra Mundial. E hoje têm autarcas que são franceses, como os outros, ao serviço da República. Acho que os autarcas de origem portuguesa são verdadeiros Republicanos, pelo menos os que conheci. São pessoas que querem contribuir para melhorar o país. Portanto, é uma continuação lógica da integração dos portugueses em França. E acho que é uma forma de honrar os nossos avós e bisavós.

Mas Portugal ganha alguma coisa com isso?

Claro que sim, porque isso faz parte também do seu raio de influência. Temos um sentido do outro muito forte, mais do que noutros lugares. E não sou eu que o digo – é o que as pessoas pensam em geral. Fico sempre muito feliz quando alguém me diz: “Fui a Portugal este verão e adorei”. Houve até uma senhora que me disse há pouco tempo: “Portugal é maravilhoso. É como a França dos anos 80, em termos de ambiente. As pessoas são respeitadoras, sorridentes, acolhedoras. Tudo aquilo que outros países, às vezes, perderam”.

É possível ser, ao mesmo tempo, um bom Maire, um bom francês, e um bom português?

Mas claro que sim – temos o direito de ser franceses e portugueses. A dupla nacionalidade é permitida. Mas, antes de tudo, somos cidadãos europeus. Se queremos que a União Europeia faça sentido, temos de aceitar todas estas diferenças que fazem de nós uma cadeia de seres humanos ao serviço de uma grande comunidade: a Europa. Acho que a Europa terá um papel muito importante nos próximos anos. Aliás, os portugueses são muito mais europeus do que os franceses, porque compreenderam esse desafio que é tão forte. Os autarcas de origem portuguesa, que têm esse sentido de comunidade, sabem também transmiti-lo aos franceses.

Já percebi que é um europeísta…

Mas eu defendo uma Europa muito mais democrática. A tecnocracia que existe na Europa já não fala ao povo, de forma geral. E penso que, para reconciliar os cidadãos com a Europa, será necessária uma Europa muito mais democrática. Por exemplo, eu sou favorável a que o Presidente da Comissão Europeia seja eleito pelo povo europeu. Isso faria sentido. E, inevitavelmente, isso levaria talvez um certo número dos nossos concidadãos a envolverem-se mais nas instituições.

Qual é a sua opinião sobre a Lei da paridade?

A lei da paridade – é inegável – fez progredir o lugar das mulheres na vida pública. O que é pena é que tenha sido necessária uma Lei. Não foram os partidos políticos, na altura, que disseram espontaneamente que as mulheres deviam ter o seu lugar na vida pública. Os Deputados e os Senadores foram obrigados a votar essa Lei porque ela se impunha. Desde 2001 há mais mulheres que entraram nos executivos municipais. As regras tornaram se mais exigentes: por exemplo, no meu município, enquanto Maire, tenho 50% de Adjuntos homens e 50% mulheres. Mas, ainda assim, a representação das mulheres continua a ser um verdadeiro tema na vida pública. Mesmo os jovens têm dificuldade em integrar-se na vida pública.

Fala por experiência própria?

Sei bem que foi uma verdadeira batalha, aos 26 anos, tornar-me Maire da minha cidade, porque “era demasiado jovem”, “não tinha experiência suficiente”. Mas não é isso que deve definir a vida pública. A vida pública deve ser o espelho do povo francês. E eu, para além da questão da paridade, fico satisfeito com o que está a acontecer, porque há uma feminização crescente. Recordo que na Assembleia Nacional ainda não estamos nos 50/50. Falta caminho. Mas, para além disso, há sobretudo um verdadeiro problema na vida pública: a representação socioprofissional. Não consigo conceber que, em França, haja tão poucos operários na Assembleia Nacional e tão poucos empresários. Nunca vimos tal coisa. Sem ser pejorativo, nem apontar o dedo, são principalmente pessoas do setor público que conseguem candidatar-se e exercer um mandato.

Porquê?

Porque têm a possibilidade de pedir disponibilidade para exercer funções públicas. Ainda bem e é um direito que deve ser preservado. Mas é preciso fazer o mesmo para o setor privado. Eu vinha do setor privado quando me tornei Maire e Conselheiro departamental, e foi um trabalho a tempo inteiro. Dirigir uma cidade de 10 mil habitantes é algo muito exigente: são 200 funcionários, 20 milhões de euros de orçamento, 33 eleitos no Conselho municipal, mais o meu mandato Departamental. Fui obrigado a pôr temporariamente a minha carreira privada entre parênteses. Portanto, está na hora – se assim posso dizer – de restaurar o prestígio da democracia, permitindo que o maior número possível de pessoas se envolva, com regras verdadeiramente flexíveis.

Durante este seu mandato que agora termina, foi alvo de comentários racistas, por ser português, da parte de um outro autarca departamental…

Para ser sincero, foi a primeira vez na minha vida que fui apontado por ter um nome português. É profundamente doloroso. A minha família ficou profundamente abalada. E isso também reflete estes tempos agitados, em que se procuram bodes expiatórios. Penso que, neste país e no mundo, os humanistas que defendem verdadeiros valores precisam de ser ouvidos. Hoje, nos media, ouvimos sobretudo pessoas com pensamentos muito negativos. E os humanistas não se afirmam o suficiente para explicar que, para construir uma sociedade, é necessária tolerância, sem dúvida, e que o outro pode ser uma verdadeira riqueza. Eu digo isto muitas vezes. Estamos a perder, neste mundo, o sentido das coisas. Tudo parte em todas as direções e ninguém aceita o outro tal como ele é. Portanto, sim, fiquei magoado com essa injúria racista. E sei que feriu, de forma geral, a Comunidade portuguesa em França, que reagiu a essa ofensa.

Como carateriza a Comunidade portuguesa de França?

Somos frequentemente apresentados como o bom exemplo. A Extrema-direita recupera muito esse discurso: “Os portugueses viviam em barracas, trabalharam, integraram-se, tiveram sucesso – ao contrário dos outros”. Ora, é precisamente o contrário. Os portugueses estão tão integrados que hoje todos temos, entre os nossos amigos, pelo menos um amigo português ou de origem portuguesa, ou até membros da família que acolheram portugueses. Os portugueses passam despercebidos porque são pessoas integradas, trabalham. São pessoas muito trabalhadoras, mais do que a média em certos países. Não se lhes pode apontar nada. Pagam impostos como toda a gente, têm filhos e netos integrados nos mesmos valores. Portanto, sim, podemos dizer que somos portugueses, mas os portugueses têm também – se assim posso dizer – um grande sentido de discrição. “Faço o que tenho a fazer. O país de acolhimento, a França, eu amo o como se fosse o meu.” É isso que importa reter.

Mas para fazer política, é preciso expor se, pôr se em destaque. É o contrário da discrição, não?

Eu escolhi outro caminho. Faço política porque, como expliquei, quero mudar a vida da minha cidade, contribuir para o país e recordar, nestes tempos turbulentos, que os valores humanistas devem continuar a prevalecer. Não se constrói uma vida apenas com negatividade e rejeição do outro. Acredito que é ao olhar para o outro que aprendemos. E esta sociedade, onde todos querem fechar-se sobre si mesmos, pode fazer-nos perder a nossa própria existência. E, aliás, isso mostra que devo ser um verdadeiro português, porque é isso que os portugueses têm no fundo do coração e da alma.

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

Não perca